Família, família e família

Tempo de leitura: 5’45”

Paulo Cabral – amigo de muitos, marido apaixonado, pai e avô que infundia graça, estímulo e amor!

Família e amigos – e assim encerramos a homenagem ao Centenário de Paulo Cabral

O último post da série biográfica em homenagem ao centenário de Paulo Cabral apresenta o seu lado amoroso e afável, ricamente exemplificado em sua biografia “A TRAJETÓRIA DE UMA VOZ”.

Em 1944, Paulo Cabral era um homem no corpo de um jovem de 22 anos: Diretor Executivo da Ceará Rádio Clube, dentro da rede nacional de comunicação “Diários Associados”; Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais; Oficial da Reserva do Exército Brasileiro. Mas faltava-lhe uma coisa e, no dia 4 de setembro de 1945, justamente aniversário de Maria Coeli, não faltou mais. Casou-se com ela, a moça mais apaixonante que jamais viu; era sua ouvinte, sua amiga, sua fã, sua nêga.
 
Oito filhos vieram: Paulo Cabral Júnior (1946), Claudia Lireda (1950), Maria do Carmo (1953), Maria Coeli (1955), Marília (1956), João Augusto (1958), Fernando Antônio (1960), Regina Elizabeth (1965).

Maria Coeli foi companheira firme e dedicada, fazendo jus ao carinhoso apelido de “Graciosa Soberana”. Apoiou sua intensa trajetória profissional e as mudanças que ela demandava: Fortaleza, Recife, Belo Horizonte, Fortaleza novamente, Rio de Janeiro, de novo Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Brasília, onde fixaram residência.

Logo nos primeiros tempos de casados, chegou à casa de Paulo e Maria Coeli uma garotinha de 6 anos, que, a pedido da mãe, receberia acolhida e assistência para estudar na capital. Marina Alves Roman ganhou o apelido de Nena e era muito querida por Paulo.

Quando os filhos estavam pequenos, era habitual o “dever de férias”. Claro que todos deixavam para os últimos dias, e ele, depois de uma longa jornada de trabalho, sentava-se para ajudar a todos. Nesse, como em outros momentos, transmitia aos filhos a sensação de que sempre podiam contar com ele.

Foi explorando a arte do ventriloquismo, que a voz de Paulo Cabral assumiu mais um papel, estabelecendo diálogos entre os personagens Chiquinho e Benedito, por ele criados. A dupla conversava através dos cantos da boca do artista, de um lado com a voz fininha (para Chiquinho) e, do outro, muito grave e mau humorada (para o Benedito). Com essa artimanha, atraía a atenção dos pequenos, que acompanhavam estarrecidos as tramas em que o pai incluía estímulos ao dever de casa, à boa convivência etc.

Tarde da noite, Paulo parava para desfrutar da comidinha especial providenciada por Maria Coeli: carne moída, um acompanhamento leve e uma salada de frutas coberta de queijo ralado. Quem estivesse acordado acabava ganhando um pouquinho.

O lar era um refúgio de cantoria e prazer, sempre animado, recheado de amigos. 

Os filhos cresceram em meio a jornais, revistas, rádios e TVs, testemunhando sua entrega, dedicação e realização no trabalho. Paulo procurou dar oportunidades profissionais incentivando filhos e filhas com suas aptidões e competências, tendo-os como pessoas de confiança em diferentes momentos. Irmãos e amigos também tiveram seu apoio, sempre que a vida lhe permitia. Por isso, foi também tão amparado em momentos de necessidade, fosse material ou emocional.

Aos poucos, os netos chegaram, formando uma trupe de 20! E Paulo foi um avô amoroso, brincalhão e presente. Paulo criou rituais dentro da rotina familiar, que se tonaram momentos significativos. Um deles foi o inigualável “machucadinho do papai”, tradição que passou para os netos: uma preciosa mistura de ingredientes, amassados com garfo e muito carinho, regada com manteiga derretida, um toque de molecagem, alegria e bom humor. Cada criança levava o prato até o patriarca, que preparava a iguaria, experimentando uma garfada a cada finalização. Ele mesmo comia sempre frio… O procedimento era finalizado com o “bedibandivô”, uma sequência de beijinhos, de um lado e do outro do rosto, que compensava e realizava o vovô Paulo.

No ambiente profissional, era um homem de trato agradável. Lembrava-se do nome de todos e quase sempre atribuía um apelido carinhoso, que usaria repetidamente. Seu sorriso largo antecipava sua presença e era brindado generosamente a todos: a moça do café, o porteiro, o motorista… Para cada um, o seu “Bom dia!”, forte e sincero. Fazia questão de perguntar sobre o momento de cada um, a saúde, como andavam os filhos – e ouvia com a maior atenção.

Mesmo com tantas mudanças de cidade, as amizades nunca foram deixadas de lado e, vez ou outra, Paulo abria um parêntese em sua atribulada agenda para dar um telefonema anunciando sem pudor o objetivo: “manutenção de amizade”. 

