Carta para a Regina de 15 anos

Menina do céu, a gente entrou nos 60!

E, sabe, eu fecho os olhos hoje e penso na Regina de 15 anos. E sei que, aos 15, você não pensava em como seria aos 60, mas, olha, você tá aqui, oficialmente idosa…

Preciso te contar: você se superou muitas vezes. Você cresceu, amadureceu, casou, teve filhas, tem uma neta e um netinho a caminho, tem muita saudade acumulada ao longo da vida, claro…

Trabalhou muito! Ganhou pouco dinheiro, é verdade, mas sempre trabalhou em coisas que você gostou de fazer, se realizou fazendo, mesmo quando as coisas estavam difíceis. Mas quer saber? A Regina de 60 está cheia de novos planos, acredita?!

Você amou muito, também foi muito amada, eu sei. Viveu um amor lindo, que durou bastante tempo! Você tem muitas amigas, muitas delas ainda desde os 15, algumas até antes. Você manteve muitas amizades do ensino médio, algumas do ensino fundamental (aquele que chamávamos de primeiro grau)

E, olha, você chegou aos 60, mas você ainda pensa como uma menina de 20 ou como uma mulher de 30. Ou ainda uma de 40. Todas elas estão aqui dentro de você. Já ouvi muitas pessoas dizerem que se sentem assim também . Acho que é assim que cultivamos a juventude dentro de nós.

Todas essas Reginas estão aqui. A Regina de 15, de 20, de 30, de 40, de 50. Estão todas aqui dentro dessa de 60. Se me encontrasse com a Regina de 15 agora, diria que me cuidei como pude, me descuidei um pouco também, fiz o que deu!…

Preciso contar que você ainda tem muita rede de apoio, tem muita rede de apoio. Suas filhas, suas irmãs, seus irmãos, suas muitas amigas antigas e as novas, essas que você foi fazendo ao longo da vida também. Todas essas pessoas ajudaram a construir o que você é hoje.

Sabe quando a gente é adolescente e que a gente pensa que as amigas são tudo no mundo? Elas são mesmo. Quanto mais, melhor. E você conseguiu manter várias. Construiu amizades sólidas, profundas. São salvadoras, as amizades.

E a gente está aqui. Talvez você não imaginasse que nesse momento, chegando aos 60 anos, sua vida fosse mudar tanto, mulher. Começar de novo. Mais uma vez, mas agora, bem diferente…

Pois é, às vésperas de se tornar SEXagenária, você vai morar sozinha, com seus cachorros. Fim de um sonho? Saiba que foi bom e não tente mudar nada do que aconteceu… vivemos momentos incrivelmente lindos e importantes. Agora, é mais um ciclo que começa…

Essa virada de vida veio sem planejamento, sabe? Mas veio em um momento maduro, uma decisão conjunta, sabe? Ainda assim, é uma barra! Mas você está segurando a barra. E está se superando de novo.

Olha que legal. Aos 60 anos, Regina… você conseguir ainda se superar. Fique orgulhosa de você.

Se eu pudesse dizer algo para a menina de 15, eu diria: nós estamos bem. Nós conseguimos. E nós ainda vamos mais longe.

A gente, claro, não pode prever o que acontece. Mas se der, essa Regina aqui quer viver 100 anos… Acredito que a Regina de 15, a Regina de 20. A de 25, a de 35, a de 40, 45, 50, 55. Todas essas Regina estão aqui dentro e querem viver muito ainda!!!

Então, vamos nessa! Que a gente tem muita coisa pela frente. Eu tenho certeza que a gente ainda tem muitos desafios aí. Pra superar. Vamos juntas.

Ah! A imagem que ilustra este post foi feita com Inteligência Artificial. Isso aí é uma loucura, que nem podíamos imaginar aos 15… Legal, né?!

É isso! Bora viver esta maturidade, com energia e disposição!

Carta para a Regina de quase 60 anos

Neste momento, estou em Pirenópolis – a pouco mais de 150 km de Brasília, mas parece mais longe daqui. Férias, descanso, jornada de autoconhecimento. Uma temporada curtinha – cheguei domingo, hoje é terça e vou embora amanhã. Mas estou aproveitando cada minuto. Sozinha – sem sentir solidão. Nunca tinha experimentado. Primeira vez agora, quando estou a cinco meses de completar 60 anos.

Esses 60 batendo à porta… Por que assustam? Só alguns números juntos. Não me sinto com 60, mas o que significa isso? Posso ter a idade que quiser? Minha idade não me define como a hashtag que uso nas redes sociais? Lá vem eles: toc, toc, toc…

Estou vivendo um período de transformações. Com os 60 batendo à porta. Estou investindo em mim – terapia, consultoria financeira… um pouco de meditação, atividade física com personal trainer. Investimentos que preciso. Tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. Muitos desafios.

E os 60 batendo à porta. O que vai mudar, afinal? Uma carteira de idosa? Estacionamento em locais privilegiados? A aposentadoria do INSS? Ainda não sei. Mas acho que muda mais o olhar das pessoas. Ouvi isso outro dia em um podcast: que a gente envelhece quando o olhar das pessoas sobre nós muda. Pode ser. Tem mudado de alguma forma há alguns anos. A forma como nos chamam de “senhora” com mais reverência… um pouco de complacência também…

Mas a gente envelhece também quando se olha no espelho e a idade tá lá: visível e palpável. As rugas, marcas do tempo, da vida, o colágeno (ah, o colágeno) que se esvai… a pele, mais fina, mais sensível, mais flácida.

Mas, por que isso é importante? Porque os 60 estão ali, batendo à porta.

Voltando à minha temporada: estou lendo Juliana Monteiro, uma jornalista sensível, com uma escrita tão verdadeira que dói. Indicação de outra Juliana – a Oliveira, uma jornalista e advogada e amiga das melhores. Amo. Mais a Barbosa, claro, porque conheço de pertinho e conto com ela todos os dias.

Bom, sobre a Juliana – a Monteiro. Estou lendo uma obra sobre a pandemia (Nada lá fora e aqui dentro). Faz cinco anos que vivemos tudo aquilo. Parece mais. Às vezes, parece menos também. Tanta coisa em cinco anos e meio. Tanta coisa que esquecemos também: o medo, a finitude espreitando, a esperança que o mundo melhorasse, que as pessoas ganhassem doses extras de empatia… As pessoas queridas que se foram com a covid-19. Amizades que ficaram para trás por causa das polêmicas (essas, talvez nem fossem amizades).

Mas o livro me trouxe de volta à minha vida. E à vontade de escrever. Muita vontade de escrever. Talvez por estar aqui nesta jornada de autoconhecimento. Sozinha, mas sem solidão. E com os 60 batendo à porta.

Também me levou novamente a março de 2020. Cinco anos e meio – período em que perdi um irmão, minha mãe, uma amiga de infância, minha sogra. Nesta ordem.

