Carta para Aquiles e Thor (e Zeus e TJ e Sirius Black) e para a (nova) Regina

Em janeiro de 2000, trouxemos o primeiro cachorrinho pra casa – o TJ. Durante mais de 26 anos, chegava em casa sendo recebida com lambidas, latidos, rabinhos abanando… TJ, depois Sirius Black, Aquiles, Thor e Zeus. Cada um deles foi embora… Thor e Aquiles ficaram mais tempo por aqui e se tornaram meus companheirinhos inseparáveis. Éramos nós 3 juntos. Desde 4 de junho de 2026, isso mudou. Thor foi embora e me deixou desolada, desesperada e sozinha…

Logo o Thor, Totóti, Totózinho… o cachorrinho mais fofo da nossa vida, o que ia com todo mundo, o que mais pedia carinho, que obedecia, que dormia no meu colo durante 2 ou 3 horas seguidas, enquanto eu assistia a um filme, o que andava comigo pela Asa Norte, o que era perfeito!… Ele não aguentou a falta do Aquiles… se foi no dia que fazia exatamente dois meses que o Aquiles tinha me deixado também. Tristeza. Solidão. Dor. Penso nele todos os dias e no que eu poderia ter feito de diferente.

Meu Aquiles… o cachorrinho que me escolheu, que me fez, pela primeira vez, tratar um pet como se fosse uma criança. Que me trouxe o amor maior do mundo, o olhar de admiração e uma paixão quase obsessiva por mim (sim, esse era o Aquiles). Morreu com 16 anos, nos meus braços. Levou um pedacinho do meu coração para o céu dos cachorros…

Racionalmente, eu sei que não posso me deixar sofrer tanto por isso. Tenho uma família linda e saudável, tenho um netinho maravilhoso que acabou de nascer, outro que vai nascer em agosto e ainda tenho a Elisa, que, “do alto dos seus 3 anos e meio”, me consola com abraços e os beijinhos mais carinhosos do mundo todo!

Quando recebi a notícia do Thor, entrei em desespero. Dois meses depois do Aquiles – mesmo dia. Um em 4 de abril, outro, em 4 de junho. Estava sozinha, em casa… as coisinhas dele ainda espalhadas por ali… caminha, pote de comida e de água… Eu prometi que o buscaria de manhã cedo na clínica, mas o telefone tocou antes. Gritei! Bateu um desespero – desses de gritar mesmo, sabe? Gritei pelo Aquiles, pelo Thor, pela minha separação, pelos lutos que talvez não tenham terminado de sentir ainda. Gritei por não entender a razão de ter que passar por este luto em tão pouco tempo, gritei pela Regina que nunca quis ficar sozinha, pela Regina que fui e pela Regina que ainda nem conheço direito. Pela Regina que tenho que aprender a ser. Chorei desesperadamente, como poucas vezes na vida. Desmoronei.

É verdade: estou bem e feliz bem na maior parte do tempo. Estou feliz – e é de verdade. Tenho uma casinha linda, que estou terminando ainda de arrumar com muito carinho. Tenho vida em mim – muita vida… Tenho novos projetos, duas filhas incríveis,  amigas, amigos, rede de apoio sólida:  minhas irmãs, irmãos, cunhadas, sobrinhos e sobrinhas. Tenho o Magno, que segue sendo o meu melhor amigo. Tenho amor, Tenho energia, saúde e vontade de seguir em frente.

Ainda assim, choro. Choro de saudade quase todos os dias. Pode ser ridículo para algumas pessoas. Não me importo. Choro, me emociono, enxugo as lágrimas e sigo em frente. Não quis investigar por que o Thor se foi: teve medicação equivocada? Teve algo que eu não fiz? Alguma coisa que alguém não fez? Não importa e não vai mudar nada. Choro todo o choro que vier pelos meus lutos e pelas minhas perdas. Sem desespero agora, só choro mesmo.

