Cartas para Elisa – número 2

Oi, meu amor!

Você ainda está no quentinho da barriga da sua mãe (que está linda), pesando quase dois quilos e medindo perto de 40 cm. Você já ouve nossas vozes e sente a luz que brilha aqui fora… E o nosso amor por você só cresce!

Eu queria te contar uma história bem linda hoje, mas não vai dar. É dia 2 de outubro de 2022, domingo, e tivemos o primeiro turno da eleição majoritária no Brasil. Você nem imagina como nosso país está confuso e dividido. Mas eu fui votar pensando em você, sabia? Pensando no futuro que eu espero que você possa desfrutar. Pensando que talvez um dia eu tenha a oportunidade de te contar tudo que estamos vivendo e, quem sabe, a gente consiga entender melhor tudo isso. É que os tempos não estão fáceis.

Eu quero muito que você encontre um Brasil melhor do que esse aqui!

Mas a gente vive um momento esquisito, de muita divisão na sociedade. Temos dois candidatos principais hoje, o Lula e o Bolsonaro. Você vai aprender sobre eles nos livros de história, quando estiver na escola. Eu espero conseguir te ajudar a entender tudo isso… Mas vai ser complicado explicar. Vai ser um pouco vergonhoso também, porque vivemos tempos tenebrosos, esquisitos mesmo…

Tivemos uma pandemia nos últimos anos. Já devem ter te contado sobre isso. Foi um período muito triste da história e ainda tivemos que lidar com atitudes anticiência, antivacina… Perdemos amigos e familiares para um vírus, que se chama Sars Cov 2, ou novo coronavírus. Ele provoca a covid. Espero que ele tenha sido dizimado do nosso planeta. Porém, até o dia de hoje, quase 700 mil brasileiros e brasileiras morreram pelo vírus, mas também pela má administração da pandemia, sabe? Muitas mortes poderiam ter sido evitadas. Eu sei que os livros de história vão te contar isso.

Foi nesse cenário que fomos hoje às urnas, no primeiro turno de uma eleição bastante apertada. E, ao escolher minhas candidatas e meus candidatos, eu tinha em mente que, se um dia tiver que contar para você como foi, preciso ter orgulho dos meus votos!  Preciso ter certeza de que estou fazendo as escolhas certas. Neste momento, a gente já sabe que haverá um segundo turno. E isso significa mais tensão por outros 30 dias. É exaustivo…

Escrever pra você ajuda a tornar tudo mais leve, me enche de amor no coração. É uma terapia. Estou adorando, espero que você goste também.

Mas deixa eu te contar como foi votar hoje e como fiz minhas esolhas, olha só:

Eu queria votar só em mulheres, mas não deu. Infelizmente, vivemos ainda uma sociedade em que as mulheres são maioria em número, mas não conseguem alçar os cargos mais altos. Somos minoria nas lideranças públicas e privadas, infelizmente. Uma triste realidade que vivemos, impulsionada principalmente pelo excesso de machismo e preconceito. Ainda tem uma sobrecarga de trabalho e responsabilidade para mulheres, que faz muitas de nós precisarem optar por não investir na carreira, nem na política…

Mesmo assim, em meio a um cenário onde a extrema direita ganha muito espaço no Brasil, tivemos algumas vitórias, sabe? Em alguns estados, conseguimos eleger candidatas trans, mulheres pretas, pessoas homossexuais. E isso parece pouco, mas é bastante significativo no contexto que vivemos hoje. Dá um pouco de esperança, sabe?

No meu caso, precisei escolher candidatas e candidatos que estivessem mais alinhados com o que penso, ainda que não fossem as melhores opções. Não foi fácil. Mesmo assim, tenha certeza de que minhas escolhas foram pensando em você e em um Brasil melhor. Tomara que você se orgulhe de mim.

O que eu espero que você consiga ter quando estiver crescendo no Brasil:

  • Uma sociedade mais solidária, mais empática
  • Uma sociedade menos preconceituosa: com relação à religião, à cor, às identidades sexuais (acredita que as pessoas se preocupam com isso em pleno século XXI?)
  • Menos machismo, racismo e misoginia – infelizmente esses preconceitos matam muitas pessoas no Brasil
  • Um povo menos dividido e mais informado (chega de fake News e enganação)
  • Menos armas nas ruas – acredita que tem gente que acredita que armando a população haverá mais segurança?
  • Mais incentivo à ciência e à educação
  • Mais escolas públicas e escolas técnicas, com oportunidade para todas as pessoas
  • Mais universidades acessíveis
  • Incentivo à cultura, porque a gente sabe que cultura é educação, também!
  • Mais saúde para todo mundo e não só para quem pode pagar caro por ela
  • Segurança e tranquilidade para andar nas ruas, brincar e ser feliz