Também ganhei o melhor presente de todos. Virei avó. Foi de uma maneira linda, com muito, muito amor envolvido. Elisa é a menininha mais linda que conheço. E perfeita (piada interna, ela um dia vai saber). Amo com uma força inexplicável. Daquele amor que a gente conhece quando os filhos nascem. E que a gente aprende a multiplicar.

Lá vou eu começar a chorar enquanto escrevo à beira da piscina, escutando as crianças brincarem. Quis escrever aqui, com uma paisagem linda em volta. Sozinha, mas rodeada de gente, de natureza, de música, de risadas de crianças… Não é solitário. Interessante.

E os 60 por aqui, espreitando, batendo à porta. Por dentro, os 30, 40, 50… todas as idades ainda falam muito alto. A mesma vontade de fazer coisas novas. E estou fazendo. O projeto novo do “Solta a Voz, Mulher” tem sido um combustível poderoso. Sempre que chamo as mulheres a soltarem sua potência, sua energia, estou chamando a Regina.

A Regina de 20, de 30, a Regina menina, adolescente, brincalhona, que gosta de dançar e de rir. De fazer os outros rirem. A Regina que ama com tanta força que parece que o peito vai explodir. A Regina que ainda acredita nela mesma. Nas possibilidades. No amor. Na vida.

Caiu um cisco aqui. Segura a lágrima, porque se a primeira cair, vem aí uma cachoeira. Procuro o garçom. Uma água com limão pra ajudar a engolir o choro. Minha mãe gostava de dizer isso: engole o choro. Tadinha… Teve que engolir muito choro. Como se fosse possível acabar com a emoção assim, engolindo. Nunca consegui.

Nem agora, com os 60 batendo à porta.




P.S.: uma nota que não pode deixar de estar aqui: estou tentando há bastante tempo dar uma parada pra respirar. Desta vez, foi possível graças à minha rede de apoio, que amo loucamente. Minha irmã, Carminha, me cedeu as diárias deste hotel incrível, que estou amando. Minha filha, Luciana, me emprestou o carro, porque compreendeu que a jornada começava ali, em Brasília, escolhendo o caminho para percorrer. Sozinha. E minha filha, Gabriela, que está cuidando dos meus cachorrinhos enquanto isso. Obrigada demais, meninas! ❤


Cartas para Elisa – número 2

Oi, meu amor!

Você ainda está no quentinho da barriga da sua mãe (que está linda), pesando quase dois quilos e medindo perto de 40 cm. Você já ouve nossas vozes e sente a luz que brilha aqui fora… E o nosso amor por você só cresce!

Eu queria te contar uma história bem linda hoje, mas não vai dar. É dia 2 de outubro de 2022, domingo, e tivemos o primeiro turno da eleição majoritária no Brasil. Você nem imagina como nosso país está confuso e dividido. Mas eu fui votar pensando em você, sabia? Pensando no futuro que eu espero que você possa desfrutar. Pensando que talvez um dia eu tenha a oportunidade de te contar tudo que estamos vivendo e, quem sabe, a gente consiga entender melhor tudo isso. É que os tempos não estão fáceis.

Eu quero muito que você encontre um Brasil melhor do que esse aqui!

Mas a gente vive um momento esquisito, de muita divisão na sociedade. Temos dois candidatos principais hoje, o Lula e o Bolsonaro. Você vai aprender sobre eles nos livros de história, quando estiver na escola. Eu espero conseguir te ajudar a entender tudo isso… Mas vai ser complicado explicar. Vai ser um pouco vergonhoso também, porque vivemos tempos tenebrosos, esquisitos mesmo…

Tivemos uma pandemia nos últimos anos. Já devem ter te contado sobre isso. Foi um período muito triste da história e ainda tivemos que lidar com atitudes anticiência, antivacina… Perdemos amigos e familiares para um vírus, que se chama Sars Cov 2, ou novo coronavírus. Ele provoca a covid. Espero que ele tenha sido dizimado do nosso planeta. Porém, até o dia de hoje, quase 700 mil brasileiros e brasileiras morreram pelo vírus, mas também pela má administração da pandemia, sabe? Muitas mortes poderiam ter sido evitadas. Eu sei que os livros de história vão te contar isso.

Foi nesse cenário que fomos hoje às urnas, no primeiro turno de uma eleição bastante apertada. E, ao escolher minhas candidatas e meus candidatos, eu tinha em mente que, se um dia tiver que contar para você como foi, preciso ter orgulho dos meus votos!  Preciso ter certeza de que estou fazendo as escolhas certas. Neste momento, a gente já sabe que haverá um segundo turno. E isso significa mais tensão por outros 30 dias. É exaustivo…

Escrever pra você ajuda a tornar tudo mais leve, me enche de amor no coração. É uma terapia. Estou adorando, espero que você goste também.

Mas deixa eu te contar como foi votar hoje e como fiz minhas esolhas, olha só:

Eu queria votar só em mulheres, mas não deu. Infelizmente, vivemos ainda uma sociedade em que as mulheres são maioria em número, mas não conseguem alçar os cargos mais altos. Somos minoria nas lideranças públicas e privadas, infelizmente. Uma triste realidade que vivemos, impulsionada principalmente pelo excesso de machismo e preconceito. Ainda tem uma sobrecarga de trabalho e responsabilidade para mulheres, que faz muitas de nós precisarem optar por não investir na carreira, nem na política…

Mesmo assim, em meio a um cenário onde a extrema direita ganha muito espaço no Brasil, tivemos algumas vitórias, sabe? Em alguns estados, conseguimos eleger candidatas trans, mulheres pretas, pessoas homossexuais. E isso parece pouco, mas é bastante significativo no contexto que vivemos hoje. Dá um pouco de esperança, sabe?

No meu caso, precisei escolher candidatas e candidatos que estivessem mais alinhados com o que penso, ainda que não fossem as melhores opções. Não foi fácil. Mesmo assim, tenha certeza de que minhas escolhas foram pensando em você e em um Brasil melhor. Tomara que você se orgulhe de mim.

