Reflexões de uma venda de garagem: despedidas e recomeços

Dizem que vender as coisas antigas serve para reciclar a energia, renovar os ares, deixar a vida mais leve. Nos últimos dias, vivenciei uma venda de garagem (ou, em palavras mais chiques, um garage sale), que nada mais é do que vender partes da sua própria história em busca de começar uma nova…

É quase um jogo de azar, em que você arrisca tudo e não sabe muito bem o que te espera. No fim, entra um dinheiro na conta, claro, mas fica aquela sensação de vazio no coração. Muitos motivos nos levaram a realizar a venda. O término de uma relação de mais de 40 anos (entre namoro e casamento) é apenas um deles.

Agora que a adrenalina baixou e estou numa sala vazia, enquanto a casa segue cheia de bagunça, caixas, roupas e sentimentos fora do lugar, resta o medo. O medo do novo, do novo ciclo, da nova vida — ainda que misturado à curiosidade pelo que vem por aí.

Vendemos de tudo por aqui: de botijão de gás vazio a celulares antigos, sofás e enfeites de Natal, roupas, panelas e eletrodomésticos. No meio de tudo isso, a gente vai entendendo que as perdas são parte da vida.

De tudo que foi embora hoje, duas vendas me fizeram cair num choro abafado: a do piano, especialmente quando o comprador começou a tocar aquele instrumento antigo, quase da minha idade, mas que ainda encheu a casa com a música e as lembranças.

O piano veio parar nesta casa meio que por acaso, mas fez parte da minha vida desde a infância. Nunca passei do dó-ré-mi-fá, mas ele esteve em todas as casas em que vivi na infância e adolescência.

Quando ele (o piano) se foi, tive a sensação de sair novamente da casa dos meus pais. Foi mais uma despedida da infância, da adolescência, da presença física deles. Desabei.

A outra venda que me arrancou lágrimas foi a da “boia de flamingo” da Elisa. Isso porque nosso amigo flamingo nos arrancou muitas gargalhadas gostosas nos banhos de piscina e nas brincadeiras.

Claro que sei que ainda teremos muitas outras (incontáveis) brincadeiras e motivos para gargalhar. Mas o simbolismo da casa, das nossas reuniões, dos churrascos em família, do flamingo na piscina… E eu me acabando de chorar mais uma vez…

O fim de um ciclo traz consigo o luto. É dureza lidar com as perdas. Lógico que o novo pode (e deve) trazer coisas boas. Tenho certeza de que ainda virão muitas músicas, gargalhadas e histórias para contar.

Despedidas sempre foram difíceis para mim e, desta vez, não seria diferente. Afinal, despeço-me do sonho do “felizes para sempre” e do “até que a morte nos separe”. Despeço-me do casal perfeito. Por mais pacífica e madura que tenha sido essa decisão conjunta, é impossível não despedaçar por dentro e não revirar milhares de sentimentos, expectativas, desejos e sonhos.

Não acabou ainda. Daqui em diante, há muita coisa a fazer. O pior talvez nem tenha passado… há as arrumações, as mudanças, o abre e fecha de caixas, a despedida em breve de um lugar que nos abraçou e acolheu nossa família.

Um lugar que viu a família se multiplicar. Casamentos aconteceram aqui, aniversários, festas de fim de ano, Natais, churrascos e confraternizações. Um lugar que também presenciou momentos de dor, quando tivemos que nos despedir da minha mãe, do João e da Dona Wanda. Um lugar que viu dois dos nossos cachorrinhos irem embora (Zeus e Pipoca), mas que também viu outros nascerem: o Otávio, o Jorge e o Luca.

Um lugar que recebeu nossa Elisa assim que ela nasceu, onde ela brinca livremente pelo jardim, inventando mil histórias e aventuras. Um lugar que testemunhou a chegada de uma nova vidinha para nos alegrar: nosso netinho Paulo. Um lugar que, definitivamente, mereceu o nome de lar.

