Cena 1 – (a conversa) – Um casal reunido em um cubículo, onde dormem 3 crianças de 8, 6 e 3 anos. Os dois estão sentados numa mesa disposta num cantinho, observando as crianças dormirem no único colchão de casal que existe no espaço, ocupado ainda por uma geladeira e um pequeno fogão. Os guarda-roupas foram doados, as portas não fecham direito. O sofá maltratado está coberto por lençóis, indicando que eles terão que se dividir entre o espaço que sobrou da cama e o sofá, se quiserem dormir. Discutem a necessidade de sair daquele local, ameaçados que estão pelas constantes chuvas. Mas o pouco dinheiro que conseguem durante o mês não está sendo suficiente para pagar comida, transporte, alguma roupa para as crianças (a chuva também trouxe o frio), material escolar, aluguel, água, luz.
Cena 2 – (hora de acordar) – Toca o despertador do celular. São 3h30 da madrugada. Ela acorda ainda sonolenta, mas sabe que precisa levantar, prepara o café da manhã com o pouco que tem, cozinha o almoço – uma “mistura”, como ela chama, um pouquinho de tudo que conseguiu, mas tem arroz e feijão e uma carne pra dar gosto, deixa o do marido na marmita, toma um banho rápido no chuveiro frio, sai pra trabalhar. Deixa um bilhete pra vizinha que vai cuidar das crianças hoje. Pede que não esqueça o remédio do pequeno, ele tá tossindo muito, ela explica no papel mal escrito, com erros de português. Anda pouco mais de 1 km pela rua esburacada, por onde corre um esgoto a céu aberto. A rua fede. A chuva continua. O caminhão de lixo não consegue entrar na rua de terra esburacada e castigada pelas chuvas mais recentes, então ela vê vários sacos de lixo espalhados, rasgados, sendo levados pela água, o lixo já bóia. A água já cobre o sapato, mas ela tem fé que nada de mal vai acontecer. Deus há de prover aquela família. Chega às 5h no ponto de ônibus, debaixo de chuva, sabendo que vai enfrentar (se der sorte) umas 2h30 pra chegar ao trabalho, no mínimo. Talvez sejam 3h com a chuva. Mas ela chegará. Pode ser que a patroa dê uma bronca, vai perder a hora de passar o café e preparar as frutas, a tapioca. Pelo menos, terá uns R$ 150,00 na volta para comprar a comida do restante da semana, pagar o gás, talvez. Tá o olho da cara, o gás, quase R$ 80,00. Vai sobrar pouco, ela pensa. O marido também sai de casa, um pouco mais tarde, já que faz bicos pela vizinhança, às vezes na oficina que fica algumas ruas acima. Tira no máximo um salário mínimo por mês, quando muito. Tem que se virar pra pagar o aluguel do cubículo, a luz, compra algumas coisinhas, garante o mínimo. As crianças estão com saúde e é melhor não reclamar. Deus há de prover.
Cena 3 – (o fim do dia) – A chuva vai piorando ao longo do dia, a saída do trabalho está complicada, os ônibus não param do ponto. Ela espera mais de uma hora, a roupa tá ficando encharcada, o frio começa a castigar. Este é o só o primeiro ônibus, ela pensa. Está morrendo de preocupação com as crianças, mas a vizinha não ligou, isso deve ser um bom sinal. O celular dela não faz ligação, só recebe, ainda não deu pra comprar crédito. Deixou um celular com crédito em casa, nunca se sabe quando as crianças vão precisar. Leva quase 4 horas pra chegar em casa… Já são mais de 8 da noite. Com a chuva, nem conseguiu parar no mercadinho e comprar umas coisinhas, mas dá pra se virar no jantar com um pouquinho da comida que a patroa deu pra ela levar pra casa. Sobrou uma comidinha lá na casa onde ela faz faxina. Que coisa boa, ela pensa. Criançada vai gostar. Dá pra fazer uma mistura diferente, tem um franguinho. Chega com a situação bem pior na rua, mas ainda consegue passar. As crianças estão assustadas, correm pra mãe quando ela chega. A vizinha teve que ir embora mais cedo, deixou os pequenos sozinhos. Pelo menos a TV ainda funciona. O muro da casa da vizinha está ameaçando cair, ela não podia esperar mais. O marido ainda não voltou, está ajudando outros vizinhos que estão em situação pior, os móveis estão começando a ficar molhados. Empilha umas roupas que estavam num móvel baixo, calça o sofá com tijolos, porque a chuva começa a molhar o tecido.
Cena 4 – (o marido) – O marido chega tarde, molhado, troca de roupa, cai na cama exausto. Nem deu tempo de conversar, que pena. Mas ela ainda não pode dormir, Precisa tentar limpar o pouco que não molhou, tenta salvar umas roupinhas, põe a criançada pra dormir, vai lavar a louça, arrumar o que é possível.