O que eu espero que você consiga ter quando estiver crescendo no Brasil:

  • Uma sociedade mais solidária, mais empática
  • Uma sociedade menos preconceituosa: com relação à religião, à cor, às identidades sexuais (acredita que as pessoas se preocupam com isso em pleno século XXI?)
  • Menos machismo, racismo e misoginia – infelizmente esses preconceitos matam muitas pessoas no Brasil
  • Um povo menos dividido e mais informado (chega de fake News e enganação)
  • Menos armas nas ruas – acredita que tem gente que acredita que armando a população haverá mais segurança?
  • Mais incentivo à ciência e à educação
  • Mais escolas públicas e escolas técnicas, com oportunidade para todas as pessoas
  • Mais universidades acessíveis
  • Incentivo à cultura, porque a gente sabe que cultura é educação, também!
  • Mais saúde para todo mundo e não só para quem pode pagar caro por ela
  • Segurança e tranquilidade para andar nas ruas, brincar e ser feliz

O meu voto levou também em consideração o que eu NÃO quero que você encontre por aqui:

  • Eu não quero que você viva com medo apenas por ser mulher. O machismo mata muito! É inconcebível que mulheres apoiem atitudes e candidaturas machistas, sabe? E tem mulher que apoia!!! Em 2021, uma mulher foi assassinada a cada 7 horas no nosso país. A cada 10 minutos, uma menina ou uma mulher foi vítima de estupro. Os dados são de uma pesquisa feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública – https://forumseguranca.org.br/publicacoes_posts/violencia-contra-mulheres-em-2021/
  • Preconceito contra a população LGBTQIA+. Estamos em 2022 e as pessoas ainda estão tomando conta da vida dos outros, acredita? E isso também mata, por mais triste que pareça. O Brasil é conhecido por ser um dos países que mais mata essa população. E isso é horrível… E alguns governantes incentivam esse preconceito, sabe? O resultado, infelizmente, é ainda mais assassinatos e violência contra as pessoas.
  • Descaso com as pessoas com deficiência. Mais uma coisa horrível que acontece no nosso País, Elisa… Espero que não seja mais assim quando você puder ler estas cartas.
  • Descaso com os idosos e com a população vulnerável. Estamos deixando as pessoas morrerem de fome nas ruas… Viverem sem um teto, sem dignidade.
  • Governantes despreparados, que não são líderes de verdade. Precisamos de lideranças verdadeiras, pessoas que sejam empáticas com os problemas que afligem a população.

Por incrível que pareça, enquanto no mundo surgem mais e mais lideranças jovens, preocupadas com os temas de inclusão, sustentabilidade, meio ambiente e melhor divisão das riquezas, no Brasil, a gente luta contra (pre)conceitos da Idade Média, sabe? Pessoas que falam em nome de “Deus”, mas que pronunciam frases como: “preferia um filho morto a um filho gay”, “tive quatro filhos homens e, numa fraquejada, tive uma mulher”, “as mulheres vão ganhar armas para se proteger dos homens e cometer homicídios”, “eduquei bem meus filhos para não namorarem com gente preta”, “eu não te estupraria porque você é feia”, “a ditadura devia ter não só torturado, mas matado mais”, “vamos metralhar a oposição”, “os pretos quilombolas não servem nem pra procriação, deveriam ser pesados em arrobas”, “as pessoas estão morrendo, mas e daí? eu não sou coveiro”. Desculpa te contar tanta coisa horrível, Elisa, mas acho importante que essas atrocidades sejam registradas, para que nunca mais aconteçam no País.

Elisa, por enquanto, é isso que eu quero e consigo te contar agora. Mas sei que até você chegar a esta carta e entender tudo que está escrito aqui, já teremos lido juntas muitas outras histórias legais.

Quem sabe você já sabe de cor o livrinho “A Margarida Friorenta”, que sua mãe amava ou então a história de “Flicts”, a cor que ninguém gostava… Quem sabe a gente já tenha visto filmes incríveis, curtido muitos passeios, jogado muitos joguinhos legais, cantado muita música boa, dançado junto como se não tivesse ninguém olhando… E que eu possa ter te ajudado a aprender a andar de bicicleta, fazer SUP e até ioga e meditação! Tomara!!! Porque quero viver tudo isso e muito mais com você!

Elisa, quero que sua vida seja linda e leve, com muita história bonita pra contar. Mas quando não for assim, saiba que estarei sempre ao seu lado, do mesmo jeitinho. Conta comigo pra tudo e vamos juntas em busca desse Brasil melhor!

Ahhhhh!… Eu tenho que te contar depois que fiz um “Curso de Avó” para aprender a cuidar de você desde bem pequenininha de um jeito mais atual, porque algumas coisas mudaram um pouco desde que sua mãe e sua tia nasceram. Mas a gente conversa sobre isso outra hora, tá?

Um beijo bem grande da sua avó, vovó Regina, Tuca, Rê (ou como vc quiser me chamar, tá?)

“E, ao escolher minhas candidatas e meus candidatos, eu tinha em mente que, se um dia tiver que contar para você como foi, preciso ter orgulho dos meus votos!”

Cartas para Elisa – número 1

Oi, Elisa! Você nem nasceu pra este mundo e eu já te amo. Queria que você soubesse disso desde sempre!

Você deve estar do tamanho de uma couve-flor e pesar pouco mais de 700 gramas, mas eu já senti você se mexer dentro da barriga da sua mãe… Foi tão lindo!!!

Só de saber que vc estava chegando, minha vida já mudou, sabe? É que eu virei “avó” e ainda nem sabia se estava preparada pra isso… Mas meu coração já está tão cheio de amor que deve ser isso que chamam de ser avó, né?

Eu mal posso esperar pra ver sua carinha, pegar na sua mãozinha e cheirar os seus pezinhos ❤️

Mal posso esperar pra te contar que estarei aqui para o que der e vier – “like a bridge over troubled water”, como sempre falei pra sua mãe e sua tia.

Ah!!! A sua tia… Mal posso esperar pra ver vocês juntas… Já posso ver como ela vai babar e te encher de mimos e de carinho e de passeios…

E o seu avô? Ele se faz de durão, sabe? Mas quando você der o primeiro sorriso, quando olhar pra ele pela primeira vez, pode saber que ele vai se derreter… não tenho nenhuma dúvida disso…

Eu já imagino você nos meus braços, dormindo, brincando… sorrindo… Eu quero cantar pra você dormir (vc não vai se importar se eu for desafinada, né?)… quero passear com você, te levar pra ver o mundo. Queria muito que fosse um mundo melhor quando você estiver aqui fora, mas é o que temos por aqui…

Eu tenho medo, sabe? Voltei a ter medo, como quando eu estava grávida da sua mãe e depois da sua titia.

Tenho medo de não corresponder ao que você pode esperar de uma avó… Porque eu ainda trabalho muito e não tenho tanto tempo pra brincar… Mas sei que vamos construir nossos momentos juntas… Espero que dê certo ser uma avó que te leva pro trabalho!…

Tenho medo de não ser tudo que sua mãe espera de mim também… Sei lá…

Tenho medo de não ter todo o tempo do mundo pra ficar com você!…

Também quero ter tempo pra ter muitas conversas com você. Quero rir das suas gracinhas, curtir seus primeiros sorrisos e estar por perto quando você caminhar. E até quando você cair e se machucar, porque isso vai acontecer, mesmo que já me doa o coração só de pensar…

Um poeta que viveu um tempo atrás disse que a vida é assim, esquenta e esfria… aperta e afrouxa. Porque o que ela pede da gente é coragem!!! Se depender de mim, você vai ser muito corajosa e muito feliz!!! Conta com a vovó pra sempre!

