Cartas para Elisa 6 (e também para a Regina de amanhã)

Oi, Bebelezinha da vovó! Sento-me para escrever essa carta na véspera do meu aniversário de 58 anos. Pois é, hoje é o dia que você completa 1 ano e 1 mês – 25/12/2023. Amanhã, 26/12, faço 58. Escrevo pra você e escrevo pra mim também. Colocar as palavras pra fora da cabeça (rs) me ajuda a organizar as ideias, a desabafar, a pensar melhor…

Amanhã é meu aniversário e eu posso dizer que me orgulho de tudo que vivi até aqui. Não que a vida esteja sendo fácil. Muito pelo contrário, ela anda complicada, confusa, com muitos desafios, muitos recomeços, muitos percalços. Muitos dias em que preciso dizer a mim mesma para não desistir. Porém, muitas coisas para agradecer neste caminho. Muito mais para agradecer, eu diria.

Na véspera desses 58 anos, estou com saúde. Eu e seu avô. Os dois com saúde, energia e disposição. Nem tanta energia todo dia, nem toda a disposição do mundo, você sabe, né?… Tem dias que a gente cansa. Mas tem saúde por aqui! Muita! E tem muito amor. Como sempre digo, também temos sempre “amor pra recomeçar”… Então, vamos nessa…

Estamos caminhando em direção à nossa velhice, não dá pra negar. Caminhando? Sim, porque não me sinto nadica velha hoje. Não fosse esse tal calendário, essa forma de “contar a vida”, onde os dias, meses e anos vão se sobrepondo e as pessoas vão dizendo que somos crianças, jovens, adultos, idosos, onde nos colocam rótulos e coisas assim, eu diria que ainda tenho quase tudo que tinha da Regina de 20 ou de 30 anos atrás. Um pouco menos de brilho nos olhos? Um pouco mais de rugas e dúvidas? Um tantão mais de saudade no peito? É lógico que sim!

Tem, obviamente, as mudanças físicas, que são difíceis e até esquisitas… Tem dias que eu penso que estou jovem, que tenho “todo o tempo do mundo”. Tem dias que me olho no espelho e vejo uma senhora exausta, com muitas marcas do tempo… Tem dias que me sinto corajosa, tem dias que sou covarde… Tem dias que dá aquela vontade de bater no peito e lembrar de uma trajetória linda até aqui. Mas tem dias, nossa, tem dias que dá vontade de ficar quietinha, como se não houvesse problemas para serem resolvidos, como se não houvesse tanta coisa a fazer…

Hoje, aqui nesse finzinho de dia silencioso, ouvindo as cigarras cantando lá fora no quintal, ouvindo o ressonar do Aquiles aqui do meu lado, “ouvindo” as lembranças da nossa festa de Natal ontem mesmo nesta casa, as risadas e musiquinhas de hoje com você brincando, me sinto pronta para os 58, 59, 70, 75, 80, 85… E para todos os anos que eu puder viver com saúde.

Hoje, abri a janela da sala, olhei o céu azul de Brasília e pensei no privilégio da vida. Principalmente da minha vida, da nossa vida. Temos tanto amor, se temos um lugar quentinho pra morar, uma comida gostosa na mesa e um monte de gente pra amar.

Você e seus pais, Elisa, estavam dormindo aqui em casa. Assim como sua madrinha Gabi e seu tio Caio. Claro que seu avô também estava aqui. Agradeci a Deus, como faço sempre e pensei em como tem sido lindo chegar neste momento, em como a nossa casa tem sido um lugar de encontros felizes, de festas familiares, de como temos tanta gente para amar e curtir, ainda que tenhamos passado por perdas tão dolorosas.

Nem todos os dias são incríveis, nem todos os desafios são fáceis de vencer, nem toda hora a gente acha que “tá tudo bem”… Mas, entrando em um novo ciclo, preciso dizer que estou dando o meu melhor. Nem sempre dou conta de tudo. Estou fazendo o possível, ainda que erre para caramba no caminho e tente aprender com esses erros, mas às vezes, a gente erra de novo. E é assim…

Uma vida real, de erros, acertos, tropeços, conquistas, vitórias, fracassos… Uma vida em que a gente cai, mas “levanta pra cair de novo”, como diria sua bisavó Coeli. Uma vida de muitas, mas muitas mesmo, coisas boas. Uma vida pra agradecer.

E lá vamos nós para mais 365 dias de pura aventura! Que venham os 58!