Recentemente, joguei fora o capacho que tinha vocês dois na minha porta. Tava doendo, desculpa. Semana passada, ainda chegaram umas comidinhas que eu pedi pra vocês. Ficaram lá. As roupinhas, caminhas, ração, medicamentos e tudo mais… foram para um abrigo. Que novos cãezinhos se sintam aquecidos com o amor que vocês tiveram.

Perdas acontecem. As perdas do envelhecimento não são poucas… O tempo, ah, o tempo é implacável e pode ser cruel… Nos últimos cinco anos, foram embora daqui o meu irmão João, a minha mãe, o Zeus (nosso gigante mais amado), minha sogra, o Aquiles e, há menos de 20 dias, o Thor. Além disso, tive uma perda enorme há pouco mais de sete meses: um casamento de 38 anos, um namoro de praticamente 42 anos. Sair da casa, vender tudo, morar sozinha. Perdas. Lutos que necessitam ser vividos. Com choros, com risos, com as boas lembranças, com amor. E, às vezes, com gritos de desespero.

Também vieram muitas coisas boas, coisas maravilhosas, incríveis e que curto todos os dias: Elisa chegou trazendo um novo jeito de ser chamada – para quem não sabe ainda, vovó é a palavra mais doce do mundo. Além de vovó, sou Vovó Maluquinha. Depois veio o Davi, sobrinho e afilhado. Gabi e Caio nos deram o baby Paulo, primeiro menininho em uma família cheia de mulheres. Veio arrasando com um sorriso de derreter o coração. Agora tá chegando o Bernardo, o mais novo, nono da nossa turma, irmãozinho da Elisa e esperado com todo o amor que temos pra dar.  

Todos os dias agradeço por tantas bençãos! Sou privilegiada e sei bem disso. Tenho amor, muito amor. Ganhei e ganho todos os dias um montão de felicidade.

Me pego algumas vezes pensando se isso tira o meu direito de sofrer…

Só que todo dia alguma coisa me lembra o Thor e o Aquiles: os cachorrinhos da quadra, os caminhos por onde caminhávamos, um barulho que escuto e acho que são eles… Ouço a respiração deles atrás de mim no escritório, vez ou outra, ouço o barulho da coleira deles. Mas, sem dúvida, o pior é abrir porta de casa e não ter ninguém pra me receber.

Estou sozinha: essa palavrinha que me metia muito medo! Mas quem disse que estou/sou sozinha ou solitária? Descobri rapidamente nos últimos meses que me amo (sim, tenho esta capacidade de me amar, acredita?), que gosto da minha companhia, que curto estar só. Quem diria! Ouço música, podcasts, danço sozinha, canto, leio, assisto filmes, séries e também perco tempo na internet, como qualquer outra pessoa em 2026… Nem de longe tudo isso me livra de, de vez em quando, me sentir sozinha.

Em pouco mais de sete meses de separação, aprendi que gosto de andar pelas quadras de Brasília descobrindo coisas escondidas (cafés, lojinhas, padarias…). Que sei sentar sozinha e pedir um café da manhã gostoso só pra mim. Que comprar comida só pra mim é meio sem graça, mas pode ser bom. Que curto tomar meu vinho, pedir ou fazer uma refeição – pra mim. Que ir ao cinema sozinha é muito gostoso. Que adoro escolher pra onde vou ou o que vou fazer. Ou não. E tá tudo bem.

No fim, é sobre isso: esta carta é cheia de saudades dos meus companheiros que se foram, mas também é uma carta de amor, aberta à Regina que está (re)nascendo por aqui…

Obrigada aos meus companheirinhos Aquiles e Thor (e também ao TJ, Sirius Black e Zeus). Obrigada por me darem tanto amor. Me conforta saber que vocês foram felizes. E amados, muito amados.

O tamanho da saudade que estou sentindo se explica pelo tamanho do amor que tenho por vocês. Até qualquer dia!

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