Mas, olha, enquanto não chegar a hora certa, fica aí quietinha na barriga da sua mãe. Ela e seu pai estão preparando tudo aqui pra sua chegada. E tem também eu, seu avô, tia Gabi, tio Caio e mais um montão (um montão mesmo, não se assusta, tá?) de gente querendo cuidar de você!

Tem muito amor te esperando aqui fora, Elisa!

Um beijo bem grande e até já! Te amo ❤️

Vovó Regina, Rê, Tuca

Brasília, 19 de setembro de 2022

Família, família e família

Tempo de leitura: 5’45”

Paulo Cabral – amigo de muitos, marido apaixonado, pai e avô que infundia graça, estímulo e amor!

Família e amigos – e assim encerramos a homenagem ao Centenário de Paulo Cabral

O último post da série biográfica em homenagem ao centenário de Paulo Cabral apresenta o seu lado amoroso e afável, ricamente exemplificado em sua biografia “A TRAJETÓRIA DE UMA VOZ”.

Em 1944, Paulo Cabral era um homem no corpo de um jovem de 22 anos: Diretor Executivo da Ceará Rádio Clube, dentro da rede nacional de comunicação “Diários Associados”; Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais; Oficial da Reserva do Exército Brasileiro. Mas faltava-lhe uma coisa e, no dia 4 de setembro de 1945, justamente aniversário de Maria Coeli, não faltou mais. Casou-se com ela, a moça mais apaixonante que jamais viu; era sua ouvinte, sua amiga, sua fã, sua nêga.
 
Oito filhos vieram: Paulo Cabral Júnior (1946), Claudia Lireda (1950), Maria do Carmo (1953), Maria Coeli (1955), Marília (1956), João Augusto (1958), Fernando Antônio (1960), Regina Elizabeth (1965).

Maria Coeli foi companheira firme e dedicada, fazendo jus ao carinhoso apelido de “Graciosa Soberana”. Apoiou sua intensa trajetória profissional e as mudanças que ela demandava: Fortaleza, Recife, Belo Horizonte, Fortaleza novamente, Rio de Janeiro, de novo Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Brasília, onde fixaram residência.

Logo nos primeiros tempos de casados, chegou à casa de Paulo e Maria Coeli uma garotinha de 6 anos, que, a pedido da mãe, receberia acolhida e assistência para estudar na capital. Marina Alves Roman ganhou o apelido de Nena e era muito querida por Paulo.

Quando os filhos estavam pequenos, era habitual o “dever de férias”. Claro que todos deixavam para os últimos dias, e ele, depois de uma longa jornada de trabalho, sentava-se para ajudar a todos. Nesse, como em outros momentos, transmitia aos filhos a sensação de que sempre podiam contar com ele.

Foi explorando a arte do ventriloquismo, que a voz de Paulo Cabral assumiu mais um papel, estabelecendo diálogos entre os personagens Chiquinho e Benedito, por ele criados. A dupla conversava através dos cantos da boca do artista, de um lado com a voz fininha (para Chiquinho) e, do outro, muito grave e mau humorada (para o Benedito). Com essa artimanha, atraía a atenção dos pequenos, que acompanhavam estarrecidos as tramas em que o pai incluía estímulos ao dever de casa, à boa convivência etc.

Tarde da noite, Paulo parava para desfrutar da comidinha especial providenciada por Maria Coeli: carne moída, um acompanhamento leve e uma salada de frutas coberta de queijo ralado. Quem estivesse acordado acabava ganhando um pouquinho.

O lar era um refúgio de cantoria e prazer, sempre animado, recheado de amigos. 

Os filhos cresceram em meio a jornais, revistas, rádios e TVs, testemunhando sua entrega, dedicação e realização no trabalho. Paulo procurou dar oportunidades profissionais incentivando filhos e filhas com suas aptidões e competências, tendo-os como pessoas de confiança em diferentes momentos. Irmãos e amigos também tiveram seu apoio, sempre que a vida lhe permitia. Por isso, foi também tão amparado em momentos de necessidade, fosse material ou emocional.

Aos poucos, os netos chegaram, formando uma trupe de 20! E Paulo foi um avô amoroso, brincalhão e presente. Paulo criou rituais dentro da rotina familiar, que se tonaram momentos significativos. Um deles foi o inigualável “machucadinho do papai”, tradição que passou para os netos: uma preciosa mistura de ingredientes, amassados com garfo e muito carinho, regada com manteiga derretida, um toque de molecagem, alegria e bom humor. Cada criança levava o prato até o patriarca, que preparava a iguaria, experimentando uma garfada a cada finalização. Ele mesmo comia sempre frio… O procedimento era finalizado com o “bedibandivô”, uma sequência de beijinhos, de um lado e do outro do rosto, que compensava e realizava o vovô Paulo.

No ambiente profissional, era um homem de trato agradável. Lembrava-se do nome de todos e quase sempre atribuía um apelido carinhoso, que usaria repetidamente. Seu sorriso largo antecipava sua presença e era brindado generosamente a todos: a moça do café, o porteiro, o motorista… Para cada um, o seu “Bom dia!”, forte e sincero. Fazia questão de perguntar sobre o momento de cada um, a saúde, como andavam os filhos – e ouvia com a maior atenção.

Mesmo com tantas mudanças de cidade, as amizades nunca foram deixadas de lado e, vez ou outra, Paulo abria um parêntese em sua atribulada agenda para dar um telefonema anunciando sem pudor o objetivo: “manutenção de amizade”. 

Com a família de José Bonifácio, cujos caminhos seguiram entrelaçados por Fortaleza, Recife, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, os vínculos de amizade se estenderam para os filhos, formando uma família una. São inesquecíveis as temporadas em Araras animadas com cantorias, violão, banhos de riacho na Banheira do Imperador e uísque para espantar o frio.

No Rio de Janeiro, Paulo e Maria Coeli frequentavam animados saraus oferecidos pelo casal Lisbeth e Orlando Mota, com escritores e artistas de renome, como os pintores Antônio Bandeira e Aldemir Martins, os poetas Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Na casa de João Calmon e Maria Teresinha, igualmente aconteciam noitadas memoráveis, onde ouviam Dorival Caymmi ao piano, além de Hebe Camargo e outras vozes.

Lisbeth Mota, Teresinha Calmon, Sarita Campos, Zenilda Siqueira, Zilná, Sônia Castro, Ednéa Bastos e Teresinha Câmara faziam parte da sagrada mesa de biriba feminina que Maria Coeli integrava.

Rômulo Siqueira, Diretor Comercial da Ceará Rádio Clube na década de 1950, desde então estabeleceu com Paulo Cabral uma estreita convivência profissional que se transformou em fraterna amizade.

