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Em 23 de agosto de 2022, Paulo Cabral completaria 100 anos. Meu pai, avô de 20, bisavô de 19, quase 20, sogro de 3, amante da vida. Ah, Doutor, como sua voz nos faz falta, e sua eterna presença nos preenche!
Nesse post de homenagem aos 100 anos que estaria completando, damos continuidade à sua trajetória profissional, pormenorizada no livro: “A TRAJETÓRIA DE UMA VOZ”, disponível no link https://temquevaler.com/wp-content/uploads/2022/08/paulocabral_biografia_completo.pdf
Um pedido de Chateaubriand parecia mais uma ordem. Somando-se ao amor pela comunicação, em 1955, Paulo Cabral abriu mão de seu cargo de Deputado Estadual do Ceará para assumir a gerência dos Diários Associados no Nordeste, com sede em Recife.
Um ano depois, dirigia-se à capital mineira, como Diretor-Geral dos Diários em Minas Gerais. A popularização de uma nova tecnologia marcava o momento: o televisor – e a montagem da TV Itacolomi era uma de suas tarefas. Porém, divergências políticas culminaram em seu desligamento do grupo, sendo substituído pelo irmão de Chateaubriand (Oswaldo) e recebendo como indenização 50% das ações da Rádio Verdes Mares de Fortaleza.
Paulo reassumiu suas atribuições legislativas no Ceará, como Deputado Estadual. Ao mesmo tempo, integrou-se ao escritório do concunhado, Abelardo Guilherme de Freitas Barbosa, que representava artigos como óleo de Peroba King, produtos de borracha Orion, vassouras e escovas de dente Condor e as célebres balanças Filizola!
Após concluir seu mandato, em 1959, tornou-se assistente de João Calmon, Diretor-Geral da Diretoria Central dos Diários Associados, no Rio de Janeiro.
Em 1960, Chateaubriand sofreu uma trombose dupla que o deixou paraplégico. Mesmo com a fala e os movimentos prejudicados, continuou a escrever artigos, tendo Paulo Cabral como porta-voz.
Numa manhã de 1965, faleceu o jornalista Geraldo Teixeira da Costa, Diretor-Geral dos Diários Associados em Minas Gerais. Chateaubriand indicou Paulo Cabral para reassumir o timão daquela gigantesca nau, que agora possuía mais um veículo: a TV Alterosa.
Após quase uma década lutando com as sequelas da trombose, Chateaubriand veio a falecer. Seu cortejo fúnebre, naquele abril de 1968, reuniu mais de 60 mil pessoas nas ruas de São Paulo.
João Calmon assumiu a Presidência do grupo. Paulo manteve-se na Diretoria de Minas até ser indicado para Diretor-Geral Central, quando voltou para o Rio de Janeiro.
Com a dinâmica elaborada por Chateaubriand, cada veículo foi capaz de seguir com autonomia, sendo pouco o que a gestão superior poderia fazer naquele momento de dúvidas e divergências sobre o rumo a ser dado ao grupo. Por isso, em 1971, Paulo licenciou-se dos Associados e abraçou a vida empresarial, exercendo por três anos diversos cargos no Grupo Financeiro Bandeirantes.
Em 1974, aceitou o convite para Secretário-geral do novo Ministro da Justiça, Armando Falcão. Ninguém escapava das tarefas indelevelmente memorizadas em seu dinâmico follow-up, um arquivo físico preenchido e atualizado manualmente.
Após essa etapa, em 1979, Paulo foi designado Procurador Geral dos Diários Associados, num momento aterrorizante para o grupo: greves de funcionários, causas trabalhistas, dívidas… Entre suas tarefas estavam apurar, interceder e acalmar os ânimos, além do difícil trâmite com o Presidente João Figueiredo, que olhava com intransigência a derrocada da Rede Tupi e a negociação de dívidas e compromissos financeiros.
Quando, em 1980, o governo suspendeu a concessão de sete dos nove canais de televisão dos Diários Associados, João Calmon renunciou ao comando do grupo, que exercia desde a morte de Chateaubriand, há 12 anos. Em reunião extraordinária, os condôminos elegem Paulo Cabral para a Presidência dos Diários Associados. Assumir essa cadeira foi para ele uma honra… e uma provação.
