É do meu pai. Não sei ao certo quando ele a escreveu… Sei que foi para a minha mãe. Ele escrevia como respirava, com naturalidade e uma elegância que parecia não custar nada. Mas ela ficou. E toda vez que passo por ela, ouço a voz dele. Firme. Inteira. Aquela voz que subia ao palanque, ou se levantava no meio de uma festa e emocionava sem precisar de anotação, sem ensaio, sem artifício nenhum.
Meu pai chegou ao microfone aos 17 anos. Locução de rádio, primeiro. Depois televisão. Depois gestão de veículos de comunicação. Depois mandatos – prefeito de uma capital aos 28 anos, deputado estadual. Depois, a volta para a comunicação, de onde saiu por poucos anos e retornou para se retirar apenas quando foi obrigado a isso. Uma vida inteira construída sobre palavras ditas em voz alta, com convicção.
Cresci nesse mundo… E ainda assim, ou talvez por isso, eu era “a gasguita” (para quem não sabe, é a pessoa que grita, com uma voz irritante, estridente)
A caçula de oito filhos (e um tanto temporã) aprende algumas coisas cedo. Que os espaços já estão ocupados, que a conversa já começou antes de você chegar. Eu aprendi a me colocar no grito. Depois aprendi a me retirar no silêncio. Demorei para aprender a simplesmente estar, presente e inteira, sem precisar gritar nem desaparecer.
Comecei na faculdade de jornalismo aos 17 anos. Me formei com 21. Aos 22, entrei para meu primeiro emprego formal na área, mesmo que já trabalhasse desde os 18. Fui para a rádio ainda sem saber que me apaixonaria… talvez estivesse seguindo um fio invisível que me ligava ao meu pai, embora na época eu jamais tivesse admitido isso.
Era a gasguita, afinal. A voz feia. A tímida. A insegura. Mas, ainda em 1988, fui convocada. A locutora precisava de cobertura. E lá fui eu, encaixar a agulha no vinco exato do disco de vinil, soltar o cartucho no segundo certo, abrir o microfone e falar.
Falar para quem? Para a cidade. Para o invisível. Para mim mesma, talvez…
De 1988 a 1994, entrevistei praticamente todos os escritores e intelectuais que passaram pela Feira do Livro de Brasília, uma das mais vibrantes do país nos anos 80 e 90, quando a cidade ainda respirava arte, cultura e rock com uma intensidade que é difícil de descrever. Entrevistei músicos. Estive perto de artistas que nasciam aqui, na efervescência de uma cena que explodia. A Cultura FM era assim, um lugar de encontro, de ideias, de vozes.
E foi ali, entre vitrolas e cartuchos e microfones, que a gasguita foi embora. Não que tenha ido de uma vez, não sem medo, não sem desafios a serem superados. Mas foi…
Voz, aprendi, é muito mais do que timbre. É mais do que técnica, entonação, dicção. Voz é a consciência de quem você é e a coragem de deixar isso aparecer. É ocupar o espaço que é seu, sem pedir desculpa, sem minimizar. Ocupar.
Da rádio, fui para a assessoria. Depois para a TV. Depois, de volta para a assessoria. Há mais de 20 anos, dirijo uma agência de comunicação, preparo líderes para se posicionarem, acompanho crises, construo narrativas. Quase quatro décadas de uma vida profissional que, olhando de trás, foi sempre sobre isso… vozes. As que formam. As que silenciam. As que, com cuidado e insistência, encontram o seu lugar.
Penso no meu pai com frequência. Tenho a poesia na parede. Tenho a biografia, escrita depois que ele foi embora (infelizmente), na minha estante. Tenho a memória da fala firme, do olhar que prendia, das palavras que saíam como se já nascessem prontas. Fico pensando, às vezes, o que ele diria de mim… se reconheceria a filha nessa trajetória. Se sorriria daquele jeito dele.
Acho que sim!…
Penso também na minha mãe, uma potência que me dizia, de formas diferentes e ao longo dos anos, que eu podia mais. Que eu não devia me calar. Que havia espaço para mim, e que esse espaço eu teria que conquistar.
E penso nas minhas filhas, na minha neta, nos meus dois netos. Nas vozes deles e delas, e nos espaços que precisarão conquistar.
Quando o Solta a Voz, Mulher começou a tomar forma, esse projeto de comunicação e protagonismo feminino que estou lançando agora, percebi que ele nasce de uma vida inteira. Da gasguita que fui. Das mulheres que ouvi, ao longo de décadas, dizendo que têm algo a dizer, mas não sabem como. Que têm competência, mas não têm visibilidade. Que carregam histórias que o mundo ainda não ouviu.
Eu conheço esse lugar por dentro… E, olha, nem por isso deixo de entender que ter voz é um caminho diário, árduo e que nunca vai parar. O bom disso é que sei o que acontece quando uma mulher encontra a própria voz.
Legado, aprendi, é o que fica nas pessoas que você tocou, nas filhas que observam, nas mulheres que passam pela sua vida, nos rastros que uma voz deixa depois que o som já se foi.
O meu pai deixou muito mais do que uma poesia na minha parede. Minha mãe deixou a certeza de que somos potentes demais para nos calar.
Em janeiro de 2000, trouxemos o primeiro cachorrinho pra casa – o TJ. Durante mais de 26 anos, chegava em casa sendo recebida com lambidas, latidos, rabinhos abanando… TJ, depois Sirius Black, Aquiles, Thor e Zeus. Cada um deles foi embora… Thor e Aquiles ficaram mais tempo por aqui e se tornaram meus companheirinhos inseparáveis. Éramos nós 3 juntos. Desde 4 de junho de 2026, isso mudou. Thor foi embora e me deixou desolada, desesperada e sozinha…
Logo o Thor, Totóti, Totózinho… o cachorrinho mais fofo da nossa vida, o que ia com todo mundo, o que mais pedia carinho, que obedecia, que dormia no meu colo durante 2 ou 3 horas seguidas, enquanto eu assistia a um filme, o que andava comigo pela Asa Norte, o que era perfeito!… Ele não aguentou a falta do Aquiles… se foi no dia que fazia exatamente dois meses que o Aquiles tinha me deixado também. Tristeza. Solidão. Dor. Penso nele todos os dias e no que eu poderia ter feito de diferente.
Meu Aquiles… o cachorrinho que me escolheu, que me fez, pela primeira vez, tratar um pet como se fosse uma criança. Que me trouxe o amor maior do mundo, o olhar de admiração e uma paixão quase obsessiva por mim (sim, esse era o Aquiles). Morreu com 16 anos, nos meus braços. Levou um pedacinho do meu coração para o céu dos cachorros…
Racionalmente, eu sei que não posso me deixar sofrer tanto por isso. Tenho uma família linda e saudável, tenho um netinho maravilhoso que acabou de nascer, outro que vai nascer em agosto e ainda tenho a Elisa, que, “do alto dos seus 3 anos e meio”, me consola com abraços e os beijinhos mais carinhosos do mundo todo!