A vida social de Paulo era intensa e alegre. Nos restaurantes, costumava chamar o garçom pronunciando em alto e bom som: “Alonso!”. Quando o atendente revelava seu nome, Paulo questionava: “Mas eu te chamei de Alonso. Por que você atendeu?”  E assim iniciava mais um vínculo com as pessoas que o serviam.

Um garçom especialmente querido trabalhava na Churrascaria Parque Recreio, em frente ao prédio onde a família morava no Rio. Chamavam-se reciprocamente de “Doutor”. Quando Paulo chegava, o discreto garçom passava a algum colega a mesa que estivesse servindo, a fim de atender o “Doutor”. A conta, cuja soma não era módica, seria ainda acrescida de um generoso agrado.

Garoto era o motorista responsável por levar Paulo aos locais de trabalho e compromissos sociais, para tranquilidade da família, que assim mantinha o chefe afastado do volante, uma vez que a arte da direção não era bem o seu forte.

Em Belo Horizonte, grandes amigos foram incorporados à convivência: José Vaz, Camilo Teixeira da Costa Filho, Caio César Valli, Sylvio Prazeres, Estácio Ramos, Vicente Prates, Tarcísio Fialho, Luiz Antônio Mendes e Hélio Amoni, que se tornaria homem de confiança de Paulo para assuntos pessoais e profissionais, sendo cumprimentado por ele, solenemente, como “Meu Procurador!”.

Vez por outra Paulo retornava a Fortaleza para acalorar os amores fraternos de longa data. Os filhos acompanhavam toda aquela festa, uma verdadeira celebração da amizade, vinculando-se às origens de seus pais. Entre as boas lembranças que Paulo fez questão de dividir com os filhos, estava o “Banho do Telmo”, programa que levava ele e os irmãos a reviverem travessuras como crianças. Era infalível a ida a Sobral, tendo a companhia do amigo Vianinha, casado com Madu. Paulo enfrentava com boa disposição os 300km de uma estrada cansativa, para estar com sua irmã Leilah.

Junto aos companheiros que partilharam as diferentes etapas profissionais, deixou a marca do homem corajoso, camarada fiel que procurava usar fórmulas inteligentes na convivência e no trabalho. Para muitos, sua participação representou um ponto de partida para melhores oportunidades de vida.

Paulo tinha extrema disposição em atender pedidos que lhe chegavam; se possível, na mesma hora. Uma súplica jamais era esquecida, mesmo que transcorressem tempos para que a solução pudesse ser alcançada.

Como uma confirmação da sua amplitude como comunicador, correção como dirigente, da figura humana e solidária que com tantas pessoas alternou no curso dos anos, a vida de Paulo Cabral foi despertando interesse de pesquisadores e jornalistas. Seu nome passou a ser citado nas universidades de Comunicação.

Semeador incansável da paz, união e amor na família, Paulo Cabral conseguia irradiar o bem-viver através do sorriso fácil e espírito agregador. Desde a saudação personalizada, suas brincadeiras repetitivas, jingles para cada um dos filhos e para os passeios habituais, apelidos para todos os amigos e derretidos poemas para sua amada, a composição de paródias, os discursos marcantes… não seria exagero se chamássemos de verdadeiros hinos à Vida.

Paulo gostava de ouvir a sua voz. Estando todos em silêncio, ele puxava assunto consigo mesmo, em reflexões para lá de criativas. Sabia brincar com as palavras… Dizia que, quando morresse, tinha certeza de que sentiria muita saudade de si mesmo, realidade que o levava às lágrimas com a música: “Naquela mesa está faltando ele, e a saudade dele está doendo em mim…” A perspectiva do final era apaziguada apenas pela certeza de que “a Chama do Amor”, cantada em versos por ele, permaneceria iluminando sua família.

Doutor, essa série de 5 posts que compartilhamos entre os amigos nesse agosto de 2022 é o nosso presente de aniversário. Saiba que a valorosa contribuição de sua VOZ ecoará no mundo por muitos e muitos anos. Não existe ponto final. O que fica não é um vazio. Passa a ser um espaço amplo, pronto para ser preenchido por quem quiser. Infinitamente…

É isso!

Paulo Cabral de Araujo – 23/8/1922 – 20/9/2009

Te amo pra sempre ❤️

PAULO CABRAL – A CACHAÇA DA COMUNICAÇÃO


Tempo de leitura: 4’10″”

Em 23 de agosto de 2022, Paulo Cabral completaria 100 anos. Meu pai, avô de 20, bisavô de 19, quase 20, sogro de 3, amante da vida. Ah, Doutor, como sua voz nos faz falta, e sua eterna presença nos preenche!

Nesse post de homenagem aos 100 anos que estaria completando, damos continuidade à sua trajetória profissional, pormenorizada no livro: “A TRAJETÓRIA DE UMA VOZ”, disponível no link https://temquevaler.com/wp-content/uploads/2022/08/paulocabral_biografia_completo.pdf

A Cachaça da Comunicação

Um pedido de Chateaubriand parecia mais uma ordem. Somando-se ao amor pela comunicação, em 1955, Paulo Cabral abriu mão de seu cargo de Deputado Estadual do Ceará para assumir a gerência dos Diários Associados no Nordeste, com sede em Recife.

Um ano depois, dirigia-se à capital mineira, como Diretor-Geral dos Diários em Minas Gerais. A popularização de uma nova tecnologia marcava o momento: o televisor – e a montagem da TV Itacolomi era uma de suas tarefas. Porém, divergências políticas culminaram em seu desligamento do grupo, sendo substituído pelo irmão de Chateaubriand (Oswaldo) e recebendo como indenização 50% das ações da Rádio Verdes Mares de Fortaleza.

Paulo reassumiu suas atribuições legislativas no Ceará, como Deputado Estadual. Ao mesmo tempo, integrou-se ao escritório do concunhado, Abelardo Guilherme de Freitas Barbosa, que representava artigos como óleo de Peroba King, produtos de borracha Orion, vassouras e escovas de dente Condor e as célebres balanças Filizola!

Após concluir seu mandato, em 1959, tornou-se assistente de João Calmon, Diretor-Geral da Diretoria Central dos Diários Associados, no Rio de Janeiro.

Em 1960, Chateaubriand sofreu uma trombose dupla que o deixou paraplégico. Mesmo com a fala e os movimentos prejudicados, continuou a escrever artigos, tendo Paulo Cabral como porta-voz.

Numa manhã de 1965, faleceu o jornalista Geraldo Teixeira da Costa, Diretor-Geral dos Diários Associados em Minas Gerais. Chateaubriand indicou Paulo Cabral para reassumir o timão daquela gigantesca nau, que agora possuía mais um veículo: a TV Alterosa.

Após quase uma década lutando com as sequelas da trombose, Chateaubriand veio a falecer. Seu cortejo fúnebre, naquele abril de 1968, reuniu mais de 60 mil pessoas nas ruas de São Paulo.

