
Aquela senhora no espelho me cumprimenta e me pergunta como estou. Respondo que me sinto ótima, às vezes um pouco cansada, mas ótima, ainda assim. Ela me conta que vai fazer 55 anos daqui a menos de 30 dias, mas que se sente bem mais nova, uns 40, no máximo. Que se não fossem as rugas, os cabelos brancos que insistem em aparecer por baixo da tinta do cabelo, a pele mais flácida, a feição mais cansada, nem teria percebido a chegada dos 55. Também assusta pensar que já se aproxima mais dos 60 do que dos 50, não acha? Penso que sim, respondo sem pensar muito. É que os 60 já são a terceira idade “oficial”, completa. E me confidencia que a pressão deve ficar ainda mais insuportável: não fez plástica? Não acha que deveria? Não quer parecer mais jovem? Não deveria emagrecer? Agora tudo é mais complicado sim, imagino eu. Ela me responde que sim, tudo complica. A pele não é mais a mesma, as mãos não escondem o tempo, assim como o pescoço… O tempo não perdoa, fala reflexiva.
Mas, por dentro, me diz que pouco mudou. Carrega os sonhos da menina de 20, a determinação da mulher guerreira de 30 anos, a ousadia da mulher dos 40 e a maturidade dos 50 anos. Que a idade aparece mais por fora… E que às vezes isso dói um pouquinho, revela. É um momento em que “o corpo não combina mais com a cabeça“, lhe disseram uma vez. Agora entende bem como é.
Aquela senhora no espelho decide que precisa se maquiar, quem sabe esconder uma ou outra marca, quem sabe ressaltar uma ou outra qualidade. Quem sabe só dar uma melhorada para garantir um dia com a auto estima mais elevada. Arruma o cabelo, põe perfume, escolhe uma roupa, respira fundo e vai viver! Sabe que tem um dia corrido pela frente. A vida ainda é agitada, ainda bem, ela pensa no mesmo instante. A vida ainda exige coragem, força e muita determinação. E ela ainda quer tudo isso e muito mais. Quer trabalhar, viajar, fazer festa e seguir amando a família, os amigos, a vida.
Inspira, expira e toca em frente! Que venham os 55, 65, 70, 90. Se for com saúde e amor, tá valendo. Tem que valer!
A senhora do espelho é a mesma que aparece nas fotos, mas nem sempre é lembrada. Porque enquanto ela pedala, trabalha, brinca, ri da vida e de si mesma, ela ainda é a menina sonhadora, a guerreira determinada e a corajosa amadurecida.
A imagem que tem de si ainda não tem tantas rugas e nem os cabelos brancos. Aquela senhora no espelho é só uma parte da sua história.