Família, família e família

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Paulo Cabral – amigo de muitos, marido apaixonado, pai e avô que infundia graça, estímulo e amor!

Família e amigos – e assim encerramos a homenagem ao Centenário de Paulo Cabral

O último post da série biográfica em homenagem ao centenário de Paulo Cabral apresenta o seu lado amoroso e afável, ricamente exemplificado em sua biografia “A TRAJETÓRIA DE UMA VOZ”.

Em 1944, Paulo Cabral era um homem no corpo de um jovem de 22 anos: Diretor Executivo da Ceará Rádio Clube, dentro da rede nacional de comunicação “Diários Associados”; Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais; Oficial da Reserva do Exército Brasileiro. Mas faltava-lhe uma coisa e, no dia 4 de setembro de 1945, justamente aniversário de Maria Coeli, não faltou mais. Casou-se com ela, a moça mais apaixonante que jamais viu; era sua ouvinte, sua amiga, sua fã, sua nêga.
 
Oito filhos vieram: Paulo Cabral Júnior (1946), Claudia Lireda (1950), Maria do Carmo (1953), Maria Coeli (1955), Marília (1956), João Augusto (1958), Fernando Antônio (1960), Regina Elizabeth (1965).

Maria Coeli foi companheira firme e dedicada, fazendo jus ao carinhoso apelido de “Graciosa Soberana”. Apoiou sua intensa trajetória profissional e as mudanças que ela demandava: Fortaleza, Recife, Belo Horizonte, Fortaleza novamente, Rio de Janeiro, de novo Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Brasília, onde fixaram residência.

Logo nos primeiros tempos de casados, chegou à casa de Paulo e Maria Coeli uma garotinha de 6 anos, que, a pedido da mãe, receberia acolhida e assistência para estudar na capital. Marina Alves Roman ganhou o apelido de Nena e era muito querida por Paulo.

Quando os filhos estavam pequenos, era habitual o “dever de férias”. Claro que todos deixavam para os últimos dias, e ele, depois de uma longa jornada de trabalho, sentava-se para ajudar a todos. Nesse, como em outros momentos, transmitia aos filhos a sensação de que sempre podiam contar com ele.

Foi explorando a arte do ventriloquismo, que a voz de Paulo Cabral assumiu mais um papel, estabelecendo diálogos entre os personagens Chiquinho e Benedito, por ele criados. A dupla conversava através dos cantos da boca do artista, de um lado com a voz fininha (para Chiquinho) e, do outro, muito grave e mau humorada (para o Benedito). Com essa artimanha, atraía a atenção dos pequenos, que acompanhavam estarrecidos as tramas em que o pai incluía estímulos ao dever de casa, à boa convivência etc.

Tarde da noite, Paulo parava para desfrutar da comidinha especial providenciada por Maria Coeli: carne moída, um acompanhamento leve e uma salada de frutas coberta de queijo ralado. Quem estivesse acordado acabava ganhando um pouquinho.

O lar era um refúgio de cantoria e prazer, sempre animado, recheado de amigos. 

Os filhos cresceram em meio a jornais, revistas, rádios e TVs, testemunhando sua entrega, dedicação e realização no trabalho. Paulo procurou dar oportunidades profissionais incentivando filhos e filhas com suas aptidões e competências, tendo-os como pessoas de confiança em diferentes momentos. Irmãos e amigos também tiveram seu apoio, sempre que a vida lhe permitia. Por isso, foi também tão amparado em momentos de necessidade, fosse material ou emocional.

Aos poucos, os netos chegaram, formando uma trupe de 20! E Paulo foi um avô amoroso, brincalhão e presente. Paulo criou rituais dentro da rotina familiar, que se tonaram momentos significativos. Um deles foi o inigualável “machucadinho do papai”, tradição que passou para os netos: uma preciosa mistura de ingredientes, amassados com garfo e muito carinho, regada com manteiga derretida, um toque de molecagem, alegria e bom humor. Cada criança levava o prato até o patriarca, que preparava a iguaria, experimentando uma garfada a cada finalização. Ele mesmo comia sempre frio… O procedimento era finalizado com o “bedibandivô”, uma sequência de beijinhos, de um lado e do outro do rosto, que compensava e realizava o vovô Paulo.

No ambiente profissional, era um homem de trato agradável. Lembrava-se do nome de todos e quase sempre atribuía um apelido carinhoso, que usaria repetidamente. Seu sorriso largo antecipava sua presença e era brindado generosamente a todos: a moça do café, o porteiro, o motorista… Para cada um, o seu “Bom dia!”, forte e sincero. Fazia questão de perguntar sobre o momento de cada um, a saúde, como andavam os filhos – e ouvia com a maior atenção.

Mesmo com tantas mudanças de cidade, as amizades nunca foram deixadas de lado e, vez ou outra, Paulo abria um parêntese em sua atribulada agenda para dar um telefonema anunciando sem pudor o objetivo: “manutenção de amizade”. 

Com a família de José Bonifácio, cujos caminhos seguiram entrelaçados por Fortaleza, Recife, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, os vínculos de amizade se estenderam para os filhos, formando uma família una. São inesquecíveis as temporadas em Araras animadas com cantorias, violão, banhos de riacho na Banheira do Imperador e uísque para espantar o frio.