João Calmon assumiu a Presidência do grupo. Paulo manteve-se na Diretoria de Minas até ser indicado para Diretor-Geral Central, quando voltou para o Rio de Janeiro.

Com a dinâmica elaborada por Chateaubriand, cada veículo foi capaz de seguir com autonomia, sendo pouco o que a gestão superior poderia fazer naquele momento de dúvidas e divergências sobre o rumo a ser dado ao grupo. Por isso, em 1971, Paulo licenciou-se dos Associados e abraçou a vida empresarial, exercendo por três anos diversos cargos no Grupo Financeiro Bandeirantes.

Em 1974, aceitou o convite para Secretário-geral do novo Ministro da Justiça, Armando Falcão. Ninguém escapava das tarefas indelevelmente memorizadas em seu dinâmico follow-up, um arquivo físico preenchido e atualizado manualmente.

Após essa etapa, em 1979, Paulo foi designado Procurador Geral dos Diários Associados, num momento aterrorizante para o grupo: greves de funcionários, causas trabalhistas, dívidas… Entre suas tarefas estavam apurar, interceder e acalmar os ânimos, além do difícil trâmite com o Presidente João Figueiredo, que olhava com intransigência a derrocada da Rede Tupi e a negociação de dívidas e compromissos financeiros.

Quando, em 1980, o governo suspendeu a concessão de sete dos nove canais de televisão dos Diários Associados, João Calmon renunciou ao comando do grupo, que exercia desde a morte de Chateaubriand, há 12 anos. Em reunião extraordinária, os condôminos elegem Paulo Cabral para a Presidência dos Diários Associados. Assumir essa cadeira foi para ele uma honra… e uma provação.

Quando perderam a concessão das emissoras de televisão, os erros vieram à tona. Paulo Cabral adotou uma posição consciente, levando o grupo com moderação e comedimento, sem extravagâncias. Conseguiu equilibrar a racionalidade, sem perder a paixão que sempre o iluminou. Com um forte trabalho de equipe foi, aos poucos, quitando dívidas e recuperando o prestígio das empresas em cada estado, confrontando diariamente a crença geral de que os Associados tinham se extinguido.

O Brasil retomava a voz e a liberdade abafadas por duas décadas de ditadura. A Era da Informação exigia rever o modus operandi. Paulo Cabral se engajou nesse movimento de avanço tecnológico, convergência multimídia e acelerada globalização. Vendo a vida através de seus 58 anos, com saúde e muita vontade de acertar, atraiu os mais descrentes e a palavra de ordem era transformar os erros em possíveis acertos, sustentando o lema: “não perder a força!”.

Proposta por Paulo Cabral em 1983, e viabilizada em 1989, a Fundação Assis Chateaubriand (FAC) promove o crescimento da juventude, como fez seu patrono durante a vida.

Em uma década, os Associados haviam contornado seus maiores problemas. A competência de Paulo Cabral foi ganhando a confiança do público e dos anunciantes, além de visibilidade. Dos governos recebeu homenagens, condecorações e medalhas. Empresas de comunicação lhe prestigiaram com troféus e honrarias.

Com o falecimento de Varela, diretor do Correio Braziliense, Paulo assumiu também a Presidência do jornal. Aos 70 anos, entrou em um ciclo de contínua geração de energias através do inovar. Foi um tempo de otimismo. Consultorias internacionais, pesquisas junto ao público, congressos no Brasil e no exterior, cursos e visitas institucionais a outros parques gráficos colocavam a equipe em exposição direta à globalização, inspirando-a a atuar como agentes transformadores. Paulo trabalhou como um visionário, adaptando-se a novas mídias para conquistar mais leitores. A modernização visual despertou a atenção do público e angariou premiações internacionais. A equipe foi tomada por novas perspectivas e os profissionais trabalhavam com entusiasmo. O Correio tornou-se um jornal ousado, que não omitia o seu posicionamento. Para Paulo, a liberdade estava carregada de deveres, conceito que foi executado com severidade nos jornais sob seu domínio. O Correio passou de 35 mil exemplares para 70 mil em 3 ou 4 anos. Em abril de 2000, foi inaugurado um novo e moderno Parque Gráfico, com toda a cúpula da República presente.

Para sanar as enormes dívidas que o jornal arrastava, revisaram a administração, enxugando mordomias e cargos.

Em 1994, Paulo acumulou mais uma função, ao suceder Jayme Sirotsky na Associação Nacional de Jornais. Durante três biênios, empenhou-se em revolucionar o jornalismo brasileiro. Promover os recursos humanos em meio a tantas mudanças tecnológicas foi a grande perspicácia de sua direção. Sua dedicação assegurou-lhe o respeito dos colegas. Sua astúcia e criatividade impressionaram os profissionais da área.

Ao assumir a ANJ, Paulo protagonizou um momento importante do jornalismo americano, discursando na Conferência Hemisférica sobre Liberdade de Expressão, promovida pela Sociedad Interamericana de Prensa (SIP) na Cidade do México. Nessa conferência elaborou-se a Declaração de Chapultepec, uma carta de princípios que foi assumida pelo Brasil em 1996. Em 1997, Paulo substituiu Pedro Pinciroli (Folha de São Paulo) como Vice-Presidente Regional para o Brasil da Comissão de Liberdade de Imprensa da SIP. Em 2000, integrou-se à Diretoria da SIP, sediada em Miami (EUA), com centenas de jornais filiados das três Américas, na qual atuou até 2002.

A performance de Paulo como radialista, político e executivo atestam que ele era um “mestre da palavra”, razão pela qual ocupou, em 1999, uma cadeira na Academia Cearense de Retórica.

Os grandes dias têm suas vésperas

Paulo Cabral – Centenário parte 4

“Os grandes dias têm suas vésperas”. Ele sempre dizia isso! Na verdade, acho que era pra ter mais um motivo para comemorar. Mais um dia de festa!

Paulo Cabral era um cara que gostava de música (e tinha um vozeirão inesquecível), de família reunida, de mesa farta, de elogiar a “Graciosa Soberana”, de recitar poesias, de fazer discursos emocionantes. Era um cara que amava a vida com tanta força que dizia ter saudade de si próprio quando pensava na morte. Aliás, não gostava de pensar na morte.

Um cara que dava apelido para a filharada e depois pros netos e netas, agregados, amigos, amigas… todo mundo tem um apelido carinhoso dado por ele… fazia musiquinhas que ninguém esquece, criava paródias e sabia transformar a vida sempre numa festa.

Chegava do trabalho sempre animado, com um sorriso, fazendo gracinha ou falando alguma piadinha pra arrancar um sorriso (ou uma bronca, rs) da Dona Maria Coeli!

