Das vozes que me formaram

Tem uma poesia emoldurada na minha parede.

É do meu pai. Não sei ao certo quando ele a escreveu… Sei que foi para a minha mãe. Ele escrevia como respirava, com naturalidade e uma elegância que parecia não custar nada. Mas ela ficou. E toda vez que passo por ela, ouço a voz dele. Firme. Inteira. Aquela voz que subia ao palanque, ou se levantava no meio de uma festa e emocionava sem precisar de anotação, sem ensaio, sem artifício nenhum.

Meu pai chegou ao microfone aos 17 anos. Locução de rádio, primeiro. Depois televisão. Depois gestão de veículos de comunicação. Depois mandatos – prefeito de uma capital aos 28 anos, deputado estadual. Depois, a volta para a comunicação, de onde saiu por poucos anos e retornou para se retirar apenas quando foi obrigado a isso. Uma vida inteira construída sobre palavras ditas em voz alta, com convicção.

Cresci nesse mundo… E ainda assim, ou talvez por isso, eu era “a gasguita” (para quem não sabe, é a pessoa que grita, com uma voz irritante, estridente)

A caçula de oito filhos (e um tanto temporã) aprende algumas coisas cedo. Que os espaços já estão ocupados, que a conversa já começou antes de você chegar. Eu aprendi a me colocar no grito. Depois aprendi a me retirar no silêncio. Demorei para aprender a simplesmente estar, presente e inteira, sem precisar gritar nem desaparecer.

Comecei na faculdade de jornalismo aos 17 anos. Me formei com 21. Aos 22, entrei para meu primeiro emprego formal na área, mesmo que já trabalhasse desde os 18. Fui para a rádio ainda sem saber que me apaixonaria… talvez estivesse seguindo um fio invisível que me ligava ao meu pai, embora na época eu jamais tivesse admitido isso.

Era a gasguita, afinal. A voz feia. A tímida. A insegura. Mas, ainda em 1988, fui convocada. A locutora precisava de cobertura. E lá fui eu, encaixar a agulha no vinco exato do disco de vinil, soltar o cartucho no segundo certo, abrir o microfone e falar.

Falar para quem? Para a cidade. Para o invisível. Para mim mesma, talvez…

De 1988 a 1994, entrevistei praticamente todos os escritores e intelectuais que passaram pela Feira do Livro de Brasília, uma das mais vibrantes do país nos anos 80 e 90, quando a cidade ainda respirava arte, cultura e rock com uma intensidade que é difícil de descrever. Entrevistei músicos. Estive perto de artistas que nasciam aqui, na efervescência de uma cena que explodia. A Cultura FM era assim, um lugar de encontro, de ideias, de vozes.

E foi ali, entre vitrolas e cartuchos e microfones, que a gasguita foi embora. Não que tenha ido de uma vez, não sem medo, não sem desafios a serem superados. Mas foi…

Voz, aprendi, é muito mais do que timbre. É mais do que técnica, entonação, dicção. Voz é a consciência de quem você é e a coragem de deixar isso aparecer. É ocupar o espaço que é seu, sem pedir desculpa, sem minimizar. Ocupar.

Da rádio, fui para a assessoria. Depois para a TV. Depois, de volta para a assessoria. Há mais de 20 anos, dirijo uma agência de comunicação, preparo líderes para se posicionarem, acompanho crises, construo narrativas. Quase quatro décadas de uma vida profissional que, olhando de trás, foi sempre sobre isso… vozes. As que formam. As que silenciam. As que, com cuidado e insistência, encontram o seu lugar.

Penso no meu pai com frequência. Tenho a poesia na parede. Tenho a biografia, escrita depois que ele foi embora (infelizmente), na minha estante. Tenho a memória da fala firme, do olhar que prendia, das palavras que saíam como se já nascessem prontas. Fico pensando, às vezes, o que ele diria de mim… se reconheceria a filha nessa trajetória. Se sorriria daquele jeito dele.

Acho que sim!…

Penso também na minha mãe, uma potência que me dizia, de formas diferentes e ao longo dos anos, que eu podia mais. Que eu não devia me calar. Que havia espaço para mim, e que esse espaço eu teria que conquistar.

E penso nas minhas filhas, na minha neta, nos meus dois netos. Nas vozes deles e delas, e nos espaços que precisarão conquistar.

Quando o Solta a Voz, Mulher começou a tomar forma, esse projeto de comunicação e protagonismo feminino que estou lançando agora, percebi que ele nasce de uma vida inteira. Da gasguita que fui. Das mulheres que ouvi, ao longo de décadas, dizendo que têm algo a dizer, mas não sabem como. Que têm competência, mas não têm visibilidade. Que carregam histórias que o mundo ainda não ouviu.

Eu conheço esse lugar por dentro… E, olha, nem por isso deixo de entender que ter voz é um caminho diário, árduo e que nunca vai parar. O bom disso é que sei o que acontece quando uma mulher encontra a própria voz.

Legado, aprendi, é o que fica nas pessoas que você tocou, nas filhas que observam, nas mulheres que passam pela sua vida, nos rastros que uma voz deixa depois que o som já se foi.

O meu pai deixou muito mais do que uma poesia na minha parede. Minha mãe deixou a certeza de que somos potentes demais para nos calar.

Eu quero deixar vozes soltas no mundo.