Quando recebi a notícia do Thor, entrei em desespero. Dois meses depois do Aquiles – mesmo dia. Um em 4 de abril, outro, em 4 de junho. Estava sozinha, em casa… as coisinhas dele ainda espalhadas por ali… caminha, pote de comida e de água… Eu prometi que o buscaria de manhã cedo na clínica, mas o telefone tocou antes. Gritei! Bateu um desespero – desses de gritar mesmo, sabe? Gritei pelo Aquiles, pelo Thor, pela minha separação, pelos lutos que talvez não tenham terminado de sentir ainda. Gritei por não entender a razão de ter que passar por este luto em tão pouco tempo, gritei pela Regina que nunca quis ficar sozinha, pela Regina que fui e pela Regina que ainda nem conheço direito. Pela Regina que tenho que aprender a ser. Chorei desesperadamente, como poucas vezes na vida. Desmoronei.
É verdade: estou bem e feliz bem na maior parte do tempo. Estou feliz – e é de verdade. Tenho uma casinha linda, que estou terminando ainda de arrumar com muito carinho. Tenho vida em mim – muita vida… Tenho novos projetos, duas filhas incríveis, amigas, amigos, rede de apoio sólida: minhas irmãs, irmãos, cunhadas, sobrinhos e sobrinhas. Tenho o Magno, que segue sendo o meu melhor amigo. Tenho amor, Tenho energia, saúde e vontade de seguir em frente.
Ainda assim, choro. Choro de saudade quase todos os dias. Pode ser ridículo para algumas pessoas. Não me importo. Choro, me emociono, enxugo as lágrimas e sigo em frente. Não quis investigar por que o Thor se foi: teve medicação equivocada? Teve algo que eu não fiz? Alguma coisa que alguém não fez? Não importa e não vai mudar nada. Choro todo o choro que vier pelos meus lutos e pelas minhas perdas. Sem desespero agora, só choro mesmo.
Recentemente, joguei fora o capacho que tinha vocês dois na minha porta. Tava doendo, desculpa. Semana passada, ainda chegaram umas comidinhas que eu pedi pra vocês. Ficaram lá. As roupinhas, caminhas, ração, medicamentos e tudo mais… foram para um abrigo. Que novos cãezinhos se sintam aquecidos com o amor que vocês tiveram.
Perdas acontecem. As perdas do envelhecimento não são poucas… O tempo, ah, o tempo é implacável e pode ser cruel… Nos últimos cinco anos, foram embora daqui o meu irmão João, a minha mãe, o Zeus (nosso gigante mais amado), minha sogra, o Aquiles e, há menos de 20 dias, o Thor. Além disso, tive uma perda enorme há pouco mais de sete meses: um casamento de 38 anos, um namoro de praticamente 42 anos. Sair da casa, vender tudo, morar sozinha. Perdas. Lutos que necessitam ser vividos. Com choros, com risos, com as boas lembranças, com amor. E, às vezes, com gritos de desespero.
Também vieram muitas coisas boas, coisas maravilhosas, incríveis e que curto todos os dias: Elisa chegou trazendo um novo jeito de ser chamada – para quem não sabe ainda, vovó é a palavra mais doce do mundo. Além de vovó, sou Vovó Maluquinha. Depois veio o Davi, sobrinho e afilhado. Gabi e Caio nos deram o baby Paulo, primeiro menininho em uma família cheia de mulheres. Veio arrasando com um sorriso de derreter o coração. Agora tá chegando o Bernardo, o mais novo, nono da nossa turma, irmãozinho da Elisa e esperado com todo o amor que temos pra dar.
Todos os dias agradeço por tantas bençãos! Sou privilegiada e sei bem disso. Tenho amor, muito amor. Ganhei e ganho todos os dias um montão de felicidade.
Me pego algumas vezes pensando se isso tira o meu direito de sofrer…
Só que todo dia alguma coisa me lembra o Thor e o Aquiles: os cachorrinhos da quadra, os caminhos por onde caminhávamos, um barulho que escuto e acho que são eles… Ouço a respiração deles atrás de mim no escritório, vez ou outra, ouço o barulho da coleira deles. Mas, sem dúvida, o pior é abrir porta de casa e não ter ninguém pra me receber.
Estou sozinha: essa palavrinha que me metia muito medo! Mas quem disse que estou/sou sozinha ou solitária? Descobri rapidamente nos últimos meses que me amo (sim, tenho esta capacidade de me amar, acredita?), que gosto da minha companhia, que curto estar só. Quem diria! Ouço música, podcasts, danço sozinha, canto, leio, assisto filmes, séries e também perco tempo na internet, como qualquer outra pessoa em 2026… Nem de longe tudo isso me livra de, de vez em quando, me sentir sozinha.
Em pouco mais de sete meses de separação, aprendi que gosto de andar pelas quadras de Brasília descobrindo coisas escondidas (cafés, lojinhas, padarias…). Que sei sentar sozinha e pedir um café da manhã gostoso só pra mim. Que comprar comida só pra mim é meio sem graça, mas pode ser bom. Que curto tomar meu vinho, pedir ou fazer uma refeição – pra mim. Que ir ao cinema sozinha é muito gostoso. Que adoro escolher pra onde vou ou o que vou fazer. Ou não. E tá tudo bem.
No fim, é sobre isso: esta carta é cheia de saudades dos meus companheiros que se foram, mas também é uma carta de amor, aberta à Regina que está (re)nascendo por aqui…
Obrigada aos meus companheirinhos Aquiles e Thor (e também ao TJ, Sirius Black e Zeus). Obrigada por me darem tanto amor. Me conforta saber que vocês foram felizes. E amados, muito amados.
O tamanho da saudade que estou sentindo se explica pelo tamanho do amor que tenho por vocês. Até qualquer dia!
Essa foi tirada antes do Paulo nascer, mas diz tanto sobre nós…
Filhas, dia desses vi um filminho de IA (reels) que contava a história de uma mulher de 85 anos que acorda em seu corpo de 35 e reencontra seu filho, ainda pequeno, a casa com bagunça espalhada, o marido jovem, a antiga rotina. Ela revive o abraço do filho, o cheiro da casa, o amor que existia naquilo tudo…
O filme me emocionou, claro e, ao mesmo tempo, no lugar de me trazer nostalgia, saudade ou vontade reviver esses momentos de 25, 30 anos atrás, me trouxe para o aqui e agora. Para o hoje, para a Regina vovó.
Estou em São Paulo, deitada no quarto de hóspede da casa da Gabi e do Caio enquanto escuto um chorinho de bebê… Estou tentando dar algum apoio após o nascimento do Paulo, e aí, me pego sorrindo e pensando que estou (re)vivendo estes momentos, ainda que em um papel diferente, quase como observadora, sabe?