Quando perderam a concessão das emissoras de televisão, os erros vieram à tona. Paulo Cabral adotou uma posição consciente, levando o grupo com moderação e comedimento, sem extravagâncias. Conseguiu equilibrar a racionalidade, sem perder a paixão que sempre o iluminou. Com um forte trabalho de equipe foi, aos poucos, quitando dívidas e recuperando o prestígio das empresas em cada estado, confrontando diariamente a crença geral de que os Associados tinham se extinguido.
O Brasil retomava a voz e a liberdade abafadas por duas décadas de ditadura. A Era da Informação exigia rever o modus operandi. Paulo Cabral se engajou nesse movimento de avanço tecnológico, convergência multimídia e acelerada globalização. Vendo a vida através de seus 58 anos, com saúde e muita vontade de acertar, atraiu os mais descrentes e a palavra de ordem era transformar os erros em possíveis acertos, sustentando o lema: “não perder a força!”.
Proposta por Paulo Cabral em 1983, e viabilizada em 1989, a Fundação Assis Chateaubriand (FAC) promove o crescimento da juventude, como fez seu patrono durante a vida.
Em uma década, os Associados haviam contornado seus maiores problemas. A competência de Paulo Cabral foi ganhando a confiança do público e dos anunciantes, além de visibilidade. Dos governos recebeu homenagens, condecorações e medalhas. Empresas de comunicação lhe prestigiaram com troféus e honrarias.
Com o falecimento de Varela, diretor do Correio Braziliense, Paulo assumiu também a Presidência do jornal. Aos 70 anos, entrou em um ciclo de contínua geração de energias através do inovar. Foi um tempo de otimismo. Consultorias internacionais, pesquisas junto ao público, congressos no Brasil e no exterior, cursos e visitas institucionais a outros parques gráficos colocavam a equipe em exposição direta à globalização, inspirando-a a atuar como agentes transformadores. Paulo trabalhou como um visionário, adaptando-se a novas mídias para conquistar mais leitores. A modernização visual despertou a atenção do público e angariou premiações internacionais. A equipe foi tomada por novas perspectivas e os profissionais trabalhavam com entusiasmo. O Correio tornou-se um jornal ousado, que não omitia o seu posicionamento. Para Paulo, a liberdade estava carregada de deveres, conceito que foi executado com severidade nos jornais sob seu domínio. O Correio passou de 35 mil exemplares para 70 mil em 3 ou 4 anos. Em abril de 2000, foi inaugurado um novo e moderno Parque Gráfico, com toda a cúpula da República presente.
Para sanar as enormes dívidas que o jornal arrastava, revisaram a administração, enxugando mordomias e cargos.
Em 1994, Paulo acumulou mais uma função, ao suceder Jayme Sirotsky na Associação Nacional de Jornais. Durante três biênios, empenhou-se em revolucionar o jornalismo brasileiro. Promover os recursos humanos em meio a tantas mudanças tecnológicas foi a grande perspicácia de sua direção. Sua dedicação assegurou-lhe o respeito dos colegas. Sua astúcia e criatividade impressionaram os profissionais da área.
Ao assumir a ANJ, Paulo protagonizou um momento importante do jornalismo americano, discursando na Conferência Hemisférica sobre Liberdade de Expressão, promovida pela Sociedad Interamericana de Prensa (SIP) na Cidade do México. Nessa conferência elaborou-se a Declaração de Chapultepec, uma carta de princípios que foi assumida pelo Brasil em 1996. Em 1997, Paulo substituiu Pedro Pinciroli (Folha de São Paulo) como Vice-Presidente Regional para o Brasil da Comissão de Liberdade de Imprensa da SIP. Em 2000, integrou-se à Diretoria da SIP, sediada em Miami (EUA), com centenas de jornais filiados das três Américas, na qual atuou até 2002.
A performance de Paulo como radialista, político e executivo atestam que ele era um “mestre da palavra”, razão pela qual ocupou, em 1999, uma cadeira na Academia Cearense de Retórica.
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