Carta para Aquiles e Thor (e Zeus e TJ e Sirius Black) e para a (nova) Regina

Em janeiro de 2000, trouxemos o primeiro cachorrinho pra casa – o TJ. Durante mais de 26 anos, chegava em casa sendo recebida com lambidas, latidos, rabinhos abanando… TJ, depois Sirius Black, Aquiles, Thor e Zeus. Cada um deles foi embora… Thor e Aquiles ficaram mais tempo por aqui e se tornaram meus companheirinhos inseparáveis. Éramos nós 3 juntos. Desde 4 de junho de 2026, isso mudou. Thor foi embora e me deixou desolada, desesperada e sozinha…

Logo o Thor, Totóti, Totózinho… o cachorrinho mais fofo da nossa vida, o que ia com todo mundo, o que mais pedia carinho, que obedecia, que dormia no meu colo durante 2 ou 3 horas seguidas, enquanto eu assistia a um filme, o que andava comigo pela Asa Norte, o que era perfeito!… Ele não aguentou a falta do Aquiles… se foi no dia que fazia exatamente dois meses que o Aquiles tinha me deixado também. Tristeza. Solidão. Dor. Penso nele todos os dias e no que eu poderia ter feito de diferente.

Meu Aquiles… o cachorrinho que me escolheu, que me fez, pela primeira vez, tratar um pet como se fosse uma criança. Que me trouxe o amor maior do mundo, o olhar de admiração e uma paixão quase obsessiva por mim (sim, esse era o Aquiles). Morreu com 16 anos, nos meus braços. Levou um pedacinho do meu coração para o céu dos cachorros…

Racionalmente, eu sei que não posso me deixar sofrer tanto por isso. Tenho uma família linda e saudável, tenho um netinho maravilhoso que acabou de nascer, outro que vai nascer em agosto e ainda tenho a Elisa, que, “do alto dos seus 3 anos e meio”, me consola com abraços e os beijinhos mais carinhosos do mundo todo!

Quando recebi a notícia do Thor, entrei em desespero. Dois meses depois do Aquiles – mesmo dia. Um em 4 de abril, outro, em 4 de junho. Estava sozinha, em casa… as coisinhas dele ainda espalhadas por ali… caminha, pote de comida e de água… Eu prometi que o buscaria de manhã cedo na clínica, mas o telefone tocou antes. Gritei! Bateu um desespero – desses de gritar mesmo, sabe? Gritei pelo Aquiles, pelo Thor, pela minha separação, pelos lutos que talvez não tenham terminado de sentir ainda. Gritei por não entender a razão de ter que passar por este luto em tão pouco tempo, gritei pela Regina que nunca quis ficar sozinha, pela Regina que fui e pela Regina que ainda nem conheço direito. Pela Regina que tenho que aprender a ser. Chorei desesperadamente, como poucas vezes na vida. Desmoronei.

É verdade: estou bem e feliz bem na maior parte do tempo. Estou feliz – e é de verdade. Tenho uma casinha linda, que estou terminando ainda de arrumar com muito carinho. Tenho vida em mim – muita vida… Tenho novos projetos, duas filhas incríveis,  amigas, amigos, rede de apoio sólida:  minhas irmãs, irmãos, cunhadas, sobrinhos e sobrinhas. Tenho o Magno, que segue sendo o meu melhor amigo. Tenho amor, Tenho energia, saúde e vontade de seguir em frente.

Ainda assim, choro. Choro de saudade quase todos os dias. Pode ser ridículo para algumas pessoas. Não me importo. Choro, me emociono, enxugo as lágrimas e sigo em frente. Não quis investigar por que o Thor se foi: teve medicação equivocada? Teve algo que eu não fiz? Alguma coisa que alguém não fez? Não importa e não vai mudar nada. Choro todo o choro que vier pelos meus lutos e pelas minhas perdas. Sem desespero agora, só choro mesmo.

Recentemente, joguei fora o capacho que tinha vocês dois na minha porta. Tava doendo, desculpa. Semana passada, ainda chegaram umas comidinhas que eu pedi pra vocês. Ficaram lá. As roupinhas, caminhas, ração, medicamentos e tudo mais… foram para um abrigo. Que novos cãezinhos se sintam aquecidos com o amor que vocês tiveram.

Perdas acontecem. As perdas do envelhecimento não são poucas… O tempo, ah, o tempo é implacável e pode ser cruel… Nos últimos cinco anos, foram embora daqui o meu irmão João, a minha mãe, o Zeus (nosso gigante mais amado), minha sogra, o Aquiles e, há menos de 20 dias, o Thor. Além disso, tive uma perda enorme há pouco mais de sete meses: um casamento de 38 anos, um namoro de praticamente 42 anos. Sair da casa, vender tudo, morar sozinha. Perdas. Lutos que necessitam ser vividos. Com choros, com risos, com as boas lembranças, com amor. E, às vezes, com gritos de desespero.

Também vieram muitas coisas boas, coisas maravilhosas, incríveis e que curto todos os dias: Elisa chegou trazendo um novo jeito de ser chamada – para quem não sabe ainda, vovó é a palavra mais doce do mundo. Além de vovó, sou Vovó Maluquinha. Depois veio o Davi, sobrinho e afilhado. Gabi e Caio nos deram o baby Paulo, primeiro menininho em uma família cheia de mulheres. Veio arrasando com um sorriso de derreter o coração. Agora tá chegando o Bernardo, o mais novo, nono da nossa turma, irmãozinho da Elisa e esperado com todo o amor que temos pra dar.  

Todos os dias agradeço por tantas bençãos! Sou privilegiada e sei bem disso. Tenho amor, muito amor. Ganhei e ganho todos os dias um montão de felicidade.

Me pego algumas vezes pensando se isso tira o meu direito de sofrer…

Só que todo dia alguma coisa me lembra o Thor e o Aquiles: os cachorrinhos da quadra, os caminhos por onde caminhávamos, um barulho que escuto e acho que são eles… Ouço a respiração deles atrás de mim no escritório, vez ou outra, ouço o barulho da coleira deles. Mas, sem dúvida, o pior é abrir porta de casa e não ter ninguém pra me receber.