Querem saber o que eu acho? Que mães lindas vocês são! Que orgulho das Mulheres que se tornaram, assim com M maiúsculo mesmo, sabe? Que força e que poder vocês duas têm! A Elisa e o Paulo (e o Bernardo, muito em breve) são pessoinhas pra lá de sortudas! Vão crescer inspirados por mães muito especiais. E por pais especiais também, porque as duas têm companheiros incríveis, que sabem compartilhar a vida a dois. Isso é lindo e me deixa imensamente feliz…
Então, voltando ao reels que vi, eu só consigo pensar na felicidade que é estar aqui vivendo esse momento com vocês. Porque presenciar o nascimento da Elisa e do Paulo me faz (re)visitar vocês duas quando bebês, me faz (re)viver memórias de momentos incríveis que passamos juntas. E pensar que daqui a pouquinho chega o Bernardo!… Vocês conseguem sentir minha felicidade?!?! Casa cheia! Crianças, bagunça (todo mundo sabe que eu gosto), risadas…
Se eu pudesse dizer algo sobre a maternidade eu diria que, sim, ela pode ser complexa e solitária muitas vezes… Mas é também rica e cheia de momentos recompensadores. Cada sorriso de vocês, cada nova descoberta, cada gracinha… tudo sempre fez valer o cansaço e a dificuldade. E agora é assim com meus netos… que lindo de viver!!! Se é fácil? Claro que não! Se tem dúvidas, medos e ansiedade? Claro que tem! Mas não é assim a vida? Cheia de imperfeições, pratinhos caindo, dores e alegrias, decepções e felicidade? A maternidade é cercada de cobranças e de pressões, mas lembrem-se: vocês são as melhores mães do mundo todinho. Vocês são o colo, o abrigo e o alimento dessas criaturinhas. Eles amam vocês incondicionalmente (exceto na adolescência, mas deixa isso pra depois, hahaha). Vivam cada dia dessa aventura que é “maternar”. O amor vai sempre valer mais a pena do que qualquer dúvida, qualquer medo.
Para a Regina de 30 e poucos anos, ou para a Gabi e a Lu que são mães recentes, eu diria: não se preocupem em excesso, porque tudo passa. Então, curtam, cheirem seus bebezinhos, guardem cada gracinha, fotografem, filme, escrevam sobre eles, criem memórias afetivas, brincadeiras, cantem, dancem e aproveitem. Porque isso tudo também vai passar. Até o puerpério passa também (você vai ver, Gabi). A gente descobre que a vida é mesmo esse “esquenta e esfria”, como já disse o poeta.
Viver a fase de avó me ensina muita coisa. Ensina, principalmente, que amadurecer e envelhecer tem benefícios impagáveis, como ver vocês agora, curtir o nascimento da neta e dos netos (e dos próximos que podem vir) e ainda estar me sentindo inteira, viva e louca pelas novas aventuras que virão por aí com vocês!
Lu e Gabi, vocês são Mulheres que me enchem de orgulho!
Daqui a alguns dias (bem poucos agora), volto para Brasília. Meu coração seguirá agora dividido entre essas duas cidades. É aquela vontade de ver a Elisa com a vontade de não largar o Paulo. Saudades de Brasília e já querendo volta para SP. Vontade de voltar pro meu apartamento e uma enorme gratidão por esses dias aqui com Gabi e Caio.
Obrigada, vocês duas, por me permitirem fazer parte de tanta felicidade. E não deixem de me “gritar”quando precisarem. Estou e estarei sempre aqui.
E, sabe, eu fecho os olhos hoje e penso na Regina de 15 anos. E sei que, aos 15, você não pensava em como seria aos 60, mas, olha, você tá aqui, oficialmente idosa…
Preciso te contar: você se superou muitas vezes. Você cresceu, amadureceu, casou, teve filhas, tem uma neta e um netinho a caminho, tem muita saudade acumulada ao longo da vida, claro…
Trabalhou muito! Ganhou pouco dinheiro, é verdade, mas sempre trabalhou em coisas que você gostou de fazer, se realizou fazendo, mesmo quando as coisas estavam difíceis. Mas quer saber? A Regina de 60 está cheia de novos planos, acredita?!
Você amou muito, também foi muito amada, eu sei. Viveu um amor lindo, que durou bastante tempo! Você tem muitas amigas, muitas delas ainda desde os 15, algumas até antes. Você manteve muitas amizades do ensino médio, algumas do ensino fundamental (aquele que chamávamos de primeiro grau)
E, olha, você chegou aos 60, mas você ainda pensa como uma menina de 20 ou como uma mulher de 30. Ou ainda uma de 40. Todas elas estão aqui dentro de você. Já ouvi muitas pessoas dizerem que se sentem assim também . Acho que é assim que cultivamos a juventude dentro de nós.
Todas essas Reginas estão aqui. A Regina de 15, de 20, de 30, de 40, de 50. Estão todas aqui dentro dessa de 60. Se me encontrasse com a Regina de 15 agora, diria que me cuidei como pude, me descuidei um pouco também, fiz o que deu!…
Preciso contar que você ainda tem muita rede de apoio, tem muita rede de apoio. Suas filhas, suas irmãs, seus irmãos, suas muitas amigas antigas e as novas, essas que você foi fazendo ao longo da vida também. Todas essas pessoas ajudaram a construir o que você é hoje.
Sabe quando a gente é adolescente e que a gente pensa que as amigas são tudo no mundo? Elas são mesmo. Quanto mais, melhor. E você conseguiu manter várias. Construiu amizades sólidas, profundas. São salvadoras, as amizades.
E a gente está aqui. Talvez você não imaginasse que nesse momento, chegando aos 60 anos, sua vida fosse mudar tanto, mulher. Começar de novo. Mais uma vez, mas agora, bem diferente…
Pois é, às vésperas de se tornar SEXagenária, você vai morar sozinha, com seus cachorros. Fim de um sonho? Saiba que foi bom e não tente mudar nada do que aconteceu… vivemos momentos incrivelmente lindos e importantes. Agora, é mais um ciclo que começa…
Essa virada de vida veio sem planejamento, sabe? Mas veio em um momento maduro, uma decisão conjunta, sabe? Ainda assim, é uma barra! Mas você está segurando a barra. E está se superando de novo.
Olha que legal. Aos 60 anos, Regina… você conseguir ainda se superar. Fique orgulhosa de você.
Se eu pudesse dizer algo para a menina de 15, eu diria: nós estamos bem. Nós conseguimos. E nós ainda vamos mais longe.
A gente, claro, não pode prever o que acontece. Mas se der, essa Regina aqui quer viver 100 anos… Acredito que a Regina de 15, a Regina de 20. A de 25, a de 35, a de 40, 45, 50, 55. Todas essas Regina estão aqui dentro e querem viver muito ainda!!!
Então, vamos nessa! Que a gente tem muita coisa pela frente. Eu tenho certeza que a gente ainda tem muitos desafios aí. Pra superar. Vamos juntas.
Ah! A imagem que ilustra este post foi feita com Inteligência Artificial. Isso aí é uma loucura, que nem podíamos imaginar aos 15… Legal, né?!
É isso! Bora viver esta maturidade, com energia e disposição!
Neste momento, estou em Pirenópolis – a pouco mais de 150 km de Brasília, mas parece mais longe daqui. Férias, descanso, jornada de autoconhecimento. Uma temporada curtinha – cheguei domingo, hoje é terça e vou embora amanhã. Mas estou aproveitando cada minuto. Sozinha – sem sentir solidão. Nunca tinha experimentado. Primeira vez agora, quando estou a cinco meses de completar 60 anos.
Esses 60 batendo à porta… Por que assustam? Só alguns números juntos. Não me sinto com 60, mas o que significa isso? Posso ter a idade que quiser? Minha idade não me define como a hashtag que uso nas redes sociais? Lá vem eles: toc, toc, toc…
Estou vivendo um período de transformações. Com os 60 batendo à porta. Estou investindo em mim – terapia, consultoria financeira… um pouco de meditação, atividade física com personal trainer. Investimentos que preciso. Tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. Muitos desafios.