Agora, é preciso pensar que temos muita vida para viver e novos lares para construir – somos bons nisso, afinal. E somos uma família, para sempre.

Vai ser diferente, vai dar medo, mas também será uma oportunidade de conhecer uma nova Regina. Alguém que nem sei direito ainda quem é, mas tenho certeza que é uma mulher mais madura, mais cheia de histórias, mais confiante, mais resolutiva e, talvez, mais exigente também. Foram tantos aprendizados recentes que estou processando.

Vai, Regina! Vai se descobrir. Vai com medo mesmo. Vai com confiança. Você tem muita vida pra viver.

P.S. Há muitos dias tenho pensado em como tenho sido forte, sem chorar, sem retroceder, sem olhar pra trás. Apenas querendo resolver os problemas e lidar com as situações, de forma firme e segura, mesmo sendo a maior chorona que conheço. Mas eu sabia que chegaria este momento de desabafo (e talvez venham muitos outros, já aviso). Escrever sempre me ajuda. Outro dia li um artigo de uma jornalista em que ela dizia: “Escrevo, porque é a única coisa que sei fazer.”  É isso: escrevo porque alivia. Escrevo porque assim consigo me expressar. Escrevo, porque quando termino, fico mais leve. Então, escrevo.

Até já!

Carta para a Regina de quase 60 anos

Neste momento, estou em Pirenópolis – a pouco mais de 150 km de Brasília, mas parece mais longe daqui. Férias, descanso, jornada de autoconhecimento. Uma temporada curtinha – cheguei domingo, hoje é terça e vou embora amanhã. Mas estou aproveitando cada minuto. Sozinha – sem sentir solidão. Nunca tinha experimentado. Primeira vez agora, quando estou a cinco meses de completar 60 anos.

Esses 60 batendo à porta… Por que assustam? Só alguns números juntos. Não me sinto com 60, mas o que significa isso? Posso ter a idade que quiser? Minha idade não me define como a hashtag que uso nas redes sociais? Lá vem eles: toc, toc, toc…

Estou vivendo um período de transformações. Com os 60 batendo à porta. Estou investindo em mim – terapia, consultoria financeira… um pouco de meditação, atividade física com personal trainer. Investimentos que preciso. Tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. Muitos desafios.

E os 60 batendo à porta. O que vai mudar, afinal? Uma carteira de idosa? Estacionamento em locais privilegiados? A aposentadoria do INSS? Ainda não sei. Mas acho que muda mais o olhar das pessoas. Ouvi isso outro dia em um podcast: que a gente envelhece quando o olhar das pessoas sobre nós muda. Pode ser. Tem mudado de alguma forma há alguns anos. A forma como nos chamam de “senhora” com mais reverência… um pouco de complacência também…

Mas a gente envelhece também quando se olha no espelho e a idade tá lá: visível e palpável. As rugas, marcas do tempo, da vida, o colágeno (ah, o colágeno) que se esvai… a pele, mais fina, mais sensível, mais flácida.

Mas, por que isso é importante? Porque os 60 estão ali, batendo à porta.

Voltando à minha temporada: estou lendo Juliana Monteiro, uma jornalista sensível, com uma escrita tão verdadeira que dói. Indicação de outra Juliana – a Oliveira, uma jornalista e advogada e amiga das melhores. Amo. Mais a Barbosa, claro, porque conheço de pertinho e conto com ela todos os dias.

Bom, sobre a Juliana – a Monteiro. Estou lendo uma obra sobre a pandemia (Nada lá fora e aqui dentro). Faz cinco anos que vivemos tudo aquilo. Parece mais. Às vezes, parece menos também. Tanta coisa em cinco anos e meio. Tanta coisa que esquecemos também: o medo, a finitude espreitando, a esperança que o mundo melhorasse, que as pessoas ganhassem doses extras de empatia… As pessoas queridas que se foram com a covid-19. Amizades que ficaram para trás por causa das polêmicas (essas, talvez nem fossem amizades).