Estou sozinha: essa palavrinha que me metia muito medo! Mas quem disse que estou/sou sozinha ou solitária? Descobri rapidamente nos últimos meses que me amo (sim, tenho esta capacidade de me amar, acredita?), que gosto da minha companhia, que curto estar só. Quem diria! Ouço música, podcasts, danço sozinha, canto, leio, assisto filmes, séries e também perco tempo na internet, como qualquer outra pessoa em 2026… Nem de longe tudo isso me livra de, de vez em quando, me sentir sozinha.

Em pouco mais de sete meses de separação, aprendi que gosto de andar pelas quadras de Brasília descobrindo coisas escondidas (cafés, lojinhas, padarias…). Que sei sentar sozinha e pedir um café da manhã gostoso só pra mim. Que comprar comida só pra mim é meio sem graça, mas pode ser bom. Que curto tomar meu vinho, pedir ou fazer uma refeição – pra mim. Que ir ao cinema sozinha é muito gostoso. Que adoro escolher pra onde vou ou o que vou fazer. Ou não. E tá tudo bem.

No fim, é sobre isso: esta carta é cheia de saudades dos meus companheiros que se foram, mas também é uma carta de amor, aberta à Regina que está (re)nascendo por aqui…

Obrigada aos meus companheirinhos Aquiles e Thor (e também ao TJ, Sirius Black e Zeus). Obrigada por me darem tanto amor. Me conforta saber que vocês foram felizes. E amados, muito amados.

O tamanho da saudade que estou sentindo se explica pelo tamanho do amor que tenho por vocês. Até qualquer dia!

Carta para Luciana e Gabriela

Essa foi tirada antes do Paulo nascer, mas diz tanto sobre nós…

Filhas, dia desses vi um filminho de IA (reels) que contava a história de uma mulher de 85 anos que acorda em seu corpo de 35 e reencontra seu filho, ainda pequeno, a casa com bagunça espalhada, o marido jovem, a antiga rotina. Ela revive o abraço do filho, o cheiro da casa, o amor que existia naquilo tudo… 

O filme me emocionou, claro e, ao mesmo tempo, no lugar de me trazer nostalgia, saudade ou vontade reviver esses momentos de 25, 30 anos atrás, me trouxe para o aqui e agora. Para o hoje, para a Regina vovó.

Estou em São Paulo, deitada no quarto de hóspede da casa da Gabi e do Caio enquanto escuto um chorinho de bebê… Estou tentando dar algum apoio após o nascimento do Paulo, e aí, me pego sorrindo e pensando que estou (re)vivendo estes momentos, ainda que em um papel diferente, quase como observadora, sabe?

Querem saber o que eu acho? Que mães lindas vocês são! Que orgulho das Mulheres que se tornaram, assim com M maiúsculo mesmo, sabe? Que força e que poder vocês duas têm! A Elisa e o Paulo (e o Bernardo, muito em breve) são pessoinhas pra lá de sortudas! Vão crescer inspirados por mães muito especiais. E por pais especiais também, porque as duas têm companheiros incríveis, que sabem compartilhar a vida a dois. Isso é lindo e me deixa imensamente feliz… 

Então, voltando ao reels que vi, eu só consigo pensar na felicidade que é estar aqui vivendo esse momento com vocês. Porque presenciar o nascimento da Elisa e do Paulo me faz (re)visitar vocês duas quando bebês, me faz (re)viver memórias de momentos incríveis que passamos juntas. E pensar que daqui a pouquinho chega o Bernardo!… Vocês conseguem sentir minha felicidade?!?! Casa cheia! Crianças, bagunça (todo mundo sabe que eu gosto), risadas…

Se eu pudesse dizer algo sobre a maternidade eu diria que, sim, ela pode ser complexa e solitária muitas vezes… Mas é também rica e cheia de momentos recompensadores. Cada sorriso de vocês, cada nova descoberta, cada gracinha… tudo sempre fez valer o cansaço e a dificuldade. E agora é assim com meus netos… que lindo de viver!!! Se é fácil? Claro que não! Se tem dúvidas, medos e ansiedade? Claro que tem! Mas não é assim a vida? Cheia de imperfeições, pratinhos caindo, dores e alegrias, decepções e felicidade? A maternidade é cercada de cobranças e de pressões, mas lembrem-se: vocês são as melhores mães do mundo todinho. Vocês são o colo, o abrigo e o alimento dessas criaturinhas. Eles amam vocês incondicionalmente (exceto na adolescência, mas deixa isso pra depois, hahaha). Vivam cada dia dessa aventura que é “maternar”. O amor vai sempre valer mais a pena do que qualquer dúvida, qualquer medo.

Para a Regina de 30 e poucos anos, ou para a Gabi e a Lu que são mães recentes, eu diria: não se preocupem em excesso, porque tudo passa. Então, curtam, cheirem seus bebezinhos, guardem cada gracinha, fotografem, filme, escrevam sobre eles, criem memórias afetivas, brincadeiras, cantem, dancem e aproveitem. Porque isso tudo também vai passar. Até o puerpério passa também (você vai ver, Gabi). A gente descobre que a vida é mesmo esse “esquenta e esfria”, como já disse o poeta. 

Viver a fase de avó me ensina muita coisa. Ensina, principalmente, que amadurecer e envelhecer tem benefícios impagáveis, como ver vocês agora, curtir o nascimento da neta e dos netos (e dos próximos que podem vir) e ainda estar me sentindo inteira, viva e louca pelas novas aventuras que virão por aí com vocês! 

Lu e Gabi, vocês são Mulheres que me enchem de orgulho!