E os 60 batendo à porta. O que vai mudar, afinal? Uma carteira de idosa? Estacionamento em locais privilegiados? A aposentadoria do INSS? Ainda não sei. Mas acho que muda mais o olhar das pessoas. Ouvi isso outro dia em um podcast: que a gente envelhece quando o olhar das pessoas sobre nós muda. Pode ser. Tem mudado de alguma forma há alguns anos. A forma como nos chamam de “senhora” com mais reverência… um pouco de complacência também…
Mas a gente envelhece também quando se olha no espelho e a idade tá lá: visível e palpável. As rugas, marcas do tempo, da vida, o colágeno (ah, o colágeno) que se esvai… a pele, mais fina, mais sensível, mais flácida.
Mas, por que isso é importante? Porque os 60 estão ali, batendo à porta.
Voltando à minha temporada: estou lendo Juliana Monteiro, uma jornalista sensível, com uma escrita tão verdadeira que dói. Indicação de outra Juliana – a Oliveira, uma jornalista e advogada e amiga das melhores. Amo. Mais a Barbosa, claro, porque conheço de pertinho e conto com ela todos os dias.
Bom, sobre a Juliana – a Monteiro. Estou lendo uma obra sobre a pandemia (Nada lá fora e aqui dentro). Faz cinco anos que vivemos tudo aquilo. Parece mais. Às vezes, parece menos também. Tanta coisa em cinco anos e meio. Tanta coisa que esquecemos também: o medo, a finitude espreitando, a esperança que o mundo melhorasse, que as pessoas ganhassem doses extras de empatia… As pessoas queridas que se foram com a covid-19. Amizades que ficaram para trás por causa das polêmicas (essas, talvez nem fossem amizades).
Mas o livro me trouxe de volta à minha vida. E à vontade de escrever. Muita vontade de escrever. Talvez por estar aqui nesta jornada de autoconhecimento. Sozinha, mas sem solidão. E com os 60 batendo à porta.
Também me levou novamente a março de 2020. Cinco anos e meio – período em que perdi um irmão, minha mãe, uma amiga de infância, minha sogra. Nesta ordem.
Também ganhei o melhor presente de todos. Virei avó. Foi de uma maneira linda, com muito, muito amor envolvido. Elisa é a menininha mais linda que conheço. E perfeita (piada interna, ela um dia vai saber). Amo com uma força inexplicável. Daquele amor que a gente conhece quando os filhos nascem. E que a gente aprende a multiplicar.
Lá vou eu começar a chorar enquanto escrevo à beira da piscina, escutando as crianças brincarem. Quis escrever aqui, com uma paisagem linda em volta. Sozinha, mas rodeada de gente, de natureza, de música, de risadas de crianças… Não é solitário. Interessante.
E os 60 por aqui, espreitando, batendo à porta. Por dentro, os 30, 40, 50… todas as idades ainda falam muito alto. A mesma vontade de fazer coisas novas. E estou fazendo. O projeto novo do “Solta a Voz, Mulher” tem sido um combustível poderoso. Sempre que chamo as mulheres a soltarem sua potência, sua energia, estou chamando a Regina.
A Regina de 20, de 30, a Regina menina, adolescente, brincalhona, que gosta de dançar e de rir. De fazer os outros rirem. A Regina que ama com tanta força que parece que o peito vai explodir. A Regina que ainda acredita nela mesma. Nas possibilidades. No amor. Na vida.
Caiu um cisco aqui. Segura a lágrima, porque se a primeira cair, vem aí uma cachoeira. Procuro o garçom. Uma água com limão pra ajudar a engolir o choro. Minha mãe gostava de dizer isso: engole o choro. Tadinha… Teve que engolir muito choro. Como se fosse possível acabar com a emoção assim, engolindo. Nunca consegui.
Nem agora, com os 60 batendo à porta.
P.S.: uma nota que não pode deixar de estar aqui: estou tentando há bastante tempo dar uma parada pra respirar. Desta vez, foi possível graças à minha rede de apoio, que amo loucamente. Minha irmã, Carminha, me cedeu as diárias deste hotel incrível, que estou amando. Minha filha, Luciana, me emprestou o carro, porque compreendeu que a jornada começava ali, em Brasília, escolhendo o caminho para percorrer. Sozinha. E minha filha, Gabriela, que está cuidando dos meus cachorrinhos enquanto isso. Obrigada demais, meninas! ❤
Você ainda está no quentinho da barriga da sua mãe (que está linda), pesando quase dois quilos e medindo perto de 40 cm. Você já ouve nossas vozes e sente a luz que brilha aqui fora… E o nosso amor por você só cresce!
Eu queria te contar uma história bem linda hoje, mas não vai dar. É dia 2 de outubro de 2022, domingo, e tivemos o primeiro turno da eleição majoritária no Brasil. Você nem imagina como nosso país está confuso e dividido. Mas eu fui votar pensando em você, sabia? Pensando no futuro que eu espero que você possa desfrutar. Pensando que talvez um dia eu tenha a oportunidade de te contar tudo que estamos vivendo e, quem sabe, a gente consiga entender melhor tudo isso. É que os tempos não estão fáceis.
Eu quero muito que você encontre um Brasil melhor do que esse aqui!
Mas a gente vive um momento esquisito, de muita divisão na sociedade. Temos dois candidatos principais hoje, o Lula e o Bolsonaro. Você vai aprender sobre eles nos livros de história, quando estiver na escola. Eu espero conseguir te ajudar a entender tudo isso… Mas vai ser complicado explicar. Vai ser um pouco vergonhoso também, porque vivemos tempos tenebrosos, esquisitos mesmo…
Tivemos uma pandemia nos últimos anos. Já devem ter te contado sobre isso. Foi um período muito triste da história e ainda tivemos que lidar com atitudes anticiência, antivacina… Perdemos amigos e familiares para um vírus, que se chama Sars Cov 2, ou novo coronavírus. Ele provoca a covid. Espero que ele tenha sido dizimado do nosso planeta. Porém, até o dia de hoje, quase 700 mil brasileiros e brasileiras morreram pelo vírus, mas também pela má administração da pandemia, sabe? Muitas mortes poderiam ter sido evitadas. Eu sei que os livros de história vão te contar isso.
Foi nesse cenário que fomos hoje às urnas, no primeiro turno de uma eleição bastante apertada. E, ao escolher minhas candidatas e meus candidatos, eu tinha em mente que, se um dia tiver que contar para você como foi, preciso ter orgulho dos meus votos! Preciso ter certeza de que estou fazendo as escolhas certas. Neste momento, a gente já sabe que haverá um segundo turno. E isso significa mais tensão por outros 30 dias. É exaustivo…
Escrever pra você ajuda a tornar tudo mais leve, me enche de amor no coração. É uma terapia. Estou adorando, espero que você goste também.
Mas deixa eu te contar como foi votar hoje e como fiz minhas esolhas, olha só:
Eu queria votar só em mulheres, mas não deu. Infelizmente, vivemos ainda uma sociedade em que as mulheres são maioria em número, mas não conseguem alçar os cargos mais altos. Somos minoria nas lideranças públicas e privadas, infelizmente. Uma triste realidade que vivemos, impulsionada principalmente pelo excesso de machismo e preconceito. Ainda tem uma sobrecarga de trabalho e responsabilidade para mulheres, que faz muitas de nós precisarem optar por não investir na carreira, nem na política…
Mesmo assim, em meio a um cenário onde a extrema direita ganha muito espaço no Brasil, tivemos algumas vitórias, sabe? Em alguns estados, conseguimos eleger candidatas trans, mulheres pretas, pessoas homossexuais. E isso parece pouco, mas é bastante significativo no contexto que vivemos hoje. Dá um pouco de esperança, sabe?