Com a família de José Bonifácio, cujos caminhos seguiram entrelaçados por Fortaleza, Recife, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, os vínculos de amizade se estenderam para os filhos, formando uma família una. São inesquecíveis as temporadas em Araras animadas com cantorias, violão, banhos de riacho na Banheira do Imperador e uísque para espantar o frio.

No Rio de Janeiro, Paulo e Maria Coeli frequentavam animados saraus oferecidos pelo casal Lisbeth e Orlando Mota, com escritores e artistas de renome, como os pintores Antônio Bandeira e Aldemir Martins, os poetas Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Na casa de João Calmon e Maria Teresinha, igualmente aconteciam noitadas memoráveis, onde ouviam Dorival Caymmi ao piano, além de Hebe Camargo e outras vozes.

Lisbeth Mota, Teresinha Calmon, Sarita Campos, Zenilda Siqueira, Zilná, Sônia Castro, Ednéa Bastos e Teresinha Câmara faziam parte da sagrada mesa de biriba feminina que Maria Coeli integrava.

Rômulo Siqueira, Diretor Comercial da Ceará Rádio Clube na década de 1950, desde então estabeleceu com Paulo Cabral uma estreita convivência profissional que se transformou em fraterna amizade.

A vida social de Paulo era intensa e alegre. Nos restaurantes, costumava chamar o garçom pronunciando em alto e bom som: “Alonso!”. Quando o atendente revelava seu nome, Paulo questionava: “Mas eu te chamei de Alonso. Por que você atendeu?”  E assim iniciava mais um vínculo com as pessoas que o serviam.

Um garçom especialmente querido trabalhava na Churrascaria Parque Recreio, em frente ao prédio onde a família morava no Rio. Chamavam-se reciprocamente de “Doutor”. Quando Paulo chegava, o discreto garçom passava a algum colega a mesa que estivesse servindo, a fim de atender o “Doutor”. A conta, cuja soma não era módica, seria ainda acrescida de um generoso agrado.

Garoto era o motorista responsável por levar Paulo aos locais de trabalho e compromissos sociais, para tranquilidade da família, que assim mantinha o chefe afastado do volante, uma vez que a arte da direção não era bem o seu forte.

Em Belo Horizonte, grandes amigos foram incorporados à convivência: José Vaz, Camilo Teixeira da Costa Filho, Caio César Valli, Sylvio Prazeres, Estácio Ramos, Vicente Prates, Tarcísio Fialho, Luiz Antônio Mendes e Hélio Amoni, que se tornaria homem de confiança de Paulo para assuntos pessoais e profissionais, sendo cumprimentado por ele, solenemente, como “Meu Procurador!”.

Vez por outra Paulo retornava a Fortaleza para acalorar os amores fraternos de longa data. Os filhos acompanhavam toda aquela festa, uma verdadeira celebração da amizade, vinculando-se às origens de seus pais. Entre as boas lembranças que Paulo fez questão de dividir com os filhos, estava o “Banho do Telmo”, programa que levava ele e os irmãos a reviverem travessuras como crianças. Era infalível a ida a Sobral, tendo a companhia do amigo Vianinha, casado com Madu. Paulo enfrentava com boa disposição os 300km de uma estrada cansativa, para estar com sua irmã Leilah.

Junto aos companheiros que partilharam as diferentes etapas profissionais, deixou a marca do homem corajoso, camarada fiel que procurava usar fórmulas inteligentes na convivência e no trabalho. Para muitos, sua participação representou um ponto de partida para melhores oportunidades de vida.

Paulo tinha extrema disposição em atender pedidos que lhe chegavam; se possível, na mesma hora. Uma súplica jamais era esquecida, mesmo que transcorressem tempos para que a solução pudesse ser alcançada.

Como uma confirmação da sua amplitude como comunicador, correção como dirigente, da figura humana e solidária que com tantas pessoas alternou no curso dos anos, a vida de Paulo Cabral foi despertando interesse de pesquisadores e jornalistas. Seu nome passou a ser citado nas universidades de Comunicação.

Semeador incansável da paz, união e amor na família, Paulo Cabral conseguia irradiar o bem-viver através do sorriso fácil e espírito agregador. Desde a saudação personalizada, suas brincadeiras repetitivas, jingles para cada um dos filhos e para os passeios habituais, apelidos para todos os amigos e derretidos poemas para sua amada, a composição de paródias, os discursos marcantes… não seria exagero se chamássemos de verdadeiros hinos à Vida.

Paulo gostava de ouvir a sua voz. Estando todos em silêncio, ele puxava assunto consigo mesmo, em reflexões para lá de criativas. Sabia brincar com as palavras… Dizia que, quando morresse, tinha certeza de que sentiria muita saudade de si mesmo, realidade que o levava às lágrimas com a música: “Naquela mesa está faltando ele, e a saudade dele está doendo em mim…” A perspectiva do final era apaziguada apenas pela certeza de que “a Chama do Amor”, cantada em versos por ele, permaneceria iluminando sua família.