Daqui a alguns dias (bem poucos agora), volto para Brasília. Meu coração seguirá agora dividido entre essas duas cidades. É aquela vontade de ver a Elisa com a vontade de não largar o Paulo. Saudades de Brasília e já querendo volta para SP. Vontade de voltar pro meu apartamento e uma enorme gratidão por esses dias aqui com Gabi e Caio.

Obrigada, vocês duas, por me permitirem fazer parte de tanta felicidade. E não deixem de me “gritar”quando precisarem. Estou e estarei sempre aqui.

Like a bridge over troubled water. 

Amo vocês! 

Mãe, mamãe, mami, Reginaaaaaaa, vovó Maluquinha.

Carta para a Regina de 15 anos

Menina do céu, a gente entrou nos 60!

E, sabe, eu fecho os olhos hoje e penso na Regina de 15 anos. E sei que, aos 15, você não pensava em como seria aos 60, mas, olha, você tá aqui, oficialmente idosa…

Preciso te contar: você se superou muitas vezes. Você cresceu, amadureceu, casou, teve filhas, tem uma neta e um netinho a caminho, tem muita saudade acumulada ao longo da vida, claro…

Trabalhou muito! Ganhou pouco dinheiro, é verdade, mas sempre trabalhou em coisas que você gostou de fazer, se realizou fazendo, mesmo quando as coisas estavam difíceis. Mas quer saber? A Regina de 60 está cheia de novos planos, acredita?!

Você amou muito, também foi muito amada, eu sei. Viveu um amor lindo, que durou bastante tempo! Você tem muitas amigas, muitas delas ainda desde os 15, algumas até antes. Você manteve muitas amizades do ensino médio, algumas do ensino fundamental (aquele que chamávamos de primeiro grau)

E, olha, você chegou aos 60, mas você ainda pensa como uma menina de 20 ou como uma mulher de 30. Ou ainda uma de 40. Todas elas estão aqui dentro de você. Já ouvi muitas pessoas dizerem que se sentem assim também . Acho que é assim que cultivamos a juventude dentro de nós.

Todas essas Reginas estão aqui. A Regina de 15, de 20, de 30, de 40, de 50. Estão todas aqui dentro dessa de 60. Se me encontrasse com a Regina de 15 agora, diria que me cuidei como pude, me descuidei um pouco também, fiz o que deu!…

Preciso contar que você ainda tem muita rede de apoio, tem muita rede de apoio. Suas filhas, suas irmãs, seus irmãos, suas muitas amigas antigas e as novas, essas que você foi fazendo ao longo da vida também. Todas essas pessoas ajudaram a construir o que você é hoje.

Sabe quando a gente é adolescente e que a gente pensa que as amigas são tudo no mundo? Elas são mesmo. Quanto mais, melhor. E você conseguiu manter várias. Construiu amizades sólidas, profundas. São salvadoras, as amizades.

E a gente está aqui. Talvez você não imaginasse que nesse momento, chegando aos 60 anos, sua vida fosse mudar tanto, mulher. Começar de novo. Mais uma vez, mas agora, bem diferente…

Pois é, às vésperas de se tornar SEXagenária, você vai morar sozinha, com seus cachorros. Fim de um sonho? Saiba que foi bom e não tente mudar nada do que aconteceu… vivemos momentos incrivelmente lindos e importantes. Agora, é mais um ciclo que começa…

Essa virada de vida veio sem planejamento, sabe? Mas veio em um momento maduro, uma decisão conjunta, sabe? Ainda assim, é uma barra! Mas você está segurando a barra. E está se superando de novo.

Olha que legal. Aos 60 anos, Regina… você conseguir ainda se superar. Fique orgulhosa de você.

Se eu pudesse dizer algo para a menina de 15, eu diria: nós estamos bem. Nós conseguimos. E nós ainda vamos mais longe.

A gente, claro, não pode prever o que acontece. Mas se der, essa Regina aqui quer viver 100 anos… Acredito que a Regina de 15, a Regina de 20. A de 25, a de 35, a de 40, 45, 50, 55. Todas essas Regina estão aqui dentro e querem viver muito ainda!!!

Então, vamos nessa! Que a gente tem muita coisa pela frente. Eu tenho certeza que a gente ainda tem muitos desafios aí. Pra superar. Vamos juntas.

Ah! A imagem que ilustra este post foi feita com Inteligência Artificial. Isso aí é uma loucura, que nem podíamos imaginar aos 15… Legal, né?!

É isso! Bora viver esta maturidade, com energia e disposição!

Reflexões de uma venda de garagem: despedidas e recomeços

Dizem que vender as coisas antigas serve para reciclar a energia, renovar os ares, deixar a vida mais leve. Nos últimos dias, vivenciei uma venda de garagem (ou, em palavras mais chiques, um garage sale), que nada mais é do que vender partes da sua própria história em busca de começar uma nova…

É quase um jogo de azar, em que você arrisca tudo e não sabe muito bem o que te espera. No fim, entra um dinheiro na conta, claro, mas fica aquela sensação de vazio no coração. Muitos motivos nos levaram a realizar a venda. O término de uma relação de mais de 40 anos (entre namoro e casamento) é apenas um deles.

Agora que a adrenalina baixou e estou numa sala vazia, enquanto a casa segue cheia de bagunça, caixas, roupas e sentimentos fora do lugar, resta o medo. O medo do novo, do novo ciclo, da nova vida — ainda que misturado à curiosidade pelo que vem por aí.

Vendemos de tudo por aqui: de botijão de gás vazio a celulares antigos, sofás e enfeites de Natal, roupas, panelas e eletrodomésticos. No meio de tudo isso, a gente vai entendendo que as perdas são parte da vida.