No meu caso, precisei escolher candidatas e candidatos que estivessem mais alinhados com o que penso, ainda que não fossem as melhores opções. Não foi fácil. Mesmo assim, tenha certeza de que minhas escolhas foram pensando em você e em um Brasil melhor. Tomara que você se orgulhe de mim.
O que eu espero que você consiga ter quando estiver crescendo no Brasil:
Uma sociedade mais solidária, mais empática
Uma sociedade menos preconceituosa: com relação à religião, à cor, às identidades sexuais (acredita que as pessoas se preocupam com isso em pleno século XXI?)
Menos machismo, racismo e misoginia – infelizmente esses preconceitos matam muitas pessoas no Brasil
Um povo menos dividido e mais informado (chega de fake News e enganação)
Menos armas nas ruas – acredita que tem gente que acredita que armando a população haverá mais segurança?
Mais incentivo à ciência e à educação
Mais escolas públicas e escolas técnicas, com oportunidade para todas as pessoas
Mais universidades acessíveis
Incentivo à cultura, porque a gente sabe que cultura é educação, também!
Mais saúde para todo mundo e não só para quem pode pagar caro por ela
Segurança e tranquilidade para andar nas ruas, brincar e ser feliz
O meu voto levou também em consideração o que eu NÃO quero que você encontre por aqui:
Eu não quero que você viva com medo apenas por ser mulher. O machismo mata muito! É inconcebível que mulheres apoiem atitudes e candidaturas machistas, sabe? E tem mulher que apoia!!! Em 2021, uma mulher foi assassinada a cada 7 horas no nosso país. A cada 10 minutos, uma menina ou uma mulher foi vítima de estupro. Os dados são de uma pesquisa feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública – https://forumseguranca.org.br/publicacoes_posts/violencia-contra-mulheres-em-2021/
Preconceito contra a população LGBTQIA+. Estamos em 2022 e as pessoas ainda estão tomando conta da vida dos outros, acredita? E isso também mata, por mais triste que pareça. O Brasil é conhecido por ser um dos países que mais mata essa população. E isso é horrível… E alguns governantes incentivam esse preconceito, sabe? O resultado, infelizmente, é ainda mais assassinatos e violência contra as pessoas.
Descaso com as pessoas com deficiência. Mais uma coisa horrível que acontece no nosso País, Elisa… Espero que não seja mais assim quando você puder ler estas cartas.
Descaso com os idosos e com a população vulnerável. Estamos deixando as pessoas morrerem de fome nas ruas… Viverem sem um teto, sem dignidade.
Governantes despreparados, que não são líderes de verdade. Precisamos de lideranças verdadeiras, pessoas que sejam empáticas com os problemas que afligem a população.
Por incrível que pareça, enquanto no mundo surgem mais e mais lideranças jovens, preocupadas com os temas de inclusão, sustentabilidade, meio ambiente e melhor divisão das riquezas, no Brasil, a gente luta contra (pre)conceitos da Idade Média, sabe? Pessoas que falam em nome de “Deus”, mas que pronunciam frases como: “preferia um filho morto a um filho gay”, “tive quatro filhos homens e, numa fraquejada, tive uma mulher”, “as mulheres vão ganhar armas para se proteger dos homens e cometer homicídios”, “eduquei bem meus filhos para não namorarem com gente preta”, “eu não te estupraria porque você é feia”, “a ditadura devia ter não só torturado, mas matado mais”, “vamos metralhar a oposição”, “os pretos quilombolas não servem nem pra procriação, deveriam ser pesados em arrobas”, “as pessoas estão morrendo, mas e daí? eu não sou coveiro”. Desculpa te contar tanta coisa horrível, Elisa, mas acho importante que essas atrocidades sejam registradas, para que nunca mais aconteçam no País.
Elisa, por enquanto, é isso que eu quero e consigo te contar agora. Mas sei que até você chegar a esta carta e entender tudo que está escrito aqui, já teremos lido juntas muitas outras histórias legais.
Quem sabe você já sabe de cor o livrinho “A Margarida Friorenta”, que sua mãe amava ou então a história de “Flicts”, a cor que ninguém gostava… Quem sabe a gente já tenha visto filmes incríveis, curtido muitos passeios, jogado muitos joguinhos legais, cantado muita música boa, dançado junto como se não tivesse ninguém olhando… E que eu possa ter te ajudado a aprender a andar de bicicleta, fazer SUP e até ioga e meditação! Tomara!!! Porque quero viver tudo isso e muito mais com você!
Elisa, quero que sua vida seja linda e leve, com muita história bonita pra contar. Mas quando não for assim, saiba que estarei sempre ao seu lado, do mesmo jeitinho. Conta comigo pra tudo e vamos juntas em busca desse Brasil melhor!
Ahhhhh!… Eu tenho que te contar depois que fiz um “Curso de Avó” para aprender a cuidar de você desde bem pequenininha de um jeito mais atual, porque algumas coisas mudaram um pouco desde que sua mãe e sua tia nasceram. Mas a gente conversa sobre isso outra hora, tá?
Um beijo bem grande da sua avó, vovó Regina, Tuca, Rê (ou como vc quiser me chamar, tá?)
“E, ao escolher minhas candidatas e meus candidatos, eu tinha em mente que, se um dia tiver que contar para você como foi, preciso ter orgulho dos meus votos!”
Oi, Elisa! Você nem nasceu pra este mundo e eu já te amo. Queria que você soubesse disso desde sempre!
Você deve estar do tamanho de uma couve-flor e pesar pouco mais de 700 gramas, mas eu já senti você se mexer dentro da barriga da sua mãe… Foi tão lindo!!!
Só de saber que vc estava chegando, minha vida já mudou, sabe? É que eu virei “avó” e ainda nem sabia se estava preparada pra isso… Mas meu coração já está tão cheio de amor que deve ser isso que chamam de ser avó, né?
Eu mal posso esperar pra ver sua carinha, pegar na sua mãozinha e cheirar os seus pezinhos ❤️
Mal posso esperar pra te contar que estarei aqui para o que der e vier – “like a bridge over troubled water”, como sempre falei pra sua mãe e sua tia.
Ah!!! A sua tia… Mal posso esperar pra ver vocês juntas… Já posso ver como ela vai babar e te encher de mimos e de carinho e de passeios…
E o seu avô? Ele se faz de durão, sabe? Mas quando você der o primeiro sorriso, quando olhar pra ele pela primeira vez, pode saber que ele vai se derreter… não tenho nenhuma dúvida disso…
Eu já imagino você nos meus braços, dormindo, brincando… sorrindo… Eu quero cantar pra você dormir (vc não vai se importar se eu for desafinada, né?)… quero passear com você, te levar pra ver o mundo. Queria muito que fosse um mundo melhor quando você estiver aqui fora, mas é o que temos por aqui…
Eu tenho medo, sabe? Voltei a ter medo, como quando eu estava grávida da sua mãe e depois da sua titia.
