
Tem uma poesia emoldurada na minha parede.
É do meu pai. Não sei ao certo quando ele a escreveu… Sei que foi para a minha mãe. Ele escrevia como respirava, com naturalidade e uma elegância que parecia não custar nada. Mas ela ficou. E toda vez que passo por ela, ouço a voz dele. Firme. Inteira. Aquela voz que subia ao palanque, ou se levantava no meio de uma festa e emocionava sem precisar de anotação, sem ensaio, sem artifício nenhum.
Meu pai chegou ao microfone aos 17 anos. Locução de rádio, primeiro. Depois televisão. Depois gestão de veículos de comunicação. Depois mandatos – prefeito de uma capital aos 28 anos, deputado estadual. Depois, a volta para a comunicação, de onde saiu por poucos anos e retornou para se retirar apenas quando foi obrigado a isso. Uma vida inteira construída sobre palavras ditas em voz alta, com convicção.
Cresci nesse mundo… E ainda assim, ou talvez por isso, eu era “a gasguita” (para quem não sabe, é a pessoa que grita, com uma voz irritante, estridente)
A caçula de oito filhos (e um tanto temporã) aprende algumas coisas cedo. Que os espaços já estão ocupados, que a conversa já começou antes de você chegar. Eu aprendi a me colocar no grito. Depois aprendi a me retirar no silêncio. Demorei para aprender a simplesmente estar, presente e inteira, sem precisar gritar nem desaparecer.
Comecei na faculdade de jornalismo aos 17 anos. Me formei com 21. Aos 22, entrei para meu primeiro emprego formal na área, mesmo que já trabalhasse desde os 18. Fui para a rádio ainda sem saber que me apaixonaria… talvez estivesse seguindo um fio invisível que me ligava ao meu pai, embora na época eu jamais tivesse admitido isso.
Era a gasguita, afinal. A voz feia. A tímida. A insegura. Mas, ainda em 1988, fui convocada. A locutora precisava de cobertura. E lá fui eu, encaixar a agulha no vinco exato do disco de vinil, soltar o cartucho no segundo certo, abrir o microfone e falar.
Falar para quem? Para a cidade. Para o invisível. Para mim mesma, talvez…
De 1988 a 1994, entrevistei praticamente todos os escritores e intelectuais que passaram pela Feira do Livro de Brasília, uma das mais vibrantes do país nos anos 80 e 90, quando a cidade ainda respirava arte, cultura e rock com uma intensidade que é difícil de descrever. Entrevistei músicos. Estive perto de artistas que nasciam aqui, na efervescência de uma cena que explodia. A Cultura FM era assim, um lugar de encontro, de ideias, de vozes.
E foi ali, entre vitrolas e cartuchos e microfones, que a gasguita foi embora. Não que tenha ido de uma vez, não sem medo, não sem desafios a serem superados. Mas foi…
Voz, aprendi, é muito mais do que timbre. É mais do que técnica, entonação, dicção. Voz é a consciência de quem você é e a coragem de deixar isso aparecer. É ocupar o espaço que é seu, sem pedir desculpa, sem minimizar. Ocupar.
Da rádio, fui para a assessoria. Depois para a TV. Depois, de volta para a assessoria. Há mais de 20 anos, dirijo uma agência de comunicação, preparo líderes para se posicionarem, acompanho crises, construo narrativas. Quase quatro décadas de uma vida profissional que, olhando de trás, foi sempre sobre isso… vozes. As que formam. As que silenciam. As que, com cuidado e insistência, encontram o seu lugar.
Penso no meu pai com frequência. Tenho a poesia na parede. Tenho a biografia, escrita depois que ele foi embora (infelizmente), na minha estante. Tenho a memória da fala firme, do olhar que prendia, das palavras que saíam como se já nascessem prontas. Fico pensando, às vezes, o que ele diria de mim… se reconheceria a filha nessa trajetória. Se sorriria daquele jeito dele.
Acho que sim!…
Penso também na minha mãe, uma potência que me dizia, de formas diferentes e ao longo dos anos, que eu podia mais. Que eu não devia me calar. Que havia espaço para mim, e que esse espaço eu teria que conquistar.
E penso nas minhas filhas, na minha neta, nos meus dois netos. Nas vozes deles e delas, e nos espaços que precisarão conquistar.
Quando o Solta a Voz, Mulher começou a tomar forma, esse projeto de comunicação e protagonismo feminino que estou lançando agora, percebi que ele nasce de uma vida inteira. Da gasguita que fui. Das mulheres que ouvi, ao longo de décadas, dizendo que têm algo a dizer, mas não sabem como. Que têm competência, mas não têm visibilidade. Que carregam histórias que o mundo ainda não ouviu.
Eu conheço esse lugar por dentro… E, olha, nem por isso deixo de entender que ter voz é um caminho diário, árduo e que nunca vai parar. O bom disso é que sei o que acontece quando uma mulher encontra a própria voz.
Legado, aprendi, é o que fica nas pessoas que você tocou, nas filhas que observam, nas mulheres que passam pela sua vida, nos rastros que uma voz deixa depois que o som já se foi.
O meu pai deixou muito mais do que uma poesia na minha parede. Minha mãe deixou a certeza de que somos potentes demais para nos calar.
Eu quero deixar vozes soltas no mundo.