No Rio de Janeiro, Paulo e Maria Coeli frequentavam animados saraus oferecidos pelo casal Lisbeth e Orlando Mota, com escritores e artistas de renome, como os pintores Antônio Bandeira e Aldemir Martins, os poetas Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. Na casa de João Calmon e Maria Teresinha, igualmente aconteciam noitadas memoráveis, onde ouviam Dorival Caymmi ao piano, além de Hebe Camargo e outras vozes.

Lisbeth Mota, Teresinha Calmon, Sarita Campos, Zenilda Siqueira, Zilná, Sônia Castro, Ednéa Bastos e Teresinha Câmara faziam parte da sagrada mesa de biriba feminina que Maria Coeli integrava.

Rômulo Siqueira, Diretor Comercial da Ceará Rádio Clube na década de 1950, desde então estabeleceu com Paulo Cabral uma estreita convivência profissional que se transformou em fraterna amizade.

A vida social de Paulo era intensa e alegre. Nos restaurantes, costumava chamar o garçom pronunciando em alto e bom som: “Alonso!”. Quando o atendente revelava seu nome, Paulo questionava: “Mas eu te chamei de Alonso. Por que você atendeu?”  E assim iniciava mais um vínculo com as pessoas que o serviam.

Um garçom especialmente querido trabalhava na Churrascaria Parque Recreio, em frente ao prédio onde a família morava no Rio. Chamavam-se reciprocamente de “Doutor”. Quando Paulo chegava, o discreto garçom passava a algum colega a mesa que estivesse servindo, a fim de atender o “Doutor”. A conta, cuja soma não era módica, seria ainda acrescida de um generoso agrado.

Garoto era o motorista responsável por levar Paulo aos locais de trabalho e compromissos sociais, para tranquilidade da família, que assim mantinha o chefe afastado do volante, uma vez que a arte da direção não era bem o seu forte.

Em Belo Horizonte, grandes amigos foram incorporados à convivência: José Vaz, Camilo Teixeira da Costa Filho, Caio César Valli, Sylvio Prazeres, Estácio Ramos, Vicente Prates, Tarcísio Fialho, Luiz Antônio Mendes e Hélio Amoni, que se tornaria homem de confiança de Paulo para assuntos pessoais e profissionais, sendo cumprimentado por ele, solenemente, como “Meu Procurador!”.

Vez por outra Paulo retornava a Fortaleza para acalorar os amores fraternos de longa data. Os filhos acompanhavam toda aquela festa, uma verdadeira celebração da amizade, vinculando-se às origens de seus pais. Entre as boas lembranças que Paulo fez questão de dividir com os filhos, estava o “Banho do Telmo”, programa que levava ele e os irmãos a reviverem travessuras como crianças. Era infalível a ida a Sobral, tendo a companhia do amigo Vianinha, casado com Madu. Paulo enfrentava com boa disposição os 300km de uma estrada cansativa, para estar com sua irmã Leilah.

Junto aos companheiros que partilharam as diferentes etapas profissionais, deixou a marca do homem corajoso, camarada fiel que procurava usar fórmulas inteligentes na convivência e no trabalho. Para muitos, sua participação representou um ponto de partida para melhores oportunidades de vida.

Paulo tinha extrema disposição em atender pedidos que lhe chegavam; se possível, na mesma hora. Uma súplica jamais era esquecida, mesmo que transcorressem tempos para que a solução pudesse ser alcançada.

Como uma confirmação da sua amplitude como comunicador, correção como dirigente, da figura humana e solidária que com tantas pessoas alternou no curso dos anos, a vida de Paulo Cabral foi despertando interesse de pesquisadores e jornalistas. Seu nome passou a ser citado nas universidades de Comunicação.

Semeador incansável da paz, união e amor na família, Paulo Cabral conseguia irradiar o bem-viver através do sorriso fácil e espírito agregador. Desde a saudação personalizada, suas brincadeiras repetitivas, jingles para cada um dos filhos e para os passeios habituais, apelidos para todos os amigos e derretidos poemas para sua amada, a composição de paródias, os discursos marcantes… não seria exagero se chamássemos de verdadeiros hinos à Vida.

Paulo gostava de ouvir a sua voz. Estando todos em silêncio, ele puxava assunto consigo mesmo, em reflexões para lá de criativas. Sabia brincar com as palavras… Dizia que, quando morresse, tinha certeza de que sentiria muita saudade de si mesmo, realidade que o levava às lágrimas com a música: “Naquela mesa está faltando ele, e a saudade dele está doendo em mim…” A perspectiva do final era apaziguada apenas pela certeza de que “a Chama do Amor”, cantada em versos por ele, permaneceria iluminando sua família.

Doutor, essa série de 5 posts que compartilhamos entre os amigos nesse agosto de 2022 é o nosso presente de aniversário. Saiba que a valorosa contribuição de sua VOZ ecoará no mundo por muitos e muitos anos. Não existe ponto final. O que fica não é um vazio. Passa a ser um espaço amplo, pronto para ser preenchido por quem quiser. Infinitamente…

É isso!

Paulo Cabral de Araujo – 23/8/1922 – 20/9/2009

Te amo pra sempre ❤️

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