Tenho medo de não corresponder ao que você pode esperar de uma avó… Porque eu ainda trabalho muito e não tenho tanto tempo pra brincar… Mas sei que vamos construir nossos momentos juntas… Espero que dê certo ser uma avó que te leva pro trabalho!…
Tenho medo de não ser tudo que sua mãe espera de mim também… Sei lá…
Tenho medo de não ter todo o tempo do mundo pra ficar com você!…
Também quero ter tempo pra ter muitas conversas com você. Quero rir das suas gracinhas, curtir seus primeiros sorrisos e estar por perto quando você caminhar. E até quando você cair e se machucar, porque isso vai acontecer, mesmo que já me doa o coração só de pensar…
Um poeta que viveu um tempo atrás disse que a vida é assim, esquenta e esfria… aperta e afrouxa. Porque o que ela pede da gente é coragem!!! Se depender de mim, você vai ser muito corajosa e muito feliz!!! Conta com a vovó pra sempre!
Mas, olha, enquanto não chegar a hora certa, fica aí quietinha na barriga da sua mãe. Ela e seu pai estão preparando tudo aqui pra sua chegada. E tem também eu, seu avô, tia Gabi, tio Caio e mais um montão (um montão mesmo, não se assusta, tá?) de gente querendo cuidar de você!
Paulo Cabral – amigo de muitos, marido apaixonado, pai e avô que infundia graça, estímulo e amor!
Família e amigos – e assim encerramos a homenagem ao Centenário de Paulo Cabral
O último post da série biográfica em homenagem ao centenário de Paulo Cabral apresenta o seu lado amoroso e afável, ricamente exemplificado em sua biografia “A TRAJETÓRIA DE UMA VOZ”.
Em 1944, Paulo Cabral era um homem no corpo de um jovem de 22 anos: Diretor Executivo da Ceará Rádio Clube, dentro da rede nacional de comunicação “Diários Associados”; Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais; Oficial da Reserva do Exército Brasileiro. Mas faltava-lhe uma coisa e, no dia 4 de setembro de 1945, justamente aniversário de Maria Coeli, não faltou mais. Casou-se com ela, a moça mais apaixonante que jamais viu; era sua ouvinte, sua amiga, sua fã, sua nêga.
Oito filhos vieram: Paulo Cabral Júnior (1946), Claudia Lireda (1950), Maria do Carmo (1953), Maria Coeli (1955), Marília (1956), João Augusto (1958), Fernando Antônio (1960), Regina Elizabeth (1965).
Maria Coeli foi companheira firme e dedicada, fazendo jus ao carinhoso apelido de “Graciosa Soberana”. Apoiou sua intensa trajetória profissional e as mudanças que ela demandava: Fortaleza, Recife, Belo Horizonte, Fortaleza novamente, Rio de Janeiro, de novo Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Brasília, onde fixaram residência.
Logo nos primeiros tempos de casados, chegou à casa de Paulo e Maria Coeli uma garotinha de 6 anos, que, a pedido da mãe, receberia acolhida e assistência para estudar na capital. Marina Alves Roman ganhou o apelido de Nena e era muito querida por Paulo.
Quando os filhos estavam pequenos, era habitual o “dever de férias”. Claro que todos deixavam para os últimos dias, e ele, depois de uma longa jornada de trabalho, sentava-se para ajudar a todos. Nesse, como em outros momentos, transmitia aos filhos a sensação de que sempre podiam contar com ele.
Foi explorando a arte do ventriloquismo, que a voz de Paulo Cabral assumiu mais um papel, estabelecendo diálogos entre os personagens Chiquinho e Benedito, por ele criados. A dupla conversava através dos cantos da boca do artista, de um lado com a voz fininha (para Chiquinho) e, do outro, muito grave e mau humorada (para o Benedito). Com essa artimanha, atraía a atenção dos pequenos, que acompanhavam estarrecidos as tramas em que o pai incluía estímulos ao dever de casa, à boa convivência etc.
Tarde da noite, Paulo parava para desfrutar da comidinha especial providenciada por Maria Coeli: carne moída, um acompanhamento leve e uma salada de frutas coberta de queijo ralado. Quem estivesse acordado acabava ganhando um pouquinho.
O lar era um refúgio de cantoria e prazer, sempre animado, recheado de amigos.
Os filhos cresceram em meio a jornais, revistas, rádios e TVs, testemunhando sua entrega, dedicação e realização no trabalho. Paulo procurou dar oportunidades profissionais incentivando filhos e filhas com suas aptidões e competências, tendo-os como pessoas de confiança em diferentes momentos. Irmãos e amigos também tiveram seu apoio, sempre que a vida lhe permitia. Por isso, foi também tão amparado em momentos de necessidade, fosse material ou emocional.
Aos poucos, os netos chegaram, formando uma trupe de 20! E Paulo foi um avô amoroso, brincalhão e presente. Paulo criou rituais dentro da rotina familiar, que se tonaram momentos significativos. Um deles foi o inigualável “machucadinho do papai”, tradição que passou para os netos: uma preciosa mistura de ingredientes, amassados com garfo e muito carinho, regada com manteiga derretida, um toque de molecagem, alegria e bom humor. Cada criança levava o prato até o patriarca, que preparava a iguaria, experimentando uma garfada a cada finalização. Ele mesmo comia sempre frio… O procedimento era finalizado com o “bedibandivô”, uma sequência de beijinhos, de um lado e do outro do rosto, que compensava e realizava o vovô Paulo.
No ambiente profissional, era um homem de trato agradável. Lembrava-se do nome de todos e quase sempre atribuía um apelido carinhoso, que usaria repetidamente. Seu sorriso largo antecipava sua presença e era brindado generosamente a todos: a moça do café, o porteiro, o motorista… Para cada um, o seu “Bom dia!”, forte e sincero. Fazia questão de perguntar sobre o momento de cada um, a saúde, como andavam os filhos – e ouvia com a maior atenção.
Mesmo com tantas mudanças de cidade, as amizades nunca foram deixadas de lado e, vez ou outra, Paulo abria um parêntese em sua atribulada agenda para dar um telefonema anunciando sem pudor o objetivo: “manutenção de amizade”.
Com a família de José Bonifácio, cujos caminhos seguiram entrelaçados por Fortaleza, Recife, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, os vínculos de amizade se estenderam para os filhos, formando uma família una. São inesquecíveis as temporadas em Araras animadas com cantorias, violão, banhos de riacho na Banheira do Imperador e uísque para espantar o frio.
No Rio de Janeiro, Paulo e Maria Coeli frequentavam animados saraus oferecidos pelo casal Lisbeth e Orlando Mota, com escritores e artistas de renome, como os pintores Antônio Bandeira e Aldemir Martins, os poetas Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Na casa de João Calmon e Maria Teresinha, igualmente aconteciam noitadas memoráveis, onde ouviam Dorival Caymmi ao piano, além de Hebe Camargo e outras vozes.
Lisbeth Mota, Teresinha Calmon, Sarita Campos, Zenilda Siqueira, Zilná, Sônia Castro, Ednéa Bastos e Teresinha Câmara faziam parte da sagrada mesa de biriba feminina que Maria Coeli integrava.