De tudo que foi embora hoje, duas vendas me fizeram cair num choro abafado: a do piano, especialmente quando o comprador começou a tocar aquele instrumento antigo, quase da minha idade, mas que ainda encheu a casa com a música e as lembranças.

O piano veio parar nesta casa meio que por acaso, mas fez parte da minha vida desde a infância. Nunca passei do dó-ré-mi-fá, mas ele esteve em todas as casas em que vivi na infância e adolescência.

Quando ele (o piano) se foi, tive a sensação de sair novamente da casa dos meus pais. Foi mais uma despedida da infância, da adolescência, da presença física deles. Desabei.

A outra venda que me arrancou lágrimas foi a da “boia de flamingo” da Elisa. Isso porque nosso amigo flamingo nos arrancou muitas gargalhadas gostosas nos banhos de piscina e nas brincadeiras.

Claro que sei que ainda teremos muitas outras (incontáveis) brincadeiras e motivos para gargalhar. Mas o simbolismo da casa, das nossas reuniões, dos churrascos em família, do flamingo na piscina… E eu me acabando de chorar mais uma vez…

O fim de um ciclo traz consigo o luto. É dureza lidar com as perdas. Lógico que o novo pode (e deve) trazer coisas boas. Tenho certeza de que ainda virão muitas músicas, gargalhadas e histórias para contar.

Despedidas sempre foram difíceis para mim e, desta vez, não seria diferente. Afinal, despeço-me do sonho do “felizes para sempre” e do “até que a morte nos separe”. Despeço-me do casal perfeito. Por mais pacífica e madura que tenha sido essa decisão conjunta, é impossível não despedaçar por dentro e não revirar milhares de sentimentos, expectativas, desejos e sonhos.

Não acabou ainda. Daqui em diante, há muita coisa a fazer. O pior talvez nem tenha passado… há as arrumações, as mudanças, o abre e fecha de caixas, a despedida em breve de um lugar que nos abraçou e acolheu nossa família.

Um lugar que viu a família se multiplicar. Casamentos aconteceram aqui, aniversários, festas de fim de ano, Natais, churrascos e confraternizações. Um lugar que também presenciou momentos de dor, quando tivemos que nos despedir da minha mãe, do João e da Dona Wanda. Um lugar que viu dois dos nossos cachorrinhos irem embora (Zeus e Pipoca), mas que também viu outros nascerem: o Otávio, o Jorge e o Luca.

Um lugar que recebeu nossa Elisa assim que ela nasceu, onde ela brinca livremente pelo jardim, inventando mil histórias e aventuras. Um lugar que testemunhou a chegada de uma nova vidinha para nos alegrar: nosso netinho Paulo. Um lugar que, definitivamente, mereceu o nome de lar.

Agora, é preciso pensar que temos muita vida para viver e novos lares para construir – somos bons nisso, afinal. E somos uma família, para sempre.

Vai ser diferente, vai dar medo, mas também será uma oportunidade de conhecer uma nova Regina. Alguém que nem sei direito ainda quem é, mas tenho certeza que é uma mulher mais madura, mais cheia de histórias, mais confiante, mais resolutiva e, talvez, mais exigente também. Foram tantos aprendizados recentes que estou processando.

Vai, Regina! Vai se descobrir. Vai com medo mesmo. Vai com confiança. Você tem muita vida pra viver.

P.S. Há muitos dias tenho pensado em como tenho sido forte, sem chorar, sem retroceder, sem olhar pra trás. Apenas querendo resolver os problemas e lidar com as situações, de forma firme e segura, mesmo sendo a maior chorona que conheço. Mas eu sabia que chegaria este momento de desabafo (e talvez venham muitos outros, já aviso). Escrever sempre me ajuda. Outro dia li um artigo de uma jornalista em que ela dizia: “Escrevo, porque é a única coisa que sei fazer.”  É isso: escrevo porque alivia. Escrevo porque assim consigo me expressar. Escrevo, porque quando termino, fico mais leve. Então, escrevo.

Até já!

Cartas para Paulo – 1

Meu amor,

Você ainda é pequenininho – pouco maior que um limão na barriga da sua mãe, mas já te amo tanto… Desde que soube da sua existência, uma felicidade enorme tomou conta de mim. Porque sei (sei mesmo) que sua chegada vai trazer ainda mais amor para nossa família. Assim como sei que seu pai Caio e sua mãe Gabi já são – e serão – os melhores pais do mundo pra você!

A Elisa, sua priminha, já fala de você o tempo todo. Os olhinhos dela brilham, cheios de carinho, cheios de expectativa para te conhecer. Vovó está também ansiosa (muito ansiosa) por esse momento. E pronta para viver fazendo malas e voando para São Paulo, só pra te encontrar.

Esses dias eu pensei: como é possível sentir saudades de alguém que nem conheço ainda? Mas já estou com saudades de você, sabia? Saudade e ansiedade… Saudade e amor… Acho que é porque estamos vivendo em cidades diferentes e não posso colocar a mão na barriga da sua mãe todo dia. Mas pode ter certeza: darei um jeito de te encontrar sempre. Sempre. E vamos conversar muito! Se prepara!