Gostava de coisas simples: a tradicional carne moída com legumes, ovo no leite pro café da manhã, arroz e feijão – que viravam “machucadinho” com muita manteiga e doses extras de carinho. E dá-lhe uma fila de crianças esperando a tal mistura do vovô… Um copo de whisky, alguém tocando violão, um microfone e a noite podia não acabar nunca (só terminava quando Dona Maria chamava para tomar leite – quente ou frio, como quisesse, rs).

E se chovesse? Tinha que ter uma bica por perto! Qual cearense não curte uma bica, a chuva molhando a cabeça, o corpo… De dia ou de noite, chover era uma festa! Posso ver o sorrisão dele debaixo d’água!!!

Era um cara que queria todo mundo por perto… Que venham os amigos e os amigos dos amigos e os filhos dos amigos… Gostava de uma boa roda de conversa, ainda mais se tivesse muita gargalhada junto…

De vez em quando, claro, tinha “Cabralgia”, aquela nostalgia típica, que acabava em choro e mais algumas doses de whisky para equilibrar… Durante toda sua vida, se lembrava dos pais com tanto amor e tanta emoção, que sempre enchia os olhos d’água… E isso sempre me impressionou… Nunca esqueceu suas raízes.

Vibrava pelas nossas conquistas, se fazia presente o tempo todo. Não viveu aqui neste plano por 100 anos, mas suas lembranças e seu legado ficaram aqui e vão permanecer enquanto nos lembrarmos dele.

Amanhã, dia 23 de agosto de 2022, vc faria 100 anos… Parabéns, meu pai!!! ❤️

Te amo por mais 100 anos, pelo menos!

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Paulo Cabral – O Político

Centenário- Parte 3

Ele foi prefeito aos 28 anos e eleito Deputado Estadual com 33… Mas a carreira na Comunicação falou mais forte… Tem muita história ainda pra ser contada, olha aí:

“Certa feita, adentrou o escritório de Paulo Cabral, na Ceará Rádio Clube, o Deputado Paulo Sarasate (Diretor do jornal “O Povo”), acompanhado de outros políticos, profissionais da comunicação e estudantes, todos membros da UDN, militância política afim com os conceitos de Paulo Cabral. Fizeram a proposta de lançá-lo candidato a Prefeito de Fortaleza.

Paulo iria disputar com figurões: Dr. Alísio Mamede, grande médico e defensor das esquerdas; o também médico Dr. Paulo Machado (PTN), o Deputado Eretides Martins (PR), apoiado pelo então Prefeito Acrísio Moreira da Rocha; e o Sr. Antônio Gentil (PSD), Deputado Federal, dono do maior banco cearense da época, o Frota Gentil.

Todos os candidatos já haviam feito comícios, propagandas e comitês. Paulo Cabral nem mesmo começara. Anunciou sua campanha no dia 4 de setembro de 1950, faltando um mês para as eleições. Contava ele com um bom conceito junto aos seus conterrâneos, especialmente calcado nas campanhas humanitárias realizadas como radialista. Teve forte apoio da rádio e dos Diários Associados, além de visibilidade nos jornais O Povo, Correio do Ceará e Unitário. Manteve ainda seu horário diário na Ceará Rádio Clube, às 11h55, de segunda a sábado, no qual sua leitura de crônicas atingia números altíssimos de audiência.

Nos palanques, Paulo comparecia acompanhado de seu pai, João Augusto, e da esposa Maria Coeli, levando o primogênito Paulo Júnior pela mão. Assim, mostrava a faceta de um homem de família, que já era amado pela cidade como galã e radialista. Paulo Cabral era a presença carismática de sempre, de voz forte e animada, com direito a jingles de campanha criados por ele próprio.

A coligação que apoiava sua candidatura (UDN-PTB-PDC-PRP) exigia que Paulo assinasse uma carta de princípios e cedesse as indicações dos auxiliares aos partidos. Paulo refutou liminarmente a carta, que considerava ridícula, e, firme em sua posição, chegou a ameaçar deixar a campanha! Gentil Barreira, da UDN, pediu a todos um voto de confiança ao jovem candidato.

Dos 260 mil habitantes da capital, menos de 88 mil podiam votar. Destes, Paulo Cabral conquistou 20.777 votos, um resultado formidável que lhe conferiu, com apenas 28 anos de idade, a Prefeitura de Fortaleza. O Governador do Ceará, eleito no mesmo pleito, foi Raul Barbosa.

Paulo Cabral iniciou a vida pública no dia 31 de janeiro de 1951, afastando-se automaticamente da rádio. Na Prefeitura, constituiu o próprio gabinete com pessoas competentes. Algumas amizades tornaram-se leais membros de sua equipe; novos colaboradores constituíram-se em amigos. A irmã, Luzanira Cabral, e Clóvis de Alencar, eram seus Oficiais de Gabinete. José Bonifácio Câmara exerceu o cargo de Chefe de Gabinete, tornando-se seu braço direito, a ponto de merecer a alcunha de “Conselheiro Câmara” por parte de Paulo Cabral.

O mandato de Paulo Cabral, além de ter sido uma aula de afabilidade e companheirismo no meio profissional, também mostrou competência singular, melhorando a condição de vida dos fortalezenses. Conheça os principais feitos do Prefeito Paulo Cabral baixando sua biografia: “ATRAJETÓRIA DE UMA VOZ” no link https://temquevaler.com/wp-content/uploads/2022/08/paulocabral_biografia_completo.pdf

Apesar do profundo envolvimento de Paulo em sua jornada pública, a paixão estava no rádio. Vez por outra, acabava por visitar a Ceará Rádio Clube. Faltando ainda um ano para o término de seu mandato, Paulo recebeu um convite para retornar aos Diários Associados. Diante da veemência de Chateaubriand, viu-se tentado a abandonar o posto de Prefeito, mas, assim como o poderoso presidente e fundador daquele grupo, era ele também um homem obstinado, valor que Chateaubriand admirava e respeitava. Paulo dirigiu-se até o Rio de Janeiro para agradecer a posição destacada a ele oferecida, mas recusou a oportunidade e seguiu firme na política.

No fim do mandato (que concluiu em 25 de março de 1955), arriscou seguir no legislativo, candidatando-se a Deputado Estadual. No pleito de 03 de outubro de 1954, recebeu 13 mil votos, um número tão alto que teria garantido até mesmo as eleições para Deputado Federal! Era a maior votação a um candidato à Assembleia Legislativa até aquele ano. Logo apareceu, novamente, Chateaubriand com suas instâncias… E, dessa vez, Paulo Cabral cedeu”.