Rômulo Siqueira, Diretor Comercial da Ceará Rádio Clube na década de 1950, desde então estabeleceu com Paulo Cabral uma estreita convivência profissional que se transformou em fraterna amizade.
A vida social de Paulo era intensa e alegre. Nos restaurantes, costumava chamar o garçom pronunciando em alto e bom som: “Alonso!”. Quando o atendente revelava seu nome, Paulo questionava: “Mas eu te chamei de Alonso. Por que você atendeu?” E assim iniciava mais um vínculo com as pessoas que o serviam.
Um garçom especialmente querido trabalhava na Churrascaria Parque Recreio, em frente ao prédio onde a família morava no Rio. Chamavam-se reciprocamente de “Doutor”. Quando Paulo chegava, o discreto garçom passava a algum colega a mesa que estivesse servindo, a fim de atender o “Doutor”. A conta, cuja soma não era módica, seria ainda acrescida de um generoso agrado.
Garoto era o motorista responsável por levar Paulo aos locais de trabalho e compromissos sociais, para tranquilidade da família, que assim mantinha o chefe afastado do volante, uma vez que a arte da direção não era bem o seu forte.
Em Belo Horizonte, grandes amigos foram incorporados à convivência: José Vaz, Camilo Teixeira da Costa Filho, Caio César Valli, Sylvio Prazeres, Estácio Ramos, Vicente Prates, Tarcísio Fialho, Luiz Antônio Mendes e Hélio Amoni, que se tornaria homem de confiança de Paulo para assuntos pessoais e profissionais, sendo cumprimentado por ele, solenemente, como “Meu Procurador!”.
Vez por outra Paulo retornava a Fortaleza para acalorar os amores fraternos de longa data. Os filhos acompanhavam toda aquela festa, uma verdadeira celebração da amizade, vinculando-se às origens de seus pais. Entre as boas lembranças que Paulo fez questão de dividir com os filhos, estava o “Banho do Telmo”, programa que levava ele e os irmãos a reviverem travessuras como crianças. Era infalível a ida a Sobral, tendo a companhia do amigo Vianinha, casado com Madu. Paulo enfrentava com boa disposição os 300km de uma estrada cansativa, para estar com sua irmã Leilah.
Junto aos companheiros que partilharam as diferentes etapas profissionais, deixou a marca do homem corajoso, camarada fiel que procurava usar fórmulas inteligentes na convivência e no trabalho. Para muitos, sua participação representou um ponto de partida para melhores oportunidades de vida.
Paulo tinha extrema disposição em atender pedidos que lhe chegavam; se possível, na mesma hora. Uma súplica jamais era esquecida, mesmo que transcorressem tempos para que a solução pudesse ser alcançada.
Como uma confirmação da sua amplitude como comunicador, correção como dirigente, da figura humana e solidária que com tantas pessoas alternou no curso dos anos, a vida de Paulo Cabral foi despertando interesse de pesquisadores e jornalistas. Seu nome passou a ser citado nas universidades de Comunicação.
Semeador incansável da paz, união e amor na família, Paulo Cabral conseguia irradiar o bem-viver através do sorriso fácil e espírito agregador. Desde a saudação personalizada, suas brincadeiras repetitivas, jingles para cada um dos filhos e para os passeios habituais, apelidos para todos os amigos e derretidos poemas para sua amada, a composição de paródias, os discursos marcantes… não seria exagero se chamássemos de verdadeiros hinos à Vida.
Paulo gostava de ouvir a sua voz. Estando todos em silêncio, ele puxava assunto consigo mesmo, em reflexões para lá de criativas. Sabia brincar com as palavras… Dizia que, quando morresse, tinha certeza de que sentiria muita saudade de si mesmo, realidade que o levava às lágrimas com a música: “Naquela mesa está faltando ele, e a saudade dele está doendo em mim…” A perspectiva do final era apaziguada apenas pela certeza de que “a Chama do Amor”, cantada em versos por ele, permaneceria iluminando sua família.
Doutor, essa série de 5 posts que compartilhamos entre os amigos nesse agosto de 2022 é o nosso presente de aniversário. Saiba que a valorosa contribuição de sua VOZ ecoará no mundo por muitos e muitos anos. Não existe ponto final. O que fica não é um vazio. Passa a ser um espaço amplo, pronto para ser preenchido por quem quiser. Infinitamente…
Em 23 de agosto de 2022, Paulo Cabral completaria 100 anos. Meu pai, avô de 20, bisavô de 19, quase 20, sogro de 3, amante da vida. Ah, Doutor, como sua voz nos faz falta, e sua eterna presença nos preenche!
Um pedido de Chateaubriand parecia mais uma ordem. Somando-se ao amor pela comunicação, em 1955, Paulo Cabral abriu mão de seu cargo de Deputado Estadual do Ceará para assumir a gerência dos Diários Associados no Nordeste, com sede em Recife.
Um ano depois, dirigia-se à capital mineira, como Diretor-Geral dos Diários em Minas Gerais. A popularização de uma nova tecnologia marcava o momento: o televisor – e a montagem da TV Itacolomi era uma de suas tarefas. Porém, divergências políticas culminaram em seu desligamento do grupo, sendo substituído pelo irmão de Chateaubriand (Oswaldo) e recebendo como indenização 50% das ações da Rádio Verdes Mares de Fortaleza.
Paulo reassumiu suas atribuições legislativas no Ceará, como Deputado Estadual. Ao mesmo tempo, integrou-se ao escritório do concunhado, Abelardo Guilherme de Freitas Barbosa, que representava artigos como óleo de Peroba King, produtos de borracha Orion, vassouras e escovas de dente Condor e as célebres balanças Filizola!
Após concluir seu mandato, em 1959, tornou-se assistente de João Calmon, Diretor-Geral da Diretoria Central dos Diários Associados, no Rio de Janeiro.
Em 1960, Chateaubriand sofreu uma trombose dupla que o deixou paraplégico. Mesmo com a fala e os movimentos prejudicados, continuou a escrever artigos, tendo Paulo Cabral como porta-voz.
Numa manhã de 1965, faleceu o jornalista Geraldo Teixeira da Costa, Diretor-Geral dos Diários Associados em Minas Gerais. Chateaubriand indicou Paulo Cabral para reassumir o timão daquela gigantesca nau, que agora possuía mais um veículo: a TV Alterosa.
Após quase uma década lutando com as sequelas da trombose, Chateaubriand veio a falecer. Seu cortejo fúnebre, naquele abril de 1968, reuniu mais de 60 mil pessoas nas ruas de São Paulo.
João Calmon assumiu a Presidência do grupo. Paulo manteve-se na Diretoria de Minas até ser indicado para Diretor-Geral Central, quando voltou para o Rio de Janeiro.
Com a dinâmica elaborada por Chateaubriand, cada veículo foi capaz de seguir com autonomia, sendo pouco o que a gestão superior poderia fazer naquele momento de dúvidas e divergências sobre o rumo a ser dado ao grupo. Por isso, em 1971, Paulo licenciou-se dos Associados e abraçou a vida empresarial, exercendo por três anos diversos cargos no Grupo Financeiro Bandeirantes.
Em 1974, aceitou o convite para Secretário-geral do novo Ministro da Justiça, Armando Falcão. Ninguém escapava das tarefas indelevelmente memorizadas em seu dinâmico follow-up, um arquivo físico preenchido e atualizado manualmente.