Vovó tem descoberto todo dia com a Elisa, como é olhar a vida pelos olhinhos de vocês. Não que eu não visse isso com sua mamãe ou com sua tia, mas agora… agora eu tenho mais calma pra apreciar a forma como vocês encaram tudo. Tenho mais paciência, porque já não tenho obrigações. Tenho menos pressa, porque o tempo agora é cheio de qualidade. Tenho mais empatia, porque a vida me ensinou um pouquinho… Acho que tenho também um outro olhar, sabe? Deve ser o que chamam mesmo de olhar de vó, né? É tudo tão lindo e tão cheio de descobertas (e de amor, muito amor!). Estou doidinha de curiosidades pra descobrir tudo com você também. E te colocar nos meus braços, te embalar, te fazer dormir, te encher de beijinhos e abraços…

Estou prontinha para essa nova aventura: vovó maluquinha no mundo do Paulo! Obaaaa! Vamos viajar juntos pelas historinhas (Elisa já tem um monte pra contar), pelas brincadeiras, pelos balanços e escorregadores, pelos jardins, pelos parquinhos e pelos lugares em que a gente conseguir andar. Vamos dançar, pular e colorir o mundo. E, claro, vamos levar o Otávio e o Jorge junto com a gente!

Eu Te espero de braços e coração abertos! Tem muito amor aqui pra você!
Vem, Paulo!

Um beijo enorme da sua vóvis, vovó Regina, Vovó Maluquinha ❤

Cartas para Elisa 8

Minha maravilinda Elisa,

Ontem, 27 de julho de 2025, foi Dia dos Avós. Só percebi à noite, quando o dia já tinha passado— e que dia maravilhoso, Elisa! Você dormiu aqui, ficou “grudada, grudadinha” o tempo todo… E foi tão lindo! Vovô precisou sair no fim da manhã e tivemos um dia todinho só pra nós duas!!! E, aqui sozinhas (com os cachorros, claro), eu tive a oportunidade de refletir (e agradecer, muito!) sobre a maravilha de te ver crescer.

Puxando você no balanço (— mais alto, vovó! — mais alto!), pensei em como você já está crescida. Às vezes, ainda me emociono ao lembrar da sua mãe grávida, ou de você tão pequenininha, e agora… quase três anos! Tanta coisa vivida, tanto aprendizado compartilhado. Sabe o que é mais bonito disso tudo? O amor que nos envolve—esse amor que você sente e devolve pra mim e pro vovô Magno (o “bonitão”), e que enche a nossa casa de alegria.

Tem horas que tenho vontade de “agarrar o tempo”, de congelar cada sorriso, o jeitinho, as palavras ainda atrapalhadas (tão lindas, será que pode continuar assim?) a gargalhada que ecoa pelos cantos. Depois penso – não! O melhor é saborear cada momento, deixar a vida acontecer bem devagarinho, aproveitando cada segundo ao seu lado.

Enquanto isso, lá estava você, balançando, brincando de pegar “nuvens de algodão doce”… E eu, feliz, sentindo o privilégio de viver isso. Você inventando músicas, rindo alto quando me manda “sumir” correndo – e eu sumia (e voltava correndo só pra te abraçar!). Nada se compara ao som da sua risada.

O nosso dia foi recheado de brincadeiras, corridas com os cachorros, pinturas, comidinhas (o bolo de banana não deu muito certo, mas valeu a tentativa!), musiquinhas e histórias de Os Saltimbancos (o teatro musical que você tanto ama!). Mil perguntas, mil descobertas… Só a gente mesmo para tanta conversa!

Hoje, domingo, a vovó acordou indisposta e não conseguiu cumprir a promessa da roda gigante. Mas o vovô Magno foi com você! Só vocês dois nesse passeio especial. Fiquei emocionada vendo as fotos e vídeo – como você está crescendo confiante, explorando o mundo com autonomia e brilho nos olhos.

A vida é tão rara, como diz a música… Que sorte a minha viver esses dias com você!

E sabe, Elisa? No fundo, Dia dos Avós é todo dia: sempre que a gente brinca, conversa, canta, se diverte. Te amo, minha menininha linda demais, perfeita, cheia de luz! Que venham muitos outros dias pra gente colecionar juntos!

Um beijo e um abraço apertado, da Vovó Regina

Carta para a Regina de quase 60 anos

Neste momento, estou em Pirenópolis – a pouco mais de 150 km de Brasília, mas parece mais longe daqui. Férias, descanso, jornada de autoconhecimento. Uma temporada curtinha – cheguei domingo, hoje é terça e vou embora amanhã. Mas estou aproveitando cada minuto. Sozinha – sem sentir solidão. Nunca tinha experimentado. Primeira vez agora, quando estou a cinco meses de completar 60 anos.

Esses 60 batendo à porta… Por que assustam? Só alguns números juntos. Não me sinto com 60, mas o que significa isso? Posso ter a idade que quiser? Minha idade não me define como a hashtag que uso nas redes sociais? Lá vem eles: toc, toc, toc…

Estou vivendo um período de transformações. Com os 60 batendo à porta. Estou investindo em mim – terapia, consultoria financeira… um pouco de meditação, atividade física com personal trainer. Investimentos que preciso. Tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. Muitos desafios.

E os 60 batendo à porta. O que vai mudar, afinal? Uma carteira de idosa? Estacionamento em locais privilegiados? A aposentadoria do INSS? Ainda não sei. Mas acho que muda mais o olhar das pessoas. Ouvi isso outro dia em um podcast: que a gente envelhece quando o olhar das pessoas sobre nós muda. Pode ser. Tem mudado de alguma forma há alguns anos. A forma como nos chamam de “senhora” com mais reverência… um pouco de complacência também…

Mas a gente envelhece também quando se olha no espelho e a idade tá lá: visível e palpável. As rugas, marcas do tempo, da vida, o colágeno (ah, o colágeno) que se esvai… a pele, mais fina, mais sensível, mais flácida.

Mas, por que isso é importante? Porque os 60 estão ali, batendo à porta.

Voltando à minha temporada: estou lendo Juliana Monteiro, uma jornalista sensível, com uma escrita tão verdadeira que dói. Indicação de outra Juliana – a Oliveira, uma jornalista e advogada e amiga das melhores. Amo. Mais a Barbosa, claro, porque conheço de pertinho e conto com ela todos os dias.