Mas o livro me trouxe de volta à minha vida. E à vontade de escrever. Muita vontade de escrever. Talvez por estar aqui nesta jornada de autoconhecimento. Sozinha, mas sem solidão. E com os 60 batendo à porta.

Também me levou novamente a março de 2020. Cinco anos e meio – período em que perdi um irmão, minha mãe, uma amiga de infância, minha sogra. Nesta ordem.

Também ganhei o melhor presente de todos. Virei avó. Foi de uma maneira linda, com muito, muito amor envolvido. Elisa é a menininha mais linda que conheço. E perfeita (piada interna, ela um dia vai saber). Amo com uma força inexplicável. Daquele amor que a gente conhece quando os filhos nascem. E que a gente aprende a multiplicar.

Lá vou eu começar a chorar enquanto escrevo à beira da piscina, escutando as crianças brincarem. Quis escrever aqui, com uma paisagem linda em volta. Sozinha, mas rodeada de gente, de natureza, de música, de risadas de crianças… Não é solitário. Interessante.

E os 60 por aqui, espreitando, batendo à porta. Por dentro, os 30, 40, 50… todas as idades ainda falam muito alto. A mesma vontade de fazer coisas novas. E estou fazendo. O projeto novo do “Solta a Voz, Mulher” tem sido um combustível poderoso. Sempre que chamo as mulheres a soltarem sua potência, sua energia, estou chamando a Regina.

A Regina de 20, de 30, a Regina menina, adolescente, brincalhona, que gosta de dançar e de rir. De fazer os outros rirem. A Regina que ama com tanta força que parece que o peito vai explodir. A Regina que ainda acredita nela mesma. Nas possibilidades. No amor. Na vida.

Caiu um cisco aqui. Segura a lágrima, porque se a primeira cair, vem aí uma cachoeira. Procuro o garçom. Uma água com limão pra ajudar a engolir o choro. Minha mãe gostava de dizer isso: engole o choro. Tadinha… Teve que engolir muito choro. Como se fosse possível acabar com a emoção assim, engolindo. Nunca consegui.

Nem agora, com os 60 batendo à porta.




P.S.: uma nota que não pode deixar de estar aqui: estou tentando há bastante tempo dar uma parada pra respirar. Desta vez, foi possível graças à minha rede de apoio, que amo loucamente. Minha irmã, Carminha, me cedeu as diárias deste hotel incrível, que estou amando. Minha filha, Luciana, me emprestou o carro, porque compreendeu que a jornada começava ali, em Brasília, escolhendo o caminho para percorrer. Sozinha. E minha filha, Gabriela, que está cuidando dos meus cachorrinhos enquanto isso. Obrigada demais, meninas! ❤


Completo 59 anos e começo minha jornada rumo aos 60…

Mais um ano e serei oficialmente idosa! Serei agora então uma “pré-idosa”?

Falar isso em voz alta é complicado, né? Uma mulher com quase 60 anos no Brasil anunciar em alto e bom som a própria idade soa quase como “confessar um pecado”. O etarismo ecoa por todos os cantos, e seguimos enfrentando inúmeros preconceitos contra as mulheres: a menopausa, o envelhecimento, o corpo — se está acima do peso, se está abaixo, se tem muitas rugas, se tem marcas, se tem barriga, se precisa de botox ou de procedimentos estéticos. Pintar o cabelo ou assumir os grisalhos? São tantos pré-conceitos para tratar do envelhecimento feminino…

Aqui dentro, procuro me lembrar todos os dias: envelhecer é um privilégio. Mas dizer que é fácil e/ou glamuroso? Não, não é. É quase corajoso anunciar a idade. Uma incoerência em pleno 2024, quando os estudos apontam para um crescimento no número de pessoas idosas e uma redução da natalidade em praticamente todo o mundo.