O meu voto levou também em consideração o que eu NÃO quero que você encontre por aqui:

  • Eu não quero que você viva com medo apenas por ser mulher. O machismo mata muito! É inconcebível que mulheres apoiem atitudes e candidaturas machistas, sabe? E tem mulher que apoia!!! Em 2021, uma mulher foi assassinada a cada 7 horas no nosso país. A cada 10 minutos, uma menina ou uma mulher foi vítima de estupro. Os dados são de uma pesquisa feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública – https://forumseguranca.org.br/publicacoes_posts/violencia-contra-mulheres-em-2021/
  • Preconceito contra a população LGBTQIA+. Estamos em 2022 e as pessoas ainda estão tomando conta da vida dos outros, acredita? E isso também mata, por mais triste que pareça. O Brasil é conhecido por ser um dos países que mais mata essa população. E isso é horrível… E alguns governantes incentivam esse preconceito, sabe? O resultado, infelizmente, é ainda mais assassinatos e violência contra as pessoas.
  • Descaso com as pessoas com deficiência. Mais uma coisa horrível que acontece no nosso País, Elisa… Espero que não seja mais assim quando você puder ler estas cartas.
  • Descaso com os idosos e com a população vulnerável. Estamos deixando as pessoas morrerem de fome nas ruas… Viverem sem um teto, sem dignidade.
  • Governantes despreparados, que não são líderes de verdade. Precisamos de lideranças verdadeiras, pessoas que sejam empáticas com os problemas que afligem a população.

Por incrível que pareça, enquanto no mundo surgem mais e mais lideranças jovens, preocupadas com os temas de inclusão, sustentabilidade, meio ambiente e melhor divisão das riquezas, no Brasil, a gente luta contra (pre)conceitos da Idade Média, sabe? Pessoas que falam em nome de “Deus”, mas que pronunciam frases como: “preferia um filho morto a um filho gay”, “tive quatro filhos homens e, numa fraquejada, tive uma mulher”, “as mulheres vão ganhar armas para se proteger dos homens e cometer homicídios”, “eduquei bem meus filhos para não namorarem com gente preta”, “eu não te estupraria porque você é feia”, “a ditadura devia ter não só torturado, mas matado mais”, “vamos metralhar a oposição”, “os pretos quilombolas não servem nem pra procriação, deveriam ser pesados em arrobas”, “as pessoas estão morrendo, mas e daí? eu não sou coveiro”. Desculpa te contar tanta coisa horrível, Elisa, mas acho importante que essas atrocidades sejam registradas, para que nunca mais aconteçam no País.

Elisa, por enquanto, é isso que eu quero e consigo te contar agora. Mas sei que até você chegar a esta carta e entender tudo que está escrito aqui, já teremos lido juntas muitas outras histórias legais.

Quem sabe você já sabe de cor o livrinho “A Margarida Friorenta”, que sua mãe amava ou então a história de “Flicts”, a cor que ninguém gostava… Quem sabe a gente já tenha visto filmes incríveis, curtido muitos passeios, jogado muitos joguinhos legais, cantado muita música boa, dançado junto como se não tivesse ninguém olhando… E que eu possa ter te ajudado a aprender a andar de bicicleta, fazer SUP e até ioga e meditação! Tomara!!! Porque quero viver tudo isso e muito mais com você!

Elisa, quero que sua vida seja linda e leve, com muita história bonita pra contar. Mas quando não for assim, saiba que estarei sempre ao seu lado, do mesmo jeitinho. Conta comigo pra tudo e vamos juntas em busca desse Brasil melhor!

Ahhhhh!… Eu tenho que te contar depois que fiz um “Curso de Avó” para aprender a cuidar de você desde bem pequenininha de um jeito mais atual, porque algumas coisas mudaram um pouco desde que sua mãe e sua tia nasceram. Mas a gente conversa sobre isso outra hora, tá?

Um beijo bem grande da sua avó, vovó Regina, Tuca, Rê (ou como vc quiser me chamar, tá?)

“E, ao escolher minhas candidatas e meus candidatos, eu tinha em mente que, se um dia tiver que contar para você como foi, preciso ter orgulho dos meus votos!”