Doutor, essa série de 5 posts que compartilhamos entre os amigos nesse agosto de 2022 é o nosso presente de aniversário. Saiba que a valorosa contribuição de sua VOZ ecoará no mundo por muitos e muitos anos. Não existe ponto final. O que fica não é um vazio. Passa a ser um espaço amplo, pronto para ser preenchido por quem quiser. Infinitamente…

É isso!

Paulo Cabral de Araujo – 23/8/1922 – 20/9/2009

Te amo pra sempre ❤️

PAULO CABRAL – A CACHAÇA DA COMUNICAÇÃO


Tempo de leitura: 4’10″”

Em 23 de agosto de 2022, Paulo Cabral completaria 100 anos. Meu pai, avô de 20, bisavô de 19, quase 20, sogro de 3, amante da vida. Ah, Doutor, como sua voz nos faz falta, e sua eterna presença nos preenche!

Nesse post de homenagem aos 100 anos que estaria completando, damos continuidade à sua trajetória profissional, pormenorizada no livro: “A TRAJETÓRIA DE UMA VOZ”, disponível no link https://temquevaler.com/wp-content/uploads/2022/08/paulocabral_biografia_completo.pdf

A Cachaça da Comunicação

Um pedido de Chateaubriand parecia mais uma ordem. Somando-se ao amor pela comunicação, em 1955, Paulo Cabral abriu mão de seu cargo de Deputado Estadual do Ceará para assumir a gerência dos Diários Associados no Nordeste, com sede em Recife.

Um ano depois, dirigia-se à capital mineira, como Diretor-Geral dos Diários em Minas Gerais. A popularização de uma nova tecnologia marcava o momento: o televisor – e a montagem da TV Itacolomi era uma de suas tarefas. Porém, divergências políticas culminaram em seu desligamento do grupo, sendo substituído pelo irmão de Chateaubriand (Oswaldo) e recebendo como indenização 50% das ações da Rádio Verdes Mares de Fortaleza.

Paulo reassumiu suas atribuições legislativas no Ceará, como Deputado Estadual. Ao mesmo tempo, integrou-se ao escritório do concunhado, Abelardo Guilherme de Freitas Barbosa, que representava artigos como óleo de Peroba King, produtos de borracha Orion, vassouras e escovas de dente Condor e as célebres balanças Filizola!

Após concluir seu mandato, em 1959, tornou-se assistente de João Calmon, Diretor-Geral da Diretoria Central dos Diários Associados, no Rio de Janeiro.

Em 1960, Chateaubriand sofreu uma trombose dupla que o deixou paraplégico. Mesmo com a fala e os movimentos prejudicados, continuou a escrever artigos, tendo Paulo Cabral como porta-voz.

Numa manhã de 1965, faleceu o jornalista Geraldo Teixeira da Costa, Diretor-Geral dos Diários Associados em Minas Gerais. Chateaubriand indicou Paulo Cabral para reassumir o timão daquela gigantesca nau, que agora possuía mais um veículo: a TV Alterosa.

Após quase uma década lutando com as sequelas da trombose, Chateaubriand veio a falecer. Seu cortejo fúnebre, naquele abril de 1968, reuniu mais de 60 mil pessoas nas ruas de São Paulo.

João Calmon assumiu a Presidência do grupo. Paulo manteve-se na Diretoria de Minas até ser indicado para Diretor-Geral Central, quando voltou para o Rio de Janeiro.

Com a dinâmica elaborada por Chateaubriand, cada veículo foi capaz de seguir com autonomia, sendo pouco o que a gestão superior poderia fazer naquele momento de dúvidas e divergências sobre o rumo a ser dado ao grupo. Por isso, em 1971, Paulo licenciou-se dos Associados e abraçou a vida empresarial, exercendo por três anos diversos cargos no Grupo Financeiro Bandeirantes.

Em 1974, aceitou o convite para Secretário-geral do novo Ministro da Justiça, Armando Falcão. Ninguém escapava das tarefas indelevelmente memorizadas em seu dinâmico follow-up, um arquivo físico preenchido e atualizado manualmente.

Após essa etapa, em 1979, Paulo foi designado Procurador Geral dos Diários Associados, num momento aterrorizante para o grupo: greves de funcionários, causas trabalhistas, dívidas… Entre suas tarefas estavam apurar, interceder e acalmar os ânimos, além do difícil trâmite com o Presidente João Figueiredo, que olhava com intransigência a derrocada da Rede Tupi e a negociação de dívidas e compromissos financeiros.

Quando, em 1980, o governo suspendeu a concessão de sete dos nove canais de televisão dos Diários Associados, João Calmon renunciou ao comando do grupo, que exercia desde a morte de Chateaubriand, há 12 anos. Em reunião extraordinária, os condôminos elegem Paulo Cabral para a Presidência dos Diários Associados. Assumir essa cadeira foi para ele uma honra… e uma provação.

Quando perderam a concessão das emissoras de televisão, os erros vieram à tona. Paulo Cabral adotou uma posição consciente, levando o grupo com moderação e comedimento, sem extravagâncias. Conseguiu equilibrar a racionalidade, sem perder a paixão que sempre o iluminou. Com um forte trabalho de equipe foi, aos poucos, quitando dívidas e recuperando o prestígio das empresas em cada estado, confrontando diariamente a crença geral de que os Associados tinham se extinguido.