E não é só enfrentar o preconceito, é também enfrentar alguns desafios, sim! Se eu, que reconheço os privilégios que tenho, enfrento alguns perrengues por conta do envelhecimento (sim, a menopausa traz muitos incômodos físicos e emocionais que ninguém te conta direito), me pego imaginando as mulheres que não têm acesso à saúde, medicamentos ou procedimentos. A menopausa não é “mimimi”; é difícil de encarar. No Brasil, então…

Por conta disso, sempre achamos normal a mulher (sempre a mulher) “mentir” a idade. Quantas de nós assume – de verdade – a idade que tem? Tive uma professora diferente: minha mãe fazia questão de comemorar “com pompa e circunstância” cada década: 60, 70, 80, 90… Queria ter chegado aos 100, mas nos deixou aos 94. Ainda assim, que privilégio ser de uma família de mulheres longevas! Tanto do lado da minha mãe quanto do meu pai, as mulheres ultrapassam com facilidade os 80 e 90 anos — algumas chegam muito próximas dos 100.

Enquanto isso, a vida até os 59 passa em um piscar de olhos. Clichê? Claro que sim! Mas é verdade: um dia, você tem 40 e acha que já está ficando “velha”. No outro, está prestes a fazer 59, depois 60, e percebe que é só uma “jovem amadurecida”. Claro que você precisa encarar aquela senhora no espelho — como escrevi neste blog há alguns anos.

Definitivamente, não tenho o direito de reclamar da jornada até aqui. Houve percalços, desafios, momentos de tristeza e de perdas, mas não é disso que a vida é feita?

Construí uma carreira, trabalhei em lugares incríveis, casei-me com o meu melhor amigo — e seguimos mantendo o amor e a amizade até hoje. Tive duas filhas maravilhosas, uma neta linda e genros que adoro.

Não é sobre ter uma vida perfeita, como aquele comercial de margarina. Essa existe só nas redes sociais, não tenham dúvidas. É sobre entender que vamos lidando com as pedras no caminho e construindo novos rumos, mesmo quando precisamos fazer viradas bruscas ou escolhas difíceis.

Gratidão é outro clichê? Pois, sinceramente, agradeço por tudo que aprendi até agora e espero continuar aprendendo pelos próximos 40 anos. Sim, acredito que são mais 40 anos pela frente! É o mínimo que posso esperar, considerando a longevidade da família. Sou otimista e acredito que posso chegar lá como algumas dessas mulheres do Instagram — lúcida, independente e com vida ativa aos 80 e 90. Me refiro a alguns ícones, como Fernanda Montenegro, Jane Fonda, Nathalia Timberg, sabe? Claro que elas enfrentam perrengues também, mas seguem dignas e inspiradoras, altivas e lúcidas. É o que almejo.

Enquanto isso, sigo tentando fazer minha parte: atividade física (adoro e faço o possível para manter a regularidade, mas sei que há espaço para melhorar em 2025 – minha personal sabe disso!), uma alimentação “quase” balanceada (Não comentem com a nutri, mas amo comer!), cuidando com muito amor das minhas relações pessoais, buscando aprendizados diários, tomando meu vinho (com parcimônia – quase sempre – e muita felicidade – sempre!), e, claro, fazendo terapia, como todo mundo (quase) normal…

Além disso, tenho como meta manter acesa “a chama do amor que nos anima” — como meu pai nos ensinou — tanto no casamento com Magno como na relação com minhas filhas, genros e minha netinha linda. Tomara que dê certo daqui pra frente como tem dado até agora.

Então, vamos a ele: a mais um ano, mais desafios, aprendizagens, reflexões, encontros e desencontros, momentos felizes e outros nem tanto. A roda da vida continua a girar e, ao fim e ao cabo, é o que importa.

Olá, 59, estou de braços abertos para te receber!!!

Vumbora seguir na busca de viver melhor? Afinal, a vida tem que valer!