Saudades, pai! ❤️

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O Radialista

Hoje tem mais história! O segundo capítulo das homenagens…

PAULO CABRAL – O RADIALISTA

Continuando as comemorações do centenário de Paulo Cabral (1922-2009), cuja trajetória pessoal é uma amostragem histórica do desenvolvimento dos meios de comunicação no mundo, hoje apresentamos o seu percurso como locutor e sua eterna paixão pelo rádio…

Conheça mais sobre “a cativante história do cearense que brilhou no cenário brasileiro da política e da comunicação” baixando sua biografia: “A TRAJETÓRIA DE UMA VOZ”: https://temquevaler.com/wp-content/uploads/2022/08/paulocabral_biografia_completo.pdf

Com a ajuda de “amadores de radiotelefonia”, Demétrio Dummar deu início à primeira e maior estação de rádio cearense. Sob o prefixo PRE-9, em 1931, nascia a Ceará Rádio Clube.

Em 1939, a emissora organizou um concurso para a contratação de três novos locutores. O processo seletivo se tornou um grande evento, despertando a curiosidade do público, que acompanhava as provas através de alto-falantes instalados na Praça do Ferreira. Após executar com maestria um improviso, Paulo Cabral se avantajou sobre os demais candidatos, sendo aprovado como o primeiro entre os nove concorrentes. Uma vez que o resultado foi dado ao vivo, família e amigos iniciaram os festejos antes mesmo de sua chegada, recebendo-o com uma salva de palmas na rua. Com apenas 16 anos, Paulo sentia o gosto da conquista! Dois anos depois, ele ingressava na Faculdade de Direito.

Na PRE-9, Paulo Cabral cumpriu quase todos os papéis: entrevistas, programas de auditório e radionovelas. Carismático e alegre, conquistou a simpatia da sociedade cearense. Era uma celebridade nas ruas, onde recebia assédio do público.

Paulo Cabral: “Com essa minha cara, que sempre foi uma cara muito feia, de cearense mal-amanhado… mas eu fazia um galã e o meu irmão, José Cabral, fazia outro. E era muito interessante como o povo agarrava a gente na rua para abraçar, para dar parabéns, para pedir que fizesse isso ou aquilo. Uma vez encontrei uma fã, lá na Rua Barão do Rio Branco, e ela diz: “Por que é que você não rouba aquela mulher?! Tome coragem, roube aquela mulher! Satisfaça os desejos dela…”.

Às 13h, Paulo Cabral fazia o “Boa tarde”, faixa em que era lido algum texto literário. Às 21h, José Cabral fazia o “Boa Noite”. Para as poesias de própria autoria, Paulo usava o pseudônimo de Yvo Franco.

Entre os programas de auditório, houve o “Vesperal das Moças”, apresentado com João Ramos e Luciano Carneiro, que incluía músicas e sorteios de prêmios. Também o “Programa de Calouros” era sucesso de audiência. “A Hora do Comerciário” era um programa de auditório que preenchia o tempo de descanso no meio do dia. Com as lojas fechadas, os comerciantes ouviam o rádio nos cafés e na Praça do Ferreira, uma vez que, pelo alto custo do aparelho, tal tecnologia não havia chegado às residências.

Com seu bom humor e farta afetividade, Paulo Cabral comandou também programas infantis, como “O clube Papai Noel” e “A Cidade da Criança”.

Apesar de os leitores constituírem um seleto grupo de cidadãos alfabetizados, o jornal “O Povo” estava determinado a fomentar o gosto pelo saber, oferecendo suas edições a um preço irrisório (200 réis), viabilizado pela fortuna de seu fundador, Demócrito Rocha. A afinidade de princípios do periódico com a Ceará Rádio Clube refletia-se numa visível harmonia editorial.

Paulo Cabral honrosamente protagonizou a primeira chamada da Ceará Rádio Clube em ondas curtas para o Brasil… e para o mundo! Tamanho era o alcance, que chegava até mesmo na Suécia, onde a estação recebeu o prêmio de emissora estrangeira com maior audiência.

Em 1942, durante viagem ao Brasil para as filmagens do documentário “Its All True”, o cineasta Orson Welles concedeu uma importante entrevista a Paulo Cabral (ocasião em que presenteou o brasileiro com um rádio-gravador de aço, o primeiro que Paulo possuiu). A ousadia dessa entrevista, em plena Era Vargas, assim como outras situações em que a Ceará Rádio Clube sustentou sua liberdade de expressão, consolidavam, pouco a pouco, a credibilidade da emissora e de seus colaboradores.

No final da Segunda Guerra Mundial, a juventude das faculdades existentes no Ceará (Farmácia, Odontologia, Agronomia, Contabilidade e Direito) foi convocada para integrar a primeira turma do CPOR de Fortaleza. Em 1943, somando à vida acadêmica e profissional, Paulo incorporou-se ao exército. Antigas e novas amizades tornaram a experiência agradável: Mauro Barbosa Botelho, Péricles Sales Freire, Zenon da Cunha Barreto, Abelardo Barbosa e José Bonifácio Câmara. Juntamente com o alegre e comunicativo Tenente Vitoriano Freire, professor de Transmissões, Paulo Cabral organizou espetáculos fascinantes no pátio do quartel e no sítio “Carrapicho”.

Em 1944, Paulo formava-se Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do Ceará e Oficial da Reserva do Exército Brasileiro pelo CPOR, como “Segundo Tenente da Infantaria”.

A Ceará Rádio Clube era um sucesso entre todas as idades! A aposta no método inovador de entretenimento fez crescer os olhos de grandes empresários e corporações. A política nacionalista de Getúlio Vargas determinava que o controle das empresas de radiodifusão estivesse nas mãos de brasileiros natos ou naturalizados. Por esse motivo, o sírio João Dummar, após uma explícita perseguição política, foi obrigado a vender a PRE-9. O comprador foi Assis Chateaubriand, que incorporou a Ceará Rádio Clube à sua extensa rede de veículos de comunicação denominada “Diários Associados”. Paulo Cabral, com 22 anos, foi mantido no cargo de Diretor Executivo, que ocupava desde os 19, porém agora em nível nacional.

Pela Ceará Rádio Clube, Paulo apoiou com entusiasmo campanhas humanitárias, mobilizando doações em socorro das vítimas das enchentes do Rio Jaguaribe e para “salvar a Santa Casa de Misericórdia”, que, em 1948, ameaçava fechar as portas. O jovem ficava pendurado nos microfones em tempo integral, atuando como animador da campanha, a ponto de quase perder a voz. Todo o esforço valeu, pois os resultados superavam em muito a emergência original.

A crescente popularidade de Paulo Cabral atraiu os holofotes da política…

Paulo Cabral: “Sem nenhuma dúvida, a minha popularidade cresceu enormemente com as campanhas humanitárias, contribuindo de maneira significativa para a construção do lastro eleitoral que me levou à Prefeitura de Fortaleza.”

Semana que vem tem mais!

Muito orgulho, pai! ❤️

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Tem o livro completo aqui também: https://temquevaler.com/wp-content/uploads/2022/08/paulocabral_biografia_completo.pdf