Após essa etapa, em 1979, Paulo foi designado Procurador Geral dos Diários Associados, num momento aterrorizante para o grupo: greves de funcionários, causas trabalhistas, dívidas… Entre suas tarefas estavam apurar, interceder e acalmar os ânimos, além do difícil trâmite com o Presidente João Figueiredo, que olhava com intransigência a derrocada da Rede Tupi e a negociação de dívidas e compromissos financeiros.
Quando, em 1980, o governo suspendeu a concessão de sete dos nove canais de televisão dos Diários Associados, João Calmon renunciou ao comando do grupo, que exercia desde a morte de Chateaubriand, há 12 anos. Em reunião extraordinária, os condôminos elegem Paulo Cabral para a Presidência dos Diários Associados. Assumir essa cadeira foi para ele uma honra… e uma provação.
Quando perderam a concessão das emissoras de televisão, os erros vieram à tona. Paulo Cabral adotou uma posição consciente, levando o grupo com moderação e comedimento, sem extravagâncias. Conseguiu equilibrar a racionalidade, sem perder a paixão que sempre o iluminou. Com um forte trabalho de equipe foi, aos poucos, quitando dívidas e recuperando o prestígio das empresas em cada estado, confrontando diariamente a crença geral de que os Associados tinham se extinguido.
O Brasil retomava a voz e a liberdade abafadas por duas décadas de ditadura. A Era da Informação exigia rever o modus operandi. Paulo Cabral se engajou nesse movimento de avanço tecnológico, convergência multimídia e acelerada globalização. Vendo a vida através de seus 58 anos, com saúde e muita vontade de acertar, atraiu os mais descrentes e a palavra de ordem era transformar os erros em possíveis acertos, sustentando o lema: “não perder a força!”.
Proposta por Paulo Cabral em 1983, e viabilizada em 1989, a Fundação Assis Chateaubriand (FAC) promove o crescimento da juventude, como fez seu patrono durante a vida.
Em uma década, os Associados haviam contornado seus maiores problemas. A competência de Paulo Cabral foi ganhando a confiança do público e dos anunciantes, além de visibilidade. Dos governos recebeu homenagens, condecorações e medalhas. Empresas de comunicação lhe prestigiaram com troféus e honrarias.
Com o falecimento de Varela, diretor do Correio Braziliense, Paulo assumiu também a Presidência do jornal. Aos 70 anos, entrou em um ciclo de contínua geração de energias através do inovar. Foi um tempo de otimismo. Consultorias internacionais, pesquisas junto ao público, congressos no Brasil e no exterior, cursos e visitas institucionais a outros parques gráficos colocavam a equipe em exposição direta à globalização, inspirando-a a atuar como agentes transformadores. Paulo trabalhou como um visionário, adaptando-se a novas mídias para conquistar mais leitores. A modernização visual despertou a atenção do público e angariou premiações internacionais. A equipe foi tomada por novas perspectivas e os profissionais trabalhavam com entusiasmo. O Correio tornou-se um jornal ousado, que não omitia o seu posicionamento. Para Paulo, a liberdade estava carregada de deveres, conceito que foi executado com severidade nos jornais sob seu domínio. O Correio passou de 35 mil exemplares para 70 mil em 3 ou 4 anos. Em abril de 2000, foi inaugurado um novo e moderno Parque Gráfico, com toda a cúpula da República presente.
Para sanar as enormes dívidas que o jornal arrastava, revisaram a administração, enxugando mordomias e cargos.
Em 1994, Paulo acumulou mais uma função, ao suceder Jayme Sirotsky na Associação Nacional de Jornais. Durante três biênios, empenhou-se em revolucionar o jornalismo brasileiro. Promover os recursos humanos em meio a tantas mudanças tecnológicas foi a grande perspicácia de sua direção. Sua dedicação assegurou-lhe o respeito dos colegas. Sua astúcia e criatividade impressionaram os profissionais da área.
Ao assumir a ANJ, Paulo protagonizou um momento importante do jornalismo americano, discursando na Conferência Hemisférica sobre Liberdade de Expressão, promovida pela Sociedad Interamericana de Prensa (SIP) na Cidade do México. Nessa conferência elaborou-se a Declaração de Chapultepec, uma carta de princípios que foi assumida pelo Brasil em 1996. Em 1997, Paulo substituiu Pedro Pinciroli (Folha de São Paulo) como Vice-Presidente Regional para o Brasil da Comissão de Liberdade de Imprensa da SIP. Em 2000, integrou-se à Diretoria da SIP, sediada em Miami (EUA), com centenas de jornais filiados das três Américas, na qual atuou até 2002.
A performance de Paulo como radialista, político e executivo atestam que ele era um “mestre da palavra”, razão pela qual ocupou, em 1999, uma cadeira na Academia Cearense de Retórica.
“Os grandes dias têm suas vésperas”. Ele sempre dizia isso! Na verdade, acho que era pra ter mais um motivo para comemorar. Mais um dia de festa!
Paulo Cabral era um cara que gostava de música (e tinha um vozeirão inesquecível), de família reunida, de mesa farta, de elogiar a “Graciosa Soberana”, de recitar poesias, de fazer discursos emocionantes. Era um cara que amava a vida com tanta força que dizia ter saudade de si próprio quando pensava na morte. Aliás, não gostava de pensar na morte.
Um cara que dava apelido para a filharada e depois pros netos e netas, agregados, amigos, amigas… todo mundo tem um apelido carinhoso dado por ele… fazia musiquinhas que ninguém esquece, criava paródias e sabia transformar a vida sempre numa festa.
Chegava do trabalho sempre animado, com um sorriso, fazendo gracinha ou falando alguma piadinha pra arrancar um sorriso (ou uma bronca, rs) da Dona Maria Coeli!
Gostava de coisas simples: a tradicional carne moída com legumes, ovo no leite pro café da manhã, arroz e feijão – que viravam “machucadinho” com muita manteiga e doses extras de carinho. E dá-lhe uma fila de crianças esperando a tal mistura do vovô… Um copo de whisky, alguém tocando violão, um microfone e a noite podia não acabar nunca (só terminava quando Dona Maria chamava para tomar leite – quente ou frio, como quisesse, rs).
E se chovesse? Tinha que ter uma bica por perto! Qual cearense não curte uma bica, a chuva molhando a cabeça, o corpo… De dia ou de noite, chover era uma festa! Posso ver o sorrisão dele debaixo d’água!!!
Era um cara que queria todo mundo por perto… Que venham os amigos e os amigos dos amigos e os filhos dos amigos… Gostava de uma boa roda de conversa, ainda mais se tivesse muita gargalhada junto…
De vez em quando, claro, tinha “Cabralgia”, aquela nostalgia típica, que acabava em choro e mais algumas doses de whisky para equilibrar… Durante toda sua vida, se lembrava dos pais com tanto amor e tanta emoção, que sempre enchia os olhos d’água… E isso sempre me impressionou… Nunca esqueceu suas raízes.
Vibrava pelas nossas conquistas, se fazia presente o tempo todo. Não viveu aqui neste plano por 100 anos, mas suas lembranças e seu legado ficaram aqui e vão permanecer enquanto nos lembrarmos dele.
Amanhã, dia 23 de agosto de 2022, vc faria 100 anos… Parabéns, meu pai!!! ❤️