Bom, sobre a Juliana – a Monteiro. Estou lendo uma obra sobre a pandemia (Nada lá fora e aqui dentro). Faz cinco anos que vivemos tudo aquilo. Parece mais. Às vezes, parece menos também. Tanta coisa em cinco anos e meio. Tanta coisa que esquecemos também: o medo, a finitude espreitando, a esperança que o mundo melhorasse, que as pessoas ganhassem doses extras de empatia… As pessoas queridas que se foram com a covid-19. Amizades que ficaram para trás por causa das polêmicas (essas, talvez nem fossem amizades).

Mas o livro me trouxe de volta à minha vida. E à vontade de escrever. Muita vontade de escrever. Talvez por estar aqui nesta jornada de autoconhecimento. Sozinha, mas sem solidão. E com os 60 batendo à porta.

Também me levou novamente a março de 2020. Cinco anos e meio – período em que perdi um irmão, minha mãe, uma amiga de infância, minha sogra. Nesta ordem.

Também ganhei o melhor presente de todos. Virei avó. Foi de uma maneira linda, com muito, muito amor envolvido. Elisa é a menininha mais linda que conheço. E perfeita (piada interna, ela um dia vai saber). Amo com uma força inexplicável. Daquele amor que a gente conhece quando os filhos nascem. E que a gente aprende a multiplicar.

Lá vou eu começar a chorar enquanto escrevo à beira da piscina, escutando as crianças brincarem. Quis escrever aqui, com uma paisagem linda em volta. Sozinha, mas rodeada de gente, de natureza, de música, de risadas de crianças… Não é solitário. Interessante.

E os 60 por aqui, espreitando, batendo à porta. Por dentro, os 30, 40, 50… todas as idades ainda falam muito alto. A mesma vontade de fazer coisas novas. E estou fazendo. O projeto novo do “Solta a Voz, Mulher” tem sido um combustível poderoso. Sempre que chamo as mulheres a soltarem sua potência, sua energia, estou chamando a Regina.

A Regina de 20, de 30, a Regina menina, adolescente, brincalhona, que gosta de dançar e de rir. De fazer os outros rirem. A Regina que ama com tanta força que parece que o peito vai explodir. A Regina que ainda acredita nela mesma. Nas possibilidades. No amor. Na vida.

Caiu um cisco aqui. Segura a lágrima, porque se a primeira cair, vem aí uma cachoeira. Procuro o garçom. Uma água com limão pra ajudar a engolir o choro. Minha mãe gostava de dizer isso: engole o choro. Tadinha… Teve que engolir muito choro. Como se fosse possível acabar com a emoção assim, engolindo. Nunca consegui.

Nem agora, com os 60 batendo à porta.




P.S.: uma nota que não pode deixar de estar aqui: estou tentando há bastante tempo dar uma parada pra respirar. Desta vez, foi possível graças à minha rede de apoio, que amo loucamente. Minha irmã, Carminha, me cedeu as diárias deste hotel incrível, que estou amando. Minha filha, Luciana, me emprestou o carro, porque compreendeu que a jornada começava ali, em Brasília, escolhendo o caminho para percorrer. Sozinha. E minha filha, Gabriela, que está cuidando dos meus cachorrinhos enquanto isso. Obrigada demais, meninas! ❤


Completo 59 anos e começo minha jornada rumo aos 60…

Mais um ano e serei oficialmente idosa! Serei agora então uma “pré-idosa”?

Falar isso em voz alta é complicado, né? Uma mulher com quase 60 anos no Brasil anunciar em alto e bom som a própria idade soa quase como “confessar um pecado”. O etarismo ecoa por todos os cantos, e seguimos enfrentando inúmeros preconceitos contra as mulheres: a menopausa, o envelhecimento, o corpo — se está acima do peso, se está abaixo, se tem muitas rugas, se tem marcas, se tem barriga, se precisa de botox ou de procedimentos estéticos. Pintar o cabelo ou assumir os grisalhos? São tantos pré-conceitos para tratar do envelhecimento feminino…

Aqui dentro, procuro me lembrar todos os dias: envelhecer é um privilégio. Mas dizer que é fácil e/ou glamuroso? Não, não é. É quase corajoso anunciar a idade. Uma incoerência em pleno 2024, quando os estudos apontam para um crescimento no número de pessoas idosas e uma redução da natalidade em praticamente todo o mundo.

E não é só enfrentar o preconceito, é também enfrentar alguns desafios, sim! Se eu, que reconheço os privilégios que tenho, enfrento alguns perrengues por conta do envelhecimento (sim, a menopausa traz muitos incômodos físicos e emocionais que ninguém te conta direito), me pego imaginando as mulheres que não têm acesso à saúde, medicamentos ou procedimentos. A menopausa não é “mimimi”; é difícil de encarar. No Brasil, então…

Por conta disso, sempre achamos normal a mulher (sempre a mulher) “mentir” a idade. Quantas de nós assume – de verdade – a idade que tem? Tive uma professora diferente: minha mãe fazia questão de comemorar “com pompa e circunstância” cada década: 60, 70, 80, 90… Queria ter chegado aos 100, mas nos deixou aos 94. Ainda assim, que privilégio ser de uma família de mulheres longevas! Tanto do lado da minha mãe quanto do meu pai, as mulheres ultrapassam com facilidade os 80 e 90 anos — algumas chegam muito próximas dos 100.