O Brasil retomava a voz e a liberdade abafadas por duas décadas de ditadura. A Era da Informação exigia rever o modus operandi. Paulo Cabral se engajou nesse movimento de avanço tecnológico, convergência multimídia e acelerada globalização. Vendo a vida através de seus 58 anos, com saúde e muita vontade de acertar, atraiu os mais descrentes e a palavra de ordem era transformar os erros em possíveis acertos, sustentando o lema: “não perder a força!”.

Proposta por Paulo Cabral em 1983, e viabilizada em 1989, a Fundação Assis Chateaubriand (FAC) promove o crescimento da juventude, como fez seu patrono durante a vida.

Em uma década, os Associados haviam contornado seus maiores problemas. A competência de Paulo Cabral foi ganhando a confiança do público e dos anunciantes, além de visibilidade. Dos governos recebeu homenagens, condecorações e medalhas. Empresas de comunicação lhe prestigiaram com troféus e honrarias.

Com o falecimento de Varela, diretor do Correio Braziliense, Paulo assumiu também a Presidência do jornal. Aos 70 anos, entrou em um ciclo de contínua geração de energias através do inovar. Foi um tempo de otimismo. Consultorias internacionais, pesquisas junto ao público, congressos no Brasil e no exterior, cursos e visitas institucionais a outros parques gráficos colocavam a equipe em exposição direta à globalização, inspirando-a a atuar como agentes transformadores. Paulo trabalhou como um visionário, adaptando-se a novas mídias para conquistar mais leitores. A modernização visual despertou a atenção do público e angariou premiações internacionais. A equipe foi tomada por novas perspectivas e os profissionais trabalhavam com entusiasmo. O Correio tornou-se um jornal ousado, que não omitia o seu posicionamento. Para Paulo, a liberdade estava carregada de deveres, conceito que foi executado com severidade nos jornais sob seu domínio. O Correio passou de 35 mil exemplares para 70 mil em 3 ou 4 anos. Em abril de 2000, foi inaugurado um novo e moderno Parque Gráfico, com toda a cúpula da República presente.

Para sanar as enormes dívidas que o jornal arrastava, revisaram a administração, enxugando mordomias e cargos.

Em 1994, Paulo acumulou mais uma função, ao suceder Jayme Sirotsky na Associação Nacional de Jornais. Durante três biênios, empenhou-se em revolucionar o jornalismo brasileiro. Promover os recursos humanos em meio a tantas mudanças tecnológicas foi a grande perspicácia de sua direção. Sua dedicação assegurou-lhe o respeito dos colegas. Sua astúcia e criatividade impressionaram os profissionais da área.

Ao assumir a ANJ, Paulo protagonizou um momento importante do jornalismo americano, discursando na Conferência Hemisférica sobre Liberdade de Expressão, promovida pela Sociedad Interamericana de Prensa (SIP) na Cidade do México. Nessa conferência elaborou-se a Declaração de Chapultepec, uma carta de princípios que foi assumida pelo Brasil em 1996. Em 1997, Paulo substituiu Pedro Pinciroli (Folha de São Paulo) como Vice-Presidente Regional para o Brasil da Comissão de Liberdade de Imprensa da SIP. Em 2000, integrou-se à Diretoria da SIP, sediada em Miami (EUA), com centenas de jornais filiados das três Américas, na qual atuou até 2002.

A performance de Paulo como radialista, político e executivo atestam que ele era um “mestre da palavra”, razão pela qual ocupou, em 1999, uma cadeira na Academia Cearense de Retórica.

Os grandes dias têm suas vésperas

Paulo Cabral – Centenário parte 4

“Os grandes dias têm suas vésperas”. Ele sempre dizia isso! Na verdade, acho que era pra ter mais um motivo para comemorar. Mais um dia de festa!

Paulo Cabral era um cara que gostava de música (e tinha um vozeirão inesquecível), de família reunida, de mesa farta, de elogiar a “Graciosa Soberana”, de recitar poesias, de fazer discursos emocionantes. Era um cara que amava a vida com tanta força que dizia ter saudade de si próprio quando pensava na morte. Aliás, não gostava de pensar na morte.

Um cara que dava apelido para a filharada e depois pros netos e netas, agregados, amigos, amigas… todo mundo tem um apelido carinhoso dado por ele… fazia musiquinhas que ninguém esquece, criava paródias e sabia transformar a vida sempre numa festa.

Chegava do trabalho sempre animado, com um sorriso, fazendo gracinha ou falando alguma piadinha pra arrancar um sorriso (ou uma bronca, rs) da Dona Maria Coeli!

Gostava de coisas simples: a tradicional carne moída com legumes, ovo no leite pro café da manhã, arroz e feijão – que viravam “machucadinho” com muita manteiga e doses extras de carinho. E dá-lhe uma fila de crianças esperando a tal mistura do vovô… Um copo de whisky, alguém tocando violão, um microfone e a noite podia não acabar nunca (só terminava quando Dona Maria chamava para tomar leite – quente ou frio, como quisesse, rs).