Cena 5 – (a chuva) – A chuva é impiedosa à noite, invade a casa, mas as crianças estão a salvo. A lama e a sujeira tomam conta do lugar. Os vizinhos estão saindo às ruas, alguns já perderam tudo. Eles até que têm sorte. A casa fica no ponto mais alto da rua. A água só cobre uns 30 cm. Dá pra salvar muita coisa, até o cachorrinho está em cima da cama. Deus há de prover, não foi isso que o pastor falou? O marido sai de novo, vai ajudando quem pode ajudar, a rua já está muito cheia, a geladeira do vizinho está no meio da rua, muita bagunça, parece que tem gente dentro de uma casa que desabou na outra rua. Estão chamando voluntários para ajudar. O sofá do outro vizinho também está boiando, tem crianças chorando, com medo, a água está correndo como um rio na rua suja, cheia de lixo, de móveis velhos, de roupas boiando… Ele quer ajudar, mas pode fazer pouco, tem até carros sendo levados pela correnteza… Ele enfrenta, vai um pouco mais longe, tá ouvindo gritos de socorro. Podiam ser seus filhos, pensa. De repente, a água ganha força e ele é tragado, levado com a correnteza. A mulher grita, mas ele não ouve mais. Onde será que ele está? Com certeza, vai se agarrar a alguma coisa. Ela não pode deixar as crianças. O menorzinho tá chorando de novo, a tosse não para. Melhor esperar o dia raiar, as autoridades devem aparecer, ela pensa. Os bombeiros vão chegar, terão ajuda. Foi o que disseram. Foi o que ouviu na igreja. Entra em casa, reúne as crianças para ficar mais quentinhos. Fazem uma oração, pedem que o pai esteja a salvo. Deus há de prover. Conseguem cochilar um pouco, mesmo assustados com o barulho da chuva.
Cena 6 – (as autoridades e a imprensa) – O dia amanhece. Ele ainda não voltou. Ela faz mais uma oração. Hoje não vai dar pra trabalhar, pensa. Ninguém vai poder ficar com as crianças. As autoridades aparecem quando a água baixa, umas 12 horas depois. Vem um monte de repórteres, todos com botas, galochas, capas de chuva. Nada do marido ainda. Os vizinhos estão desesperados, muito móvel na rua, muito lixo, alguns desaparecidos, ninguém sabe o paradeiro de duas crianças que estavam sozinhas na casa do fim da rua. O pastor, o político, o gestor público. Estão de terno, de bota, de casaco, de capa de chuva. Os repórteres mostrando tudo, muitas câmeras, muitas perguntas. Ela não quer nem ver, nem falar, mas estão muito perto de sua casa, o único lugar da rua que a água não chegou ao joelho.
Cena 6 – (os discursos) – O pastor diz que “as pessoas gostam de morar aqui perto porque gastam menos tubo para colocar cocô e xixi e ficar livre daquilo”. Ela pensa no esgoto, no mau cheiro, nas crianças que ficam doente frequentemente porque brincam com a água suja. Pensa em quantas vezes as torneiras ficam secas, em quantas vezes a água chega lamacenta e sem condições de cozinhar. Pensa no nojo que sente quando ferve a água pras crianças beberem, mesmo sabendo dos riscos de doença.
O gestor público afirma que “A culpa é de grande parte da população, que joga lixo nos rios frequentemente”. E prossegue: “tem certas coisas que o cidadão tem que fazer por si mesmo para evitar mortes e acidentes”. Ela lembra que o caminhão de lixo não chega lá. Que o saco de lixo tá o olho da cara, que as sacolas do mercadinho arrebentam com o lixo antes mesmo de ela conseguir entregar pro lixeiro.
O pastor diz que a população precisa estar atenta a “essas coisas da higiene do dia a dia e também do cuidado na hora em que for escolher a sua moradia”. Escolher? Ela pensa… Não havia opção. Foi sendo expulsa da cidade, do bairro, dos endereços um pouco melhores. O marido perdeu o emprego depois daquele bendito acidente quando carregava uns sacos de cimento no caminhão. Perdeu a força nos braços. Ficou desempregado, coitado. Analfabeto, mal sabe escrever o nome e ainda sem forças? Foram obrigados a procurar alguma coisa mais barata. Ela sente saudade de quando morava perto da mãe e dos irmãos, lá do outro lado da cidade, onde a chuva castiga bem menos…
O político aproveita o momento pra fazer palanque e garante que se for eleito, vai mudar aquela situação, vai ajudar aquelas pessoas. Mais um que promete, ela pensa. Mas acredita que um dia alguém vai olhar por eles. Tem fé.
Cena 7 – (o final, ou o recomeço) – Corta para a nossa personagem: em casa, sozinha, com os 3 filhos, sentindo frio. Já não tem notícia do marido há 2 dias. Soube que uma vizinha morreu eletrocutada. Que o marido da outra morreu afogado. Tem umas crianças desaparecidas, disseram, mas ela ainda não sabe quem são. Mas Deus há de prover. Liga a TV, ouve o noticiário: “Neste verão, o total de mortes por chuvas no Sudeste já chegou a pelo menos 140, 70% a mais do que no verão passado, quando houve 82 vítimas”. Faz uma oração para acharem o marido com vida, ainda que não tenha mais esperanças. Consegue agradecer por não morar mais perto do morro, onde sabe que morreu ainda mais gente. Um trovão ecoa, a luz invade a janela. Ela escuta novamente a TV: “o total de desabrigados e desalojados no período passa de 87 mil, segundo dados da Defesa Civil. 200 pessoas ainda estão desaparecidas na Baixada Santista”. Em seguida, ainda tem o político falando que “vão até lançar um programa novo: o Balsa Família!”. Parece que ele quis fazer uma piada, disseram. E a luz apaga de vez. Talvez amanhã não consiga mais dormir em casa, pensa. Pode ser mais seguro levar as crianças para um abrigo. Disseram que a prefeitura está montando abrigos.
O dia está clareando, não pregou os olhos com medo da tempestade e ainda esperando receber notícias do marido. Está pronta para recomeçar. Só não sabe onde, nem como, mas sabe que pode recomeçar. As crianças tossem, ela assusta, mas continuam a dormir. Não sabe o que terá pra dar pra elas comerem, mas dará um jeito. Deus está ao seu lado, ela sabe disso. E confia.
Obs.: todas as aspas atribuídas aos políticos são verdadeiras. Terrivelmente verdadeiras.