Enquanto isso, a vida até os 59 passa em um piscar de olhos. Clichê? Claro que sim! Mas é verdade: um dia, você tem 40 e acha que já está ficando “velha”. No outro, está prestes a fazer 59, depois 60, e percebe que é só uma “jovem amadurecida”. Claro que você precisa encarar aquela senhora no espelho — como escrevi neste blog há alguns anos.

Definitivamente, não tenho o direito de reclamar da jornada até aqui. Houve percalços, desafios, momentos de tristeza e de perdas, mas não é disso que a vida é feita?

Construí uma carreira, trabalhei em lugares incríveis, casei-me com o meu melhor amigo — e seguimos mantendo o amor e a amizade até hoje. Tive duas filhas maravilhosas, uma neta linda e genros que adoro.

Não é sobre ter uma vida perfeita, como aquele comercial de margarina. Essa existe só nas redes sociais, não tenham dúvidas. É sobre entender que vamos lidando com as pedras no caminho e construindo novos rumos, mesmo quando precisamos fazer viradas bruscas ou escolhas difíceis.

Gratidão é outro clichê? Pois, sinceramente, agradeço por tudo que aprendi até agora e espero continuar aprendendo pelos próximos 40 anos. Sim, acredito que são mais 40 anos pela frente! É o mínimo que posso esperar, considerando a longevidade da família. Sou otimista e acredito que posso chegar lá como algumas dessas mulheres do Instagram — lúcida, independente e com vida ativa aos 80 e 90. Me refiro a alguns ícones, como Fernanda Montenegro, Jane Fonda, Nathalia Timberg, sabe? Claro que elas enfrentam perrengues também, mas seguem dignas e inspiradoras, altivas e lúcidas. É o que almejo.

Enquanto isso, sigo tentando fazer minha parte: atividade física (adoro e faço o possível para manter a regularidade, mas sei que há espaço para melhorar em 2025 – minha personal sabe disso!), uma alimentação “quase” balanceada (Não comentem com a nutri, mas amo comer!), cuidando com muito amor das minhas relações pessoais, buscando aprendizados diários, tomando meu vinho (com parcimônia – quase sempre – e muita felicidade – sempre!), e, claro, fazendo terapia, como todo mundo (quase) normal…

Além disso, tenho como meta manter acesa “a chama do amor que nos anima” — como meu pai nos ensinou — tanto no casamento com Magno como na relação com minhas filhas, genros e minha netinha linda. Tomara que dê certo daqui pra frente como tem dado até agora.

Então, vamos a ele: a mais um ano, mais desafios, aprendizagens, reflexões, encontros e desencontros, momentos felizes e outros nem tanto. A roda da vida continua a girar e, ao fim e ao cabo, é o que importa.

Olá, 59, estou de braços abertos para te receber!!!

Vumbora seguir na busca de viver melhor? Afinal, a vida tem que valer!

A experiência da vovó maluquinha: Cartas para Elisa 7

Ah, Lili… Acabamos de passar pelo segundo Dia dos Avós com você aqui com a gente! Tão louco isso!!! Até hoje às vezes me assusto de ser chamada de “vó”, apesar de entender o tanto de amor que tem nessa palavrinha…


Você já é uma menininha sapeca, de 1 ano e 8 meses. Tão pouco tempo e já faz a gente ser tão mais feliz… Você sorri, eu derreto… Você chora, aperta o meu peito…
Te amo um tantão enorme, não dá pra medir, sabe? Amor de vó!

O mais legal é todo dia a gente descobrir alguma coisa nova: um novo passinho de dança, uma nova palavrinha, uma música mais legal que a outra, uma brincadeira que te faz rir até cair… Nossa, quanta coisa…

Você já demonstra ser uma super companheira! Topa as nossas saídas (inclusive noturnas), senta à mesa dos restaurantes e come tudo que passar por ali, vai ao Capital Moto Week (encontro de motos que seu avô adora e que eu aprendi a gostar), topa passear só comigo ou só com sua “dindin” Gabi sem dar o mínimo trabalho…

Eu estava relendo as cartas que escrevi antes pra você e como é engraçado… estamos fazendo tudo que eu tinha planejado e ainda muito mais!!! É lindo isso e me enche de uma felicidade incrível e de amor de vó!

É lindo saber que você pede pra sua mãe ligar pra gente, uma delícia conversar com você por vídeo e ficar rindo porque vc quer ver todos os cachorrinhos da casa e conhece cada um pelo nome… Tem o “Jógi”, o “Aquiiiiiiiless”, o “Tór”, o “Tatá”… Vc chama cada um e quer ver todos eles pelo celular… Você é maravilhosa com os cachorrinhos!

De vez em quando, você dorme aqui comigo. As noites ainda não são inteiras, mas é tão gostoso ficar admirando você dormir… É uma paz que sai ali de você, que enche o meu coração, que me faz pensar que os problemas são pequenos… Que coisa boa, meu amor!

Aqui na nossa família, seguem me chamando de “vovó maluquinha”, porque a gente corre pra cima e pra baixo, dança, canta, faz bagunça e ri muito. Se isso é ser uma vovó maluquinha, quero ser assim pra sempre. Não me deixa esquecer que isso é que é ser feliz, tá?

Daqui a pouquinho você fará dois anos! Dois anos!!! Lá vem o tempo passando e nos empurrando pra frente… às vezes nos fazendo rodopiar no meio do caminho, buscar uma nova rota, mas ele não para nunca… E lá vamos nós…

Obrigada por existir, minha Lili maravilhosa, bebelezinha pra sempre e Elisa, a corajosa!

Te amo cada dia mais e quero te encher de “amor de vó”!

Um beijo enorme da vovó maluquinha pra você!

Obs.: a foto já tem um tempinho, foi tirada há pouco mais de dois meses, mas ela diz tanta coisa pra mim… Não pude resistir.

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