E se chovesse? Tinha que ter uma bica por perto! Qual cearense não curte uma bica, a chuva molhando a cabeça, o corpo… De dia ou de noite, chover era uma festa! Posso ver o sorrisão dele debaixo d’água!!!

Era um cara que queria todo mundo por perto… Que venham os amigos e os amigos dos amigos e os filhos dos amigos… Gostava de uma boa roda de conversa, ainda mais se tivesse muita gargalhada junto…

De vez em quando, claro, tinha “Cabralgia”, aquela nostalgia típica, que acabava em choro e mais algumas doses de whisky para equilibrar… Durante toda sua vida, se lembrava dos pais com tanto amor e tanta emoção, que sempre enchia os olhos d’água… E isso sempre me impressionou… Nunca esqueceu suas raízes.

Vibrava pelas nossas conquistas, se fazia presente o tempo todo. Não viveu aqui neste plano por 100 anos, mas suas lembranças e seu legado ficaram aqui e vão permanecer enquanto nos lembrarmos dele.

Amanhã, dia 23 de agosto de 2022, vc faria 100 anos… Parabéns, meu pai!!! ❤️

Te amo por mais 100 anos, pelo menos!

#paulocabraldearaujo

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#paulocabral100anos

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Paulo Cabral – O Político

Centenário- Parte 3

Ele foi prefeito aos 28 anos e eleito Deputado Estadual com 33… Mas a carreira na Comunicação falou mais forte… Tem muita história ainda pra ser contada, olha aí:

“Certa feita, adentrou o escritório de Paulo Cabral, na Ceará Rádio Clube, o Deputado Paulo Sarasate (Diretor do jornal “O Povo”), acompanhado de outros políticos, profissionais da comunicação e estudantes, todos membros da UDN, militância política afim com os conceitos de Paulo Cabral. Fizeram a proposta de lançá-lo candidato a Prefeito de Fortaleza.

Paulo iria disputar com figurões: Dr. Alísio Mamede, grande médico e defensor das esquerdas; o também médico Dr. Paulo Machado (PTN), o Deputado Eretides Martins (PR), apoiado pelo então Prefeito Acrísio Moreira da Rocha; e o Sr. Antônio Gentil (PSD), Deputado Federal, dono do maior banco cearense da época, o Frota Gentil.

Todos os candidatos já haviam feito comícios, propagandas e comitês. Paulo Cabral nem mesmo começara. Anunciou sua campanha no dia 4 de setembro de 1950, faltando um mês para as eleições. Contava ele com um bom conceito junto aos seus conterrâneos, especialmente calcado nas campanhas humanitárias realizadas como radialista. Teve forte apoio da rádio e dos Diários Associados, além de visibilidade nos jornais O Povo, Correio do Ceará e Unitário. Manteve ainda seu horário diário na Ceará Rádio Clube, às 11h55, de segunda a sábado, no qual sua leitura de crônicas atingia números altíssimos de audiência.

Nos palanques, Paulo comparecia acompanhado de seu pai, João Augusto, e da esposa Maria Coeli, levando o primogênito Paulo Júnior pela mão. Assim, mostrava a faceta de um homem de família, que já era amado pela cidade como galã e radialista. Paulo Cabral era a presença carismática de sempre, de voz forte e animada, com direito a jingles de campanha criados por ele próprio.

A coligação que apoiava sua candidatura (UDN-PTB-PDC-PRP) exigia que Paulo assinasse uma carta de princípios e cedesse as indicações dos auxiliares aos partidos. Paulo refutou liminarmente a carta, que considerava ridícula, e, firme em sua posição, chegou a ameaçar deixar a campanha! Gentil Barreira, da UDN, pediu a todos um voto de confiança ao jovem candidato.

Dos 260 mil habitantes da capital, menos de 88 mil podiam votar. Destes, Paulo Cabral conquistou 20.777 votos, um resultado formidável que lhe conferiu, com apenas 28 anos de idade, a Prefeitura de Fortaleza. O Governador do Ceará, eleito no mesmo pleito, foi Raul Barbosa.

Paulo Cabral iniciou a vida pública no dia 31 de janeiro de 1951, afastando-se automaticamente da rádio. Na Prefeitura, constituiu o próprio gabinete com pessoas competentes. Algumas amizades tornaram-se leais membros de sua equipe; novos colaboradores constituíram-se em amigos. A irmã, Luzanira Cabral, e Clóvis de Alencar, eram seus Oficiais de Gabinete. José Bonifácio Câmara exerceu o cargo de Chefe de Gabinete, tornando-se seu braço direito, a ponto de merecer a alcunha de “Conselheiro Câmara” por parte de Paulo Cabral.

O mandato de Paulo Cabral, além de ter sido uma aula de afabilidade e companheirismo no meio profissional, também mostrou competência singular, melhorando a condição de vida dos fortalezenses. Conheça os principais feitos do Prefeito Paulo Cabral baixando sua biografia: “ATRAJETÓRIA DE UMA VOZ” no link https://temquevaler.com/wp-content/uploads/2022/08/paulocabral_biografia_completo.pdf

Apesar do profundo envolvimento de Paulo em sua jornada pública, a paixão estava no rádio. Vez por outra, acabava por visitar a Ceará Rádio Clube. Faltando ainda um ano para o término de seu mandato, Paulo recebeu um convite para retornar aos Diários Associados. Diante da veemência de Chateaubriand, viu-se tentado a abandonar o posto de Prefeito, mas, assim como o poderoso presidente e fundador daquele grupo, era ele também um homem obstinado, valor que Chateaubriand admirava e respeitava. Paulo dirigiu-se até o Rio de Janeiro para agradecer a posição destacada a ele oferecida, mas recusou a oportunidade e seguiu firme na política.

No fim do mandato (que concluiu em 25 de março de 1955), arriscou seguir no legislativo, candidatando-se a Deputado Estadual. No pleito de 03 de outubro de 1954, recebeu 13 mil votos, um número tão alto que teria garantido até mesmo as eleições para Deputado Federal! Era a maior votação a um candidato à Assembleia Legislativa até aquele ano. Logo apareceu, novamente, Chateaubriand com suas instâncias… E, dessa vez, Paulo Cabral cedeu”.

Saudades, pai! ❤️

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O Radialista

Hoje tem mais história! O segundo capítulo das homenagens…

PAULO CABRAL – O RADIALISTA

Continuando as comemorações do centenário de Paulo Cabral (1922-2009), cuja trajetória pessoal é uma amostragem histórica do desenvolvimento dos meios de comunicação no mundo, hoje apresentamos o seu percurso como locutor e sua eterna paixão pelo rádio…

Conheça mais sobre “a cativante história do cearense que brilhou no cenário brasileiro da política e da comunicação” baixando sua biografia: “A TRAJETÓRIA DE UMA VOZ”: https://temquevaler.com/wp-content/uploads/2022/08/paulocabral_biografia_completo.pdf

Com a ajuda de “amadores de radiotelefonia”, Demétrio Dummar deu início à primeira e maior estação de rádio cearense. Sob o prefixo PRE-9, em 1931, nascia a Ceará Rádio Clube.

Em 1939, a emissora organizou um concurso para a contratação de três novos locutores. O processo seletivo se tornou um grande evento, despertando a curiosidade do público, que acompanhava as provas através de alto-falantes instalados na Praça do Ferreira. Após executar com maestria um improviso, Paulo Cabral se avantajou sobre os demais candidatos, sendo aprovado como o primeiro entre os nove concorrentes. Uma vez que o resultado foi dado ao vivo, família e amigos iniciaram os festejos antes mesmo de sua chegada, recebendo-o com uma salva de palmas na rua. Com apenas 16 anos, Paulo sentia o gosto da conquista! Dois anos depois, ele ingressava na Faculdade de Direito.

Na PRE-9, Paulo Cabral cumpriu quase todos os papéis: entrevistas, programas de auditório e radionovelas. Carismático e alegre, conquistou a simpatia da sociedade cearense. Era uma celebridade nas ruas, onde recebia assédio do público.

Paulo Cabral: “Com essa minha cara, que sempre foi uma cara muito feia, de cearense mal-amanhado… mas eu fazia um galã e o meu irmão, José Cabral, fazia outro. E era muito interessante como o povo agarrava a gente na rua para abraçar, para dar parabéns, para pedir que fizesse isso ou aquilo. Uma vez encontrei uma fã, lá na Rua Barão do Rio Branco, e ela diz: “Por que é que você não rouba aquela mulher?! Tome coragem, roube aquela mulher! Satisfaça os desejos dela…”.

Às 13h, Paulo Cabral fazia o “Boa tarde”, faixa em que era lido algum texto literário. Às 21h, José Cabral fazia o “Boa Noite”. Para as poesias de própria autoria, Paulo usava o pseudônimo de Yvo Franco.

Entre os programas de auditório, houve o “Vesperal das Moças”, apresentado com João Ramos e Luciano Carneiro, que incluía músicas e sorteios de prêmios. Também o “Programa de Calouros” era sucesso de audiência. “A Hora do Comerciário” era um programa de auditório que preenchia o tempo de descanso no meio do dia. Com as lojas fechadas, os comerciantes ouviam o rádio nos cafés e na Praça do Ferreira, uma vez que, pelo alto custo do aparelho, tal tecnologia não havia chegado às residências.

Com seu bom humor e farta afetividade, Paulo Cabral comandou também programas infantis, como “O clube Papai Noel” e “A Cidade da Criança”.

Apesar de os leitores constituírem um seleto grupo de cidadãos alfabetizados, o jornal “O Povo” estava determinado a fomentar o gosto pelo saber, oferecendo suas edições a um preço irrisório (200 réis), viabilizado pela fortuna de seu fundador, Demócrito Rocha. A afinidade de princípios do periódico com a Ceará Rádio Clube refletia-se numa visível harmonia editorial.

Paulo Cabral honrosamente protagonizou a primeira chamada da Ceará Rádio Clube em ondas curtas para o Brasil… e para o mundo! Tamanho era o alcance, que chegava até mesmo na Suécia, onde a estação recebeu o prêmio de emissora estrangeira com maior audiência.

Em 1942, durante viagem ao Brasil para as filmagens do documentário “Its All True”, o cineasta Orson Welles concedeu uma importante entrevista a Paulo Cabral (ocasião em que presenteou o brasileiro com um rádio-gravador de aço, o primeiro que Paulo possuiu). A ousadia dessa entrevista, em plena Era Vargas, assim como outras situações em que a Ceará Rádio Clube sustentou sua liberdade de expressão, consolidavam, pouco a pouco, a credibilidade da emissora e de seus colaboradores.

No final da Segunda Guerra Mundial, a juventude das faculdades existentes no Ceará (Farmácia, Odontologia, Agronomia, Contabilidade e Direito) foi convocada para integrar a primeira turma do CPOR de Fortaleza. Em 1943, somando à vida acadêmica e profissional, Paulo incorporou-se ao exército. Antigas e novas amizades tornaram a experiência agradável: Mauro Barbosa Botelho, Péricles Sales Freire, Zenon da Cunha Barreto, Abelardo Barbosa e José Bonifácio Câmara. Juntamente com o alegre e comunicativo Tenente Vitoriano Freire, professor de Transmissões, Paulo Cabral organizou espetáculos fascinantes no pátio do quartel e no sítio “Carrapicho”.

Em 1944, Paulo formava-se Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do Ceará e Oficial da Reserva do Exército Brasileiro pelo CPOR, como “Segundo Tenente da Infantaria”.

A Ceará Rádio Clube era um sucesso entre todas as idades! A aposta no método inovador de entretenimento fez crescer os olhos de grandes empresários e corporações. A política nacionalista de Getúlio Vargas determinava que o controle das empresas de radiodifusão estivesse nas mãos de brasileiros natos ou naturalizados. Por esse motivo, o sírio João Dummar, após uma explícita perseguição política, foi obrigado a vender a PRE-9. O comprador foi Assis Chateaubriand, que incorporou a Ceará Rádio Clube à sua extensa rede de veículos de comunicação denominada “Diários Associados”. Paulo Cabral, com 22 anos, foi mantido no cargo de Diretor Executivo, que ocupava desde os 19, porém agora em nível nacional.

Pela Ceará Rádio Clube, Paulo apoiou com entusiasmo campanhas humanitárias, mobilizando doações em socorro das vítimas das enchentes do Rio Jaguaribe e para “salvar a Santa Casa de Misericórdia”, que, em 1948, ameaçava fechar as portas. O jovem ficava pendurado nos microfones em tempo integral, atuando como animador da campanha, a ponto de quase perder a voz. Todo o esforço valeu, pois os resultados superavam em muito a emergência original.

A crescente popularidade de Paulo Cabral atraiu os holofotes da política…

Paulo Cabral: “Sem nenhuma dúvida, a minha popularidade cresceu enormemente com as campanhas humanitárias, contribuindo de maneira significativa para a construção do lastro eleitoral que me levou à Prefeitura de Fortaleza.”

Semana que vem tem mais!

Muito orgulho, pai! ❤️

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Tem o livro completo aqui também: https://temquevaler.com/wp-content/uploads/2022/08/paulocabral_biografia_completo.pdf

Paulo Cabral, obrigada por tudo 100 vezes!

CENTENÁRIO DE PAULO CABRAL DE ARAUJO

É textão, sim, mas se você quiser ler, não leva mais que 4 minutos 🥰

Agosto é um mês especial para a nossa família. Neste ano de 2022, ainda mais: o dia 23 marca o centenário de nascimento de Paulo Cabral de Araujo (1922-2009). Conhecido de muitos, merece ser conhecido por muitos mais. Assim, nossa singela homenagem será compartilhar semanalmente um pouco de sua vida, definida em sua biografia como “a cativante história do cearense que brilhou no cenário brasileiro da política e da comunicação”.

Sua voz, de timbre grave e envolvente, se fez ouvir nos setores mais influentes de nosso país. Ainda jovem, conquistou os microfones precursores da radiodifusão mundial. A mesma voz o lançou à política; colocou-o à frente de periódicos de relevo; outorgou-lhe o posto de alto executivo dos Diários Associados, como depositário do legado de Assis Chateaubriand; e reservou-lhe assento em nobres acordos sobre a liberdade de imprensa.

Sua fecunda vida transborda em um valioso registro histórico intitulado: “PAULO CABRAL DE ARAUJO: A TRAJETÓRIA DE UMA VOZ”.

Hoje, vamos apresentar um pouco das ORIGENS de Paulo Cabral.

1922. O Brasil se preparava para a primeira transmissão de rádio no país, durante as comemorações do Centenário da Independência, no Rio de Janeiro, capital federal. Na pequena cidade de Guaiúba (Ceará), a 23 de agosto, nascia Paulo Cabral de Araujo.

Com o sustento de um modesto comércio, seu pai, João Augusto de Araujo, fez florescer com Dona Maria do Carmo uma considerável prole: Luzanira, José Cabral, João de Deus, Leilah e Paulo.

Além de prover víveres de toda ordem, Sr. João Augusto exercia a função de farmacêutico e médico do povoado. Era chamado de “coronel”, em respeito às virtudes que distribuía: disposição ao labor, humildade, compaixão, senso de justiça e liderança, compondo junto a seus conterrâneos uma imagem de homem bom – o que culminou, por duas vezes, na sua eleição para Prefeito de Pacatuba.

Antes do nascimento do último filho, Dona Carminha predestinou que seu nome seria Paulo e que seguiria a carreira eclesiástica. Aos 4 anos de idade, após precoce Eucaristia, Paulo Cabral recebeu uma batina de padre. O caboclo saía desfilando seu hábito pela cidade, respondendo pelo apelido de “Padre Véi”. Embora o celibato não tenha sido seu destino, Paulo manteve com fervor sua fé ao longo de toda a vida.

Depois das aulas de alfabetização e piano ministradas em casa, costumava banhar-se na barragem que ficava no terreno de sua casa. Mesmo sendo uma queda d’água baixinha, proveniente do Rio Pacoti, ganhava status e brilho na aridez do Ceará. O garoto era tímido demais para esportes e brincadeiras em grupo. Seu tempo livre transcorria na barra da calça de seu pai, a quem era muito achegado, passando longas horas com ele no armazém.

Dona Carminha não escondia o desejo de morar na sofisticada e moderna capital, onde os filhos pudessem receber educação formal, conquistando “diploma de doutor”! Por um futuro melhor, a Família Cabral de Araujo se transferiu, em 1930, para Fortaleza, assentando residência à Rua do Imperador, no Centro, porção mais movimentada e conceituada da cidade.

Paulo desembarcava em uma urbe que ultrapassara os 100 mil habitantes. Era difícil imaginar algo tão imenso! Seus olhos encontraram a silhueta de uma cidade forte, como o próprio nome anunciava: ruas calçadas com pedra, edifícios imponentes, bondes elétricos, os primeiros ônibus já em circulação e vias com iluminação pública, que abandonava o sistema a gás pela eletricidade. Em contraste a essa prosperidade, graves problemas sociais, entre eles o cólera e a hanseníase, surgiam pela migração em massa de sertanejos, exauridos pela escassez decorrente da histórica seca iniciada nos anos 20.

Comerciantes vindos de outros países e municípios realizaram forte investimento em locais de lazer e periódicos que enalteciam a elite emergente. As revistas Ba-Ta-Clan, A Jandaia e o Ceará Ilustrado, em parceria com casas de moda como A Maranhense, A Nacional e A Cearense, incutiam em seus leitores os costumes da Belle Époque francesa. Pelas ruas da cidade, em meio a pedintes, ou devidamente autorizados nos portões do Passeio Público, homens e mulheres desfilavam charme, com trajes e penteados como que saídos dos cartazes de filmes que enfeitavam o Theatro José de Alencar. A mesma elegância era registrada nas fotografias em estúdio, entre os mais famosos a ABA-FILM.

Foi no Instituto de Humanidades que Paulo concluiu sua alfabetização. Ali, foi diretor em um projeto mirim, o jornal “O Exemplo”, pavimentando, aos 12 anos, o futuro do jornalista que viria a ser. Os colegas José Bonifácio Câmara e Abelardo Guilherme de Freitas Barbosa tornaram-se companheiros eternos. Com eles, juntamente à irmã Leilah, Paulo desbravou o centro da cidade, frequentando a Praça José de Alencar e a Praça do Ferreira, onde erguia-se um bonito relógio conhecido como Coluna da Hora, além de quatro quiosques de aparência artística que abrigavam conceituados cafés.

As finanças da família começaram a decair e o Sr. João Augusto se viu obrigado a vender suas propriedades em Guaiúba. Mas não havia como esquecer aquela terra… Com o coração cheio de saudade, retornavam sempre, provocando encontros que acabavam envolvendo toda a população, com a presença da banda de música da cidade e grupos folclóricos.

Paulo iniciou o Ginásio no Instituto São Luiz, transferindo-se depois para o Liceu do Ceará. Neste período, morou com o irmão José Cabral, de apelido “Lilito”, principal locutor da Ceará Rádio Clube.

Durante o colégio, os rapazes da família Cabral de Araujo, juntamente com outros estudantes aplicados e politizados, fundaram o “Grêmio Machado de Assis”, do qual faziam parte: Paulo Cabral de Araujo, João de Deus Cabral de Araujo, José Cabral de Araujo, Raimundo Ribeiro, Eduino Ellery Barreira, Newton Lima, Geraldo Alencar Nogueira, José Pontes Neto, Amilcar de Castro e Silva e Eliezer Fortes Magalhães.

Tudo prenunciava a pujante juventude que lançaria Paulo nos braços do radialismo, consequentemente protagonizando e testemunhando a vertiginosa evolução dos meios de comunicação no Brasil.

Obrigada por tudo